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Crime da crônica policial, que remete ao mito

Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S.Paulo

05 Junho 2014 | 21h 08

Não é moleza fazer o que O Lobo Atrás da Porta se propõe - reconstituir na tela um crime terrível, um dos delitos-tabu de todos os tempos e mais ainda da atualidade. No caso, se pode dizer que, além do mais, o faz com surpreendente coragem e eficácia. A história é de arrepiar. E de arrepiar é a maneira como o diretor Fernando Coimbra a conta, de maneira crua, apostando mais em sensações do que em diálogos.

As referências de O Lobo Atrás da Porta são a um tempo míticas e históricas. No plano mítico, remete a Medeia (conforme a peça de Eurípides) e o assassinato dos filhos. No histórico, refere-se ao caso policial carioca conhecido como “a fera da Penha”, um clássico da crônica policial dos anos 1960. O crime horrorizou a todos e horroriza até hoje com seu relato de infanticídio.

O fato é que Fernando Coimbra se inspira de maneira um tanto vaga na história real de Neide Maria Maia Lopes, presa pela acusação de sequestro e assassinato de uma menina de 4 anos, em 30 de junho de 1960.

Vale-se mais de uma reconstituição opressiva do subúrbio carioca, em Oswaldo Cruz e Marechal Hermes. As vidas vazias e oprimidas, o desejo do amor, a rivalidade, as pulsões de crueldade e vingança enrustidas - tudo isso se expressa numa narrativa na qual nem tudo é dito ou mostrado de modo explícito. Para contar o caso, o filme se vale do poder da imagem e do suspense criado justamente por aquilo que se omite na narrativa direta.

Ou seja, O Lobo Atrás da Porta se esquiva das facilidades que o próprio tema proporia. Não cede ao apelo fácil do horror nem busca escorar a escolha criminosa numa determinada psicologia dos personagens - em especial na de Rosa (Leandra Leal). Deixa uma margem de indeterminação nas motivações - e isso só faz aumentar o incômodo trazido pela história. Quando compreendemos tudo, o entendimento serve como uma espécie de alívio. Quando algo - e talvez o essencial - nos escapa, é como se o crime nos rondasse de perto. Não existem monstros, embora possam existir atos monstruosos. Mas, mesmos estes, são cometidos por seres humanos. Por isso nos dizem respeito.

Boa parte do mérito cabe a Leandra Leal, que encarna uma Rosa bastante crível em seus ciúmes, sua insegurança e sua decisão fatal. Mas também se deve destacar a maneira como a direção escolhe a forma com que essa credibilidade da atriz, e do elenco em geral, vai se expressar. A câmera de Lula Carvalho faz outro tanto com seu trabalho. Por exemplo, quando a personagem mira um barranco alto, numa tomada de vertigem é como se de fato pressentisse o abismo que tem diante de si. É visual; nada mais precisa ser dito ou acrescentado.

Como filme de suspense, O Lobo Atrás da Porta mostra eficácia. A trama é desenrolada pelo trabalho de um delegado (Juliano Cazarré), que investiga o desaparecimento de uma criança. Interroga a mãe (Fabíula Nascimento) e o pai (Milhem Cortaz) até descobrir que este mantinha um caso extraconjugal, e que algo a mais poderia estar por trás do sumiço da garota.

Se o filme se sustenta na tarefa convencional de manter o espectador preso à sua trama de mistério, vai além como proposta de investigação dos desvãos da natureza humana. E o faz, convém ressaltar, sem o vício recorrente do cinema brasileiro, que é o de deixar tudo muito explícito, claro e didático por medo de que o espectador não entenda o recado ou tenha preguiça de decodificá-lo. Neste caso, existe a confiança em quem vai a uma sala de cinema para encontrar algo diferente do habitual fast-food servido pela TV.

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