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Crítica: 'Inferno ' faz teoria da conspiração e apocalipse no Indiana dos símbolos

Ron Howard é um grande realizador e, às vezes, um grande cineasta – e um autor. Embora tenha recebido seu Oscar por Mente Brilhante, seus melhores filmes são trabalhos com o ator Chris Hemsworth, na contramão de Thor. Chamam-se Rush – No Limite da Velocidade e No Coração do Mar. Em ambos, Howard exercita sua devoção pelo mestre John Ford. São filmes que reinventam a relação mítica de John Wayne e James Stewart em O Homem Que Matou o Facínora, de 1962.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2016 | 05h00

Howard era muito jovem quando trabalhou com os dois atores no crepuscular O Último Pistoleiro, de Don Siegel, de 1976. Pode-se imaginá-lo bebendo as histórias das carreiras gloriosas dos dois. Existe essa vertente fordiana, portanto, mas existe outra que remete a Alfred Hitchcock, de quem Stewart foi um dos (grandes) atores. A série de Robert Langdon, adaptada de Dan Brown, reproduz lições do segundo sobre o suspense.

Inferno é melhor que O Código Da Vinci e Anjos e Demônios. Em termos de cinema, isso não significa muito, porque nenhum dos dois filmes goza da reputação de grande. O próprio Howard fez melhor, nos filmes com o astro de Thor. Mas, prazer culpado ou não, é muito interessante viajar nos enigmas propostos por Brown, e decifrados por Langdon. O personagem é um erudito que entende de símbolos melhor que ninguém. Como aventureiro, é um Indiana Jones da simbologia. A Itália histórica é seu território privilegiado.

O ‘inferno’ do título é o de Dante, na Divina Comédia. De cara, assistimos à perseguição e morte de um cara que descobriremos depois ser um bilionário. Na sequência, encontramos Robert Langdon num hospital, desmemoriado e caçado por uma policial que não pensa duas vezes antes de disparar. O bilionário, preocupado com a superpopulação da Terra e os sucessivos ataques ao meio ambiente, tem um plano (malthusiano) para erradicar a superpopulação – um vírus. Todo mundo corre atrás dele. Para contrabandear, para desencadear seu poder letal. E só Langdon, com seu conhecimento dos signos nos círculos do inferno de Dante, pode decifrar o enigma.

A perseguição, através de Florença e Veneza, termina num subterrâneo em Istambul. Nada é o que parece ser. Há muito de prestidigitação nas reviravoltas da trama. Orson Welles, como Harry Lime, em O Terceiro Homem, dizia que a Suíça, tão pacifica, produziu relógios e que a Itália dos Bórgia, tão sangrenta, fez o Renascimento. A peste, que Zobrist quer fabricar, produzirá, segundo ele, um recomeço, como a Peste Negra, na Europa, foi seguida pelo Renascimento. Howard é ótimo, quando sucinto. Há um segmento sobre um romance de Zobrist e outro sobre uma ligação que persegue Langdon. O diretor excede nesses momentos. Dependendo do olhar, há uma humanidade genuína que se superpõe ao inferno de Dante revisto por Howard.

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