Depois de perder a mãe, Downey Jr. fala do longa 'O Juiz'

Ator fala da emoção que sentiu ao ler o roteiro do longa

Entrevista com

Robert Downey Jr

Cleide Klock - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

12 Outubro 2014 | 03h00

LOS ANGELES - Durante um julgamento, no qual Hank Palmer é o advogado de defesa, toca o celular: ele não atende e a mensagem deixada na caixa postal diz que a mãe dele morreu. Assim começa o drama, O Juiz, um equilíbrio entre diálogos bem-humorados e cenas cheias de emoção, algumas que fazem o espectador se sentir mal diante das armadilhas da vida trazidas pela velhice e doença. Robert Downey Jr. é o advogado e sai da audiência, abandona o cliente para ir ao velório da mãe, única pessoa da família com quem tinha um contato mais próximo. Há 20 anos não falava com o pai, um juiz de uma cidade do interior, papel de Robert Duvall.

O personagem durão de Downey Jr. se mostrou mais fraco que o próprio ator. Cinco dias depois da morte da mãe, Downey Jr. recebeu a imprensa para falar sobre O Juiz, primeiro filme da sua produtora Team Downey. Nem uma palavra sobre a perda, o que logo o remete ao título do personagem pelo qual mais é lembrado: é o próprio ‘homem de ferro’.

Durante a entrevista, em Los Angeles, é brincalhão, sarcástico, como seu super-herói e é difícil saber se esta é mais uma atuação do ator que reverteu sua história e virou o herói da própria vida ao superar a prisão, a dependência de drogas e se transportar para o topo do ranking dos mais bem pagos de Hollywood, título que acumula há dois anos. Pela frente, vem aí Os Vingadores 2: A Era de Ultron, em 2015, com Downey Jr. no elenco e, na sequência, Sherlock Holmes 3. Sobre Homem de Ferro 4 tem feito mistério e até confundido os fãs. Em entrevista à TV americana, nesta última semana, em um dia disse que estaria negociando para embarcar em mais uma aventura solo e no dia seguinte voltou atrás, falando que deve fazer outras produções da Marvel, mas não a sequência de Homem de Ferro. Aguarde as cenas dos próximos capítulos.

Pois é difícil abrir mão dessas tramas rentáveis do ‘mundo da fantasia’ mesmo tendo saudade de ficar com pé na realidade.

“O Juiz é sem dúvida o melhor filme no qual me envolvi nos últimos tempos, é sobre pessoas reais e acho que o público se identifica com os relacionamentos do enredo”, diz o ator em entrevista ao Estado.

Hoje quando fala-se de você, logo se remete a papéis mais engraçados e ao próprio Tony Stark (Homem de Ferro) ou ao detetive Sherlock Holmes. Nesse filme você volta ao drama. Sente-se confortável em qualquer gênero?

Sim, acho que posso ter muitas faces. Podemos chamar esse filme de drama, há cenas de partir o coração. Em alguns momentos só de ler o roteiro, começava a chorar e minha esposa Susan perguntava: “Você está chorando ao ler o roteiro?” Eu dizia: “não posso suportar isso” (fala com voz de choro). Ela que é a produtora do filme me chamava a atenção: “É melhor você se recompor, não quero vê-lo chorando em cada cena”. Mas O Juiz é extremamente divertido, acho que todo drama tem que ser assim, os melhores que já assisti na minha vida, em alguns momentos ri muito, porque eles são como a vida real.

Esse filme trouxe algo diferente para você como ator já que é mais real do que outros papéis que fez ultimamente?

Sem dúvida. Sinceramente, no começo pensei que estava apenas fazendo um favor para Susan, pois ela estava tão apaixonada por essa história. Então percebi que poderia ser catártico e um necessário novo ponto de partida para mim. Você tende a fazer o que as pessoas querem e esperam de você e isso pode ser uma armadilha. Já vi isso acontecer com outras pessoas, fazem comédia, ação, drama, porque os espectadores as reconhecem desse modo. Então vi que tive a oportunidade de voltar a fazer o que tinha feito há muito tempo.

Vários dos seus filmes são sobre redenção, renascimento e reconexão. Isso é importante para você?

Eu gosto disso. De vez em quando você vê um filme como O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, sem nada de redenção, mas é incrível. Isso às vezes acontece. Mas eu certamente não gosto de histórias apenas niilistas ou sombrias. Jamais diria: “Cara, eu quero fazer algo realmente violento, cortar a cabeça de alguém”, por exemplo. Não, eu não. Eu só quero fazer coisas que são divertidas.

Como você define essa primeira experiência também como produtor?

Você tem que ser mais agradável. Não podia pensar somente no meu personagem, mas em todos. Meu foco era no grupo, em todos os papéis, nas cenas de cada um e no bem-estar de todos.

Você teve um pequeno papel em Chef, projeto que era uma paixão para Jon Favreau. Ele dirigiu, produziu e atuou. Você se vê seguindo esses passos de fazer todo um projeto por paixão?

Eu sempre digo “cuidado com os projetos pelos quais é apaixonado”, mas eu não sei por que eu digo isso. Apenas soa bem.

Este filme toca em temas de legado, do que ele recebe quando volta para casa, do irmão, do pai, do primeiro amor. Pelo que você gostaria de ser lembrado na sua vida pessoal ou profissional?

Você sabe o que eu amo sobre as pessoas que são ícones de Hollywood? Descobrir toda a história proibida e nada convencional de cada uma, é engraçado. Tenho quase 50 anos, mas eu meio que sinto que estou realmente crescendo um pouco, por isso vou ter que falar sobre isso mais para frente.

Você desistiu de escrever uma auto-biografia, por quê?

Eu percebi que se escrevesse não teria mais o que falar nas entrevistas, iria dizer: “Olhe na página 74 (rindo)”. Além disso, eu já estava com Susan e ela tinha um emprego estável, por isso não precisava do dinheiro.

Você está produzindo o novo filme sobre Pinóquio, poderia falar um pouco mais sobre essa produção?

Eu vou ser Gepeto. Começamos a desenvolver uma versão de uma Itália pós-guerra. É a história de um cara que a família tinha um teatro, mas ele nunca tinha produzido nada lá. Em uma noite, começa a esculpir algo que aos poucos vai ganhando vida. É tudo que eu posso falar por enquanto e que vai ser muito bom.

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