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Crítica: Steve Jobs é humano e contraditório em filme de Danny Boyle

Criador da Apple é visto em três momentos da carreira

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Luiz Zanin Oricchio,
O Estado de S. Paulo

16 Janeiro 2016 | 03h00

A primeira coisa a ser dita a respeito de Steve Jobs, do diretor Danny Boyle, é que não se trata de uma cinebiografia convencional, daquelas que acompanham o personagem do berço à tumba e se propõem a esmiuçar a vida do personagem. Boyle, filmando um roteiro de Aaron Sorkin (de Rede Social e também autor de várias séries para TV), quer traçar um perfil impressionista do criador da Apple. 

Ou seja, procura o retrato pelas bordas, vamos dizer, flagrando-o em três situações bem delimitadas, sempre precedendo o lançamento de um dos seus produtos. A opção obedece a um traço de personalidade de Jobs, o de homem do espetáculo, showman para quem não bastava a excelência técnica, mas contava a dramaturgia de apresentá-la ao público, que vibrava com ele como se fosse um popstar – e era mesmo. 

Desse modo, logo de início, vemos os tensos momentos que precedem a apresentação do Macintosh. A máquina deveria saudar o público com uma voz parecida ao do computador Hal de 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Mas a placa de som emperra e talvez a voz não saia. Um detalhe. Mas para Jobs era questão de vida ou morte. 

A cada vez que for apresentar novo produto, Jobs (Michael Fassbender) se encontrará com os mesmos personagens. A começar pela fiel escudeira Joanna Hoffman (Kate Winslet), que o protege de todos, mas também o relembra de suas obrigações. Aparecem a ex-mulher e a garota Lisa, a filha que ele não quis reconhecer. E também Steve Wozniak (Seth Rogen), cofundador da Apple, e o CEO John Sculley (Jeff Daniels), que representa uma figura paterna, mas que ficou famoso ao demitir Jobs da empresa.

A atuação de Fassbender é um show e Kate não fica atrás. Aliás, todo elenco está muito bem. O que é essencial, porque não se trata de glorificar (ou demonizar) um ícone de nossa era tecnológica, mas expor-lhes as nuances de caráter e suas contradições humanas. Jobs reluta em admitir, mas é um ser autoritário e controlador, que busca o reconhecimento a qualquer preço. 

Ao mesmo tempo, ao se tornar rico e famoso, ele se coloca num pedestal rodeado de gente implorando por uma parcela de reconhecimento de sua parte. A começar por Wozniak, que lhe pede o óbvio, no tom mais digno deste mundo: que, em suas apresentações, Jobs lembre-se de mencionar a equipe que criou o produto e não trate a invenção como obra solitária do seu gênio. Há outros reconhecimentos que são pedidos a Jobs e que não dizem respeito a poder, dinheiro ou genialidade. São apenas da ordem do humano e começam por Joanna que, obviamente, é muito mais do que uma profissional competente e dedicada. E culminam com a filha, sempre negada e sempre presente. Esse drama do reconhecimento confere espessura ao perfil de Steve Jobs. 

 

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