Silvana Garzaro
Silvana Garzaro

Daniel de Oliveira enfrenta a cultura do ódio no filme 'Aos Teus Olhos'

Ator interpreta um professor acusado de pedofilia nas redes sociais no novo longa de Carolina Jabor, que estreia dia 12

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 Abril 2018 | 06h00

Daniel de Oliveira tem acompanhado seu novo filme – Aos Teus Olhos, de Carolina Jabor –, em foros nacionais e internacionais, com muito mais disposição do que qualquer produção de que tenha participado antes. Fora do Brasil, esteve nos festivais de Nova York, Havana e Chicago. No último, ouviu de um professor de educação física – “Cara, o personagem do filme sou eu.” Na ficção de Carol, um professor de natação é acusado de pedofilia pela mãe de um aluno nas redes sociais. Durante um dia de enlouquecer, ele é denunciado e condenado no tribunal da internet. Linchamento moral. Provas não são necessárias. Basta colocar a suspeita na rua.

Pai de três meninos – Moisés, Raul e Otto –, Daniel entrou de sola no projeto desde que a diretora lhe propôs o papel. “Pensando puramente do ponto de vista da dramaturgia, um personagem desses não merece vacilo do ator. Tem de pegar logo. É um achado, um presente. Rubens começa solar. Um trabalho de que gosta, o carinho das crianças, carro, namorada, ele parece ter tudo, mas rapidamente esse mundo rui e Rubens fica acuado, sem nem saber como reagir.” Em encontros com o público, no Brasil e fora, Daniel pôde sentir como é atual o tema de Aos Teus Olhos, que deve estrear em 12 de abril. “Vivemos um mundo em que as pessoas estão abrindo mão da privacidade. Compartilhamento virou regra, uma forma de legitimação. É como se a aprovação dos outros fosse necessária. Se a maioria te salvaguarda, você está feito.”

Como pai, como ser humano, Daniel nem consegue avaliar como reagiria. “Só esperaria ter a sensatez de avaliar, conversar e não reagir atropelado pelos acontecimentos.” Como ator, ele acha que não defendeu apenas sua parte. “Tentei, e sei como é difícil, ver o ângulo de todo o mundo. O pai do menino, a diretora da escola, o colega.” E embora o roteiro seja muito bem escrito, com riqueza de pontos de vistas, Daniel diz que foi ao original de Josep Maria Miró, O Princípio de Arquimedes, publicado em livro no Brasil. “A peça é muito forte, foi premiada na Espanha”, explica. Reviu também A Caça, do dinamarquês Thomas Vinterberg, que deu a Mads Mikkelsen o prêmio de melhor ator em Cannes. “Tanto o texto como o filme exploram essa área instável de fragilização do humano. É como se atolar na areia movediça, o que produz um sentimento de depressão. Me assusta essa radicalização, esse ódio.”

O que mais o encanta no filme é o fato de não ter uma resposta final. “Se (Aos Teus Olhos) fosse mais careta, ia tranquilizar o público no desfecho. Ficam dúvidas e a Carol (a diretora) não dá conforto. Nem podia. O cara é condenado sem julgamento, esse é o ponto. E do jeito que a Carol filma, quando ele é agredido, nem vemos o agressor. A coisa é maior. É a sociedade, o mundo todo contra ele.” Daniel entende o fenômeno das redes sociais e a importância que assumiu no mundo. Nos EUA, em Cuba, no Brasil, as hashtags adquiriram um peso muito forte. São nova forma de estar, de ser, se comunicar. Ele prefere se manter mais reservado. “Até como pai me preocupa o futuro. Precisamos preparar as novas gerações para serem mais generosas. A internet deve ser uma ferramenta para a melhora pessoal e coletiva, e não como campo de batalha. O risco é sempre esse – a palavra tem de ser preservada, mas não podemos ficar absorvendo como definitivo o juízo dos extremistas, imbecis e reacionários.”

O ator admite que gosta de trabalhar nessas áreas sombrias de representação social e individual. “Acho importante ousar, não ficar preso a uma imagem.” Um simples olhar sobre suas escolhas cinematográficas revela o gosto pelos papéis fora da curva, a começar pelo Cazuza de O Tempo Não Para, A Estrada 47, Sangue Azul, Órfãos do Eldorado. “Como ator, gosto de ser colocado à prova. Papéis que desestabilizam.” Na TV, a mesma coisa – Cobras e Lagartos, O Rebu, Nada Será Como Antes e Os Dias Eram Assim, no qual criou o vilão. “É uma coisa libertadora”, esclarece. “Essa coisa de ser o lado escuro permite fazer e dizer coisas diferentes da vida da gente.” O que Daniel promete, a seguir, na TV? “Não tenho nada previstona Globo, mas fiz um trabalho que considero importante. A BBC me chamou para fazer a narração, em inglês, dos sete episódios da série Blue Planet 2, que deve estrear no dia 22, Dia da Terra.” No Brasil será apresentada pelo Discovery Channel. A série de história natural explora ecossistemas marítimos. A primeira temporada, vale lembrar, foi premiada com dois Emmys.

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