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'Coração de Tinta', de Iain Softley, é ode à imaginação

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo

31 Dezembro 1969 | 21h 00

Filme com ator Brendan Fraser, de 'A Múmia', une ação, aventura, humor e uma pitada de horror

Em 1984, o diretor alemão Wolfgang Petersen fez o filme História Sem Fim, sobre um garoto que entra num livro mágico e salva um reino ameaçado de destruição. Sua compatriota Cornelia Funk tinha 29 anos, na época. Ela com certeza viu História Sem Fim. A influência é transparente sobre a trilogia Ink, que Cornelia iniciou em 2003. O primeiro livro é Coração de Tinta. O segundo, de 2005, Sangue de Tinta. E o terceiro, de 2007, Morte de Tinta. Juntos, formam a série Mundo de Tinta. Coração de Tinta virou filme com Brendan Fraser e você sabe - desde A Múmia, seu nome é sinônimo de aventura recheada de efeitos especiais. A mais recente havia sido o remake de outro livro famoso - Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne.   Veja também: Trailer de 'Coração de Tinta'    Ação, aventura, humor, uma pitada de horror, muitos efeitos - tudo isso se faz presente em Coração de Tinta. O filme dirigido por Iain Softley pertence à série de adaptações de best-sellers que dá o tom deste fim de ano. São filmes como Crepúsculo e Marley & Eu, adaptados dos livros de sucesso de Stephenie Meyer e John Grogan. Destinam-se à família, ao público juvenil, crianças. Brendan Fraser era um belo ator quando fez Deuses e Monstros, de Bill Condon, mas a série A Múmia ajustou-o ao papel de clone de Indiana Jones. É o que ele volta a ser em Coração de Tinta. O herói - Mortimer, ou simplesmente Mo - é um restaurador de livros que viaja com a filha, Meggie. Busca um livro, em especial. Na mesma hora em que encontra um raro exemplar de Inkheart, surge o misterioso Dedo Empoeirado. E começa a caçada.   Mo é um leitor particular. Ao ler Coração de Tinta, ele faz com que coisas escritas ocorram de verdade e personagens saiam das páginas - mas, para que isso ocorra, o livro absorve pessoas que lhe são próximas. Sabemos, assim, que Mo persegue uma cópia de Coração de Tinta para tentar restaurar sua família. A mãe de Meggie foi devorada pelo livro e o herói quer resgatá-la. Dedo Empoeirado, pelo contrário, foi expelido do livro. Ele quer voltar - para as páginas e para a mulher. O vilão Capricórnio, que se deu bem neste mundo, busca trazer uma força sinistra, o Sombra, para ampliar seu poder.   Todo esse entra-e-sai de livros se presta não apenas à criação de efeitos, mas também ao diálogo entre obras. Mo lê As 1001 Noites e da caverna de Ali Babá sai o ouro para financiar as maldades de Capricórnio e um dos 40 ladrões - Farid -, que vai se integrar ao núcleo do bem. Meggie descobre possuir o mesmo dom do pai e, ao ler em voz alta O Mágico de Oz, de Lyman Frank Baum, ela resgata o cãozinho de Dorothy, Totó. A escolha deste livro não é fortuita. O Mágico de Oz, de 1900, é um marco na renovação da literatura infantil. Baum era um pedagogo que considerava os velhos contos de fadas obsoletos. Seu objetivo era criar histórias menos violentas, com figuras atraentes - e sem moralismo, pois o papel moralizador, ele acreditava, devia caber à família e à escola.   Seu livro foi adaptado para o cinema em 1939 e virou clássico - impregnado de moralismo hollywoodiano, mas esta é outra história. Na versão dirigida oficialmente por Victor Fleming, Judy Garland faz a garota que tenta voltar para casa, em Kansas, de onde foi afastada por um ciclone. De O Mágico de Oz e ...E o Vento Levou - ambos creditados a Fleming - até E.T., de Steven Spielberg, o cinemão desenvolveu os que talvez sejam seus temas mais tradicionais, a segunda chance e o retorno ao lar. É disso que trata Coração de Tinta. Mo busca segunda chance para reconstituir a família, mas Dedo Empoeirado também quer voltar para o livro e para a mulher, tão bela que é interpretada por Jennifer Connelly. Dedo Empoeirado é Paul Bettany e nem a rainha Helen Mirren, no papel da excêntrica tia Eleonor - um estereótipo tipicamente inglês -, consegue ofuscar o brilho do ator, cujo personagem é o mais complexo de Coração de Tinta. No início, ele parece integrar a gangue de vilões. Seu comportamento é ambivalente e pouco confiável, mas, no limite, Dedo Empoeirado é um homem desesperado que vai provar ser ético, também.   Coração de Tinta parece infantil, mas existe ali dentro uma construção ficcional interessante. Em busca de um exemplar do livro, Mo, Dedo Empoeirado, Meggie, Farid e tia Eleonor chegam ao próprio autor, interpretado por Jim Broadbent, que comenta seus personagens (e sonha entrar para o mundo de fantasia que criou). Na hora H, Meggie vira a leitora e precisa dar provas de astúcia e inteligência, reinventando a história para impedir que o Sombra invada a Terra. Ao mesmo tempo em que a reescreve, ela também a lê, propondo novos rumos para o desenvolvimento da trama e abrindo leques de alternativas para os personagens que nem o escritor havia previsto. Usando a metáfora do livro mágico, o que Iain Softley procura dizer é que o leitor, ao se apropriar da história, faz dela experiência pessoal - mas é isso, exatamente, que se pode dizer do espectador que reorganiza o universo de qualquer filme no próprio imaginário. Livro e filme falam sobre o triunfo da imaginação e não deixam de ter pequenas teorias da literatura e do cinema. Coração de Tinta deixa de ser tão infantil. Só depende de você, leitor/espectador.

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