Mary Cybulsky
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Crítica: 'Paterson' mostra a poética do simples como antídoto aos excessos alienantes

Filme, de maneira sutil e suave, nos leva a pensar a contrapelo, em outra dimensão

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

20 Abril 2017 | 04h00

O que é a poesia? Algo que afasta as pessoas da realidade, ou, pelo contrário, as aproxima do que é essencial? Eis aí uma velha questão, contraintuitiva, que desafia o senso comum. Para este, poetas são seres distanciados da vida prática, lunáticos, sonhadores. Para um poeta de verdade, como Lautréamont, pelo contrário, nada mais prático do que uma boa poesia, pois aproxima o homem do mundo, do qual ele se distancia na luta cotidiana. São temas que podem ser encontrados neste belo, original e docemente emocionante Paterson, de Jim Jarmusch. 

Sim, Paterson (Adam Driver) é um motorista de ônibus na cidade de ... Paterson. Essa redundância é o primeiro achado poético do filme. Depois, de maneira inesperada, Paterson também acaba por escrever poesias. E, mais, vive poeticamente. Ou seja, tem contato com as coisas, na contramão da maneira distanciada e voltada para si que passa por normalidade em nossos dias. 

Paterson, o homem, é tão poético que escreve poesias sem qualquer pretensão de ser publicado, ficar famoso, ganhar dinheiro. É como se escrevesse para si em primeiro lugar, o que é boa definição do que seja vocação literária. Se alguém precisa escrever, se o impulso para a escrita nada tem de pragmático, mas expressa apenas sua necessidade interior, então sim se pode dizer que se é um escritor. Aliás, era um dos conselhos que Rilke dava ao jovem poeta. Se conseguir não escrever, não escreva. Se não tiver jeito de evitar, então você é um poeta. 

Paterson é um pouco assim. Vive sua rotina, mora com sua esposa, Laura (Golshifteh Farahani), e um cão. Ela tem veleidades artísticas, mas não sabe bem o que fazer, se cozinha ou toca música country. A cidade é pequena, os moradores se conhecem pelo nome, a rotina é bem determinada. Vidas pequenas, como todas. 

No entanto, Jarmusch consegue impregnar essa rotina de certa aura, de modo que, em vez de parecer melancólico, soa apenas como evocação de paz - esta outra palavra em desuso e que pode ter até conotação negativa num mundo que valoriza o conflito, o movimento incessante, a competição como valor indiscutível e obrigatório. Paz parece coisa de gente preguiçosa ou derrotada pela engrenagem implacável do contemporâneo. “Zona de conforto” virou expressão de tamanho negativismo que nos esquecemos que muito do esforço humano se deve justamente à busca pelo conforto e pelo apaziguamento. 

De modo que o filme, de maneira sutil e suave, nos leva a pensar a contrapelo, em outra dimensão. E o faz de maneira sábia, nada boboca, sem assumir ares dessa picaretagem bem-sucedida chamada “autoajuda”. Mergulha no poético, e não apenas em seu enredo. Jarmusch busca um estilo visual apurado e plácido, de cores definidas, porém nunca gritantes. Joga sobre a tela as letras de que se compõe a poesia do protagonista, forma, talvez, de lembrar que a poesia depende da materialidade da escrita. Tudo é exposto sem pressa, sem angústia, sem qualquer vontade de impor ou convencer. Se o estilo é o homem, o estilo de Paterson define o filme.

 

No fundo, há algo de zen, de piada iluminadora, do koan que, pelo absurdo, leva ao insight. Como artista do minimalismo, o diretor de filmes como Daunbailó, Estranhos no Paraíso e Dead Man dá, com Paterson, uma piscadela para Yasujiro Ozu, o mestre japonês que achava que a rotina tem lá seus encantos. A poética do simples é um bonito antídoto aos excessos alienantes do mundo contemporâneo.

 

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