Corpo Aberto
Corpo Aberto

'Corpo Delito' acompanha o cotidiano de personagem monitorado por uma tornozeleira eletrônica

Filme, de Pedro Rocha, flagra as contradições de uma liberdade vigiada

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2017 | 19h06

Como é ser jovem, impaciente, cheio de hormônios e viver com uma tornozeleira no pé? Essa é pergunta que anima Corpo Delito, de Pedro Rocha, um dos contemplados da 2.ª edição Histórias que Ficam, promoção da Fundação CSN (braço social da Companhia Siderúrgica Nacional). O filme estreia hoje, às 19h, no Unibes Cultural (Rua Oscar Freire, 2.500), com entrada gratuita. Os ingressos devem ser retirados uma hora antes, na bilheteria. Após a sessão, haverá debate com o diretor e especialistas da área. 

Que área? A da Justiça. Aqui, não a Justiça dos grandes casos, da Lava Jato e da Odebrecht, mas, digamos assim, a Justiça nossa de cada dia. A dos pobres, ignorada pelas manchetes dos jornais e distante dos noticiários da TV. A Justiça dos pequenos infratores, como o personagem de Corpo Delito, Ivam, rapaz de 30 anos que, depois de cumprir oito em cárcere fechado, sai em liberdade condicional, com a tornozeleira no pé. 

Corpo Delito é um documentário de observação. Evita comentários em off, não conta com nenhuma voz exterior que dê significado às cenas. O sentido vem dessas cenas e apenas delas. 

Então vemos o personagem voltando para o convívio da família, da esposa Gleice, e da filha de 6 anos, Glenda, que ele mal conhece. A liberdade vigiada - essa contradição em termos - é o que mais incomoda Ivam. Monitorado pelo aparelho eletrônico, ele só pode fazer o trajeto que o leva de casa ao trabalho e vice-versa. Quem está de fora pode argumentar, e com toda razão, que é muito preferível ser submetido ao monitoramento eletrônico do que ficar confinado em uma das medievais prisões brasileiras. 

Verdade, mas isso não parece consolo para quem está com o aparelhinho no pé e louco para cair numa balada. A pulsão da juventude tenta Ivam a cometer algo que ele sabe ser um desatino. Ao mesmo tempo, o documentário realiza uma imersão no cotidiano das periferias. Registra um modo de vida, uma linguagem, suas gírias, seus desejos e valores. É documento precioso para compreendermos um Brasil e suas gentes que teimamos desconhecer. 

 

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