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Crítica: 'A 5ª Onda' mostra o risco de perdermos nossa humanidade

O diretor J. Blakeson faz mais do que um relato de paranoia neste filme sobre a ameaça dos alienígenas de conquistar a Terra

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S. Paulo

15 Fevereiro 2016 | 03h00

J. (de Jonathan) Blakeson costuma ser o roteirista dos poucos filmes que realizou, mas em A 5ª Onda quem assina o roteiro, adaptado do livro de Rick Yancey, é Susannah Grant. Agora que todo mundo já bateu à vontade – a tônica dominante das ‘críticas’ é que o filme apresenta “mais do mesmo” – talvez se possa lançar um olhar diferenciado sobre o longa. Quem viu o trailer sabe do que se trata, só não sabe que é uma franquia, que termina em aberto.

Chloë Grace Moretz faz a heroína, Cassie. E na cena inicial ela se esgueira por um mundo em ruínas em busca do que pode encontrar numa loja de conveniência. Encontra um sujeito ferido, que se alegra porque ela não é um dos ‘outros’. E como ele sabe? Porque, se não, ela já teria atirado com seu rifle. O que se segue tem, por objetivo, mostrar o estado do mundo e o risco de perdermos nossa humanidade, mas aí a narrativa retrocede ao início para contar como Cassie chegou lá. Mais do mesmo? A 5ª Onda não se pretende uma fábula distópica e muito menos futurista, como Jogos Vorazes e Maze Runner.

Talvez, para efeito de fruição do filme ou evitar risco de spoiler, o leitor(a) deva parar aqui, retomando a leitura depois de ver A 5ª Onda. O filme passa-se no presente e a onda do título é precedida pelas vagas precedentes, que fazem a súmula sobre como alienígenas – os ‘outros’ – chegaram para conquistar a Terra. É muito mais um relato de paranoia como Independence Day, mas Blakeson, aleluia!, não é Roland Emmerich. Ele coloca uma garota na pele da ‘resistente’, não o bando de marmanjos liderado por Will Smith e pelo próprio presidente dos EUA. E, de cara, Cassie diz uma frase ao pai, que busca tranquilizá-la dizendo que estão bem, porque o Exército chegou. E por que temos de confiar nesses caras, ela pergunta?

Não parece grande coisa, mas é subversão total, pelos padrões dos blockbusters, que atribuem ao Exército o papel de salvador. Os outros, na verdade, já estavam na Terra, parte deles, pelo menos. E a 5ª onda é esse momento em que eles vão exterminar os humanos remanescentes, como Cassie e uns poucos. Boa parte do relato ocupa-se do esforço da garota para chegar à base em que está seu irmão pequeno, recrutado pelo Exército. No caminho, ela quase morre. Faz descobertas – como a de que humanos recrutados pelos ‘outros’ podem atravessar crises de consciência. Faz o rito de passagem, não apenas matando, mas através do sentimento (e do sexo).

No final de A 5ª Onda, talvez seja uma mulher, não mais garota, dividida entre dois homens, dois amores. Com quem vai ficar? Os ETs serão derrotados? Tudo vai depender da bilheteria de A 5ª Onda. Chloë é linda e segue uma carreira interessante – blockbusters, ou aspirantes a (o remake de Carrie, A 5ª Onda) e filmes de um perfil mais autoral, como Acima das Nuvens, de Olivier Assayas. Seus ‘pretendentes’ são o ex-colega de escola, Nick Robinson, o irmão mais velho de Jurassic World, e o estranho da floresta, o pouco conhecido Alex Roe. A 5ª Onda é bem decente como filme de ação teen. E tem alguma coisa do velho Amanhecer Sangrento (Red Dawn), de John Milius, de 1984, sem a polarização do clima de Guerra Fria da era Ronald Reagan.

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