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Criativo, 'O Homem das Multidões' tira público do conforto

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo

01 Agosto 2014 | 02h 00

Para falar de um homem invisível, Marcelo Gomes e Cao Guimarães voltaram ao formato quadrado, como se estivessem abrindo uma fresta na tela grande

Ambos são muito engraçados. Um café da manhã com Marcelo Gomes e Cao Guimarães – numa padaria de Pinheiros – para falar de O Homem das Multidões vira uma festa de risos, como se o assunto em discussão fosse um desses blockbusters de comédia que assolam o cinema brasileiro. Faz sentido. Os diretores de comédias falam a sério de seu trabalho, tentando dar relevância a filmes que, na maioria das vezes, não têm (e não por serem comédias, claro). Gomes e Guimarães, pelo contrário, estão falando de coisas tão densas que só rindo mesmo para seguir em frente. Em primeiro lugar, não acredite nos que definem O Homem das Multidões como somente ‘bom’. É muito melhor que isso e já que estamos em agosto, com dois terços do ano já andados, é bom ir pensando numa provável lista de melhores de 2014. O Homem das Multidões estará, com certeza, com Praia do Futuro, de Karim Aïnouz.

Gomes e Aïnouz são pernambucanos e já dividiram a direção de Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo em 2009. Parceria não é exatamente novidade para Gomes. O Homem começou a nascer há dez anos, quando Gomes montava em BH o mais belo filme brasileiro da retomada, Cinema, Aspirinas e Urubus. O pernambucano estava solitário, deprimido nas Gerais. Sua montadora era amiga de Cao Guimarães. Salvou-o o mineiro. Os dois se aproximaram, descobriram afinidades cinematográficas. Decidiram que iam trabalhar juntos. Guimarães já tinha o projeto de adaptar o conto de Edgar Allan Poe, que poderia se inserir em sua recém-iniciada (com A Alma do Osso) trilogia da solidão. Os primeiros tempos da parceria foram só de conversa. O Homem das Multidões começou a surgir há sete anos. Sete! O resultado não é só um filme sobre a solidão nos tempos da internet. O Homem das Multidões também investiga a linguagem. É um filmaço.

Marcelo Gomes pode ter feito o melhor filme da retomada, mas o último, antes de O Homem das Multidões - Era Uma Vez, Eu, Verônica - talvez seja seu pior, apesar dos prêmios que recebeu no Festival de Brasília, em 2012. Cao Guimarães, que codirige O Homem com Gomes - pega a deixa. “Quer dizer que eu salvei duas vezes o Marcelo? Resgatei-o da solidão e lhe dei agora uma injeção de qualidade?” O mineiro e o recifense são muito animados, e estão mais felizes ainda com a repercussão que o filme já teve no Brasil (prêmio de direção no Festival do Rio de 2013) e na passagem por vários festivais do exterior. Gomes retruca, alfinetando o repórter. “Já vi você mudar de opinião sobre alguns filmes. Quem sabe daqui a uns dez ou 20 anos o Verônica não fica bom?”

Nilton Fukuda/Estadão
Parceria. Gomes e Cao: observações humanas e sociais

O lançamento nacional de O Homem das Multidões está sendo pequeno. Não se intimide com a restrição de salas e horários, muito menos com a etiqueta de cinema experimental já colada no filme. Para falar de um homem invisível, Gomes e Guimarães radicalizaram. Voltaram ao formato quadrado, como se estivessem abrindo uma fresta na tela grande para flagrar a pequena vida de Juvenal. É o nome do protagonista de O Homem das Multidões, interpretado pelo ator do Grupo Galpão Paulo André. Juvenal é condutor de trem no metrô de Belo Horizonte. Leva uma vida medíocre. De casa para o trabalho, do trabalho para casa. Juvenal é um anônimo. Encaixa-se à perfeição no cinema da solidão de Cao Guimarães. Integra o que não deixa de ser uma trilogia, iniciada com A Alma do Osso, de 2004, e que teve prosseguimento com O Andarilho, em 2007.

A origem da história - que não é bem uma história, no sentido tradicional, mas um delicado emaranhado de observações humanas e sociais - está num conto do escritor norte-americano Edgar Allan Poe. Quando decidiram que iam trabalhar juntos, Guimarães lembrou-se do conto de Poe. Isso foi há dez anos, mas Gomes e ele só começaram a trabalhar de verdade no projeto há sete. E não foram sete anos de dedicação exclusiva. Gomes e ele seguiram fazendo seus filmes individuais. Acidente, Andarilho, Ex-isto, de Guimarães. Verônica, de Gomes. O que havia de atraente no original de Poe para os dois era a abordagem da solidão na cidade grande. Era algo com que podiam se identificar, e com a certeza de que estariam tratando de um tema universal.

“Começamos a trabalhar quando o Marcelo ganhou uma bolsa na Alemanha e ficou baseado em Berlim. Eu fui ao encontro dele depois de apresentar O Andarilho em Veneza. O fato de estarmos numa cidade que não era nossa, ajudou bastante”, relata Guimarães. Os personagens começaram a se desenhar. Além de Juvenal, Margô, interpretada por Sílvia Lourenço, que disfarça sua solidão na internet. Tudo com ela é virtual. “Naturalmente o filme foi tomando esse formato. Basta olhar ao redor para se ver uma geração inteira cujas relações são intermediadas pelo celular.” Gomes acrescenta, e agora não é para rir - “É assustador.”

Margô, supervisora de Juvenal, escolhe o noivo e busca o padrinho para a cerimônia de seu casamento na internet. Alimenta peixes virtuais. A relação com o pai é distante. “O próprio encontro dos dois, de Juvenal e Margô, é desconfortável para ambos”, Gomes reflete. “Ele sai da zona de conforto ao ser convidado para ser padrinho. Ela organiza esse casamento sabendo que não tem a quem convidar.” A solidão, que pode ser um problema, também é importante e até necessária. “Ela te obriga a te reinventar”, diz Guimarães. Juvenal e Margô, como personagens, se complementam. Ela não quer entrar no metrô. Ele gosta de se inserir na multidão, de estar no meio de um monte de gente, mesmo sem ter nenhum interlocutor. Juvenal se insere para ver a vida passar.

Nilton Fukuda/Estadão
Cena de "O Homem das Multidões"

O formato quadrado, com o plano mais fechado, surgiu como uma ideia de isolamento dos personagens - na cidade como na vida. Gomes e Guimarães filmaram um quadro normal, mais amplo. Adotaram uma máscara para restringir o visual. Fizeram uma descoberta que foi fundamental. “Existe um monte de coisa ocorrendo no extracampo, coisas que o espectador não vê, mas intui. O público tem de criar na cabeça o que pode estar ocorrendo naquele momento fora do campo”, diz Guimarães. “O filme vai contra aquilo que está tratando. A solidão, o isolamento, porque exige a participação do espectador. Nós o reclamamos como interlocutor”, define Gomes.

Um terceiro personagem importante nessa história é o pai, interpretado pelo crítico e escritor Jean-Claude Bernardet. Aos 78 anos, que completa amanhã, Bernardet teve a coragem de iniciar nova carreira, como ator. Aos diretores de O Homem das Multidões, ele confessou - “Precisei me reinventar para viver mais.” Bernardet também está em outros filmes, inclusive em Periscópio, de Kiko Goifman, que passou no recente Festival Latino. “Jean-Claude pensa o cinema o tempo todo. Ele discute a cena com a gente, contesta. Mas na hora de filmar, se a gente diz chega, ‘Vai lá e faz assim’, ele segue fielmente as indicações”, relata Gomes. 

O HOMEM DAS MULTIDÕES

Direção: Marcelo Gomes e Cao Guimarães. Gênero: Drama (Brasil/2013, 95 minutos). Classificação: 14 anos.