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Cultura

Coração de Leão

'Coração de Leão' discute as 'receitas para ser feliz'

Comédia fora dos padrões trata de preconceito com humor

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Flavia Guerra,
O Estado de S.Paulo

18 Junho 2014 | 02h00

A atriz argentina Julieta Díaz resume de forma simples a questão principal de Coração de Leão - O Amor não Tem Tamanho, que estreia amanhã. "É uma comédia romântica com todos os ingredientes típicos. A diferença é que o herói mede 1,36 metro e nisso está todo o conflito. Algo tão pequeno e grande ao mesmo tempo", diz ela, que vive Ivana, a heroína desta trama improvável, mas muito verossímil.

Para atuar ao lado do ator argentino Guillermo Francella (León, o pequeno herói da trama), Julieta teve de aprender a falar olhando para baixo e contracenar com um fundo verde. Já para Francella, um dos mais prestigiados atores de sua geração, o desafio foi ainda maior.

O ator conta que não foi fácil aprender a, além de atuar olhando para cima, passar grande parte do tempo também atuando sozinho em um estúdio verde, aprender a lidar com as proporções dos objetos de forma diferente e a não olhar nos olhos dos seus interlocutores. Mas todo o esforço valeu a pena.

A história de amor entre uma advogada e um arquiteto ‘quase’ anão emociona. "Há 15 anos quero contar esta história, mas não havia tecnologia na Argentina para fazê-lo", conta o diretor Marcos Carnevale. "O filme coloca um espelho diante de nós. E percebemos que todos temos preconceito. Não só com os outros, mas com nós mesmos."

Mais que colocar um espelho diante do público, que se surpreende encarando os próprios preconceitos, o diretor Marcos Carnevale constrói um diálogo sobre o quão infeliz nos tornamos simplesmente por temer o que a sociedade vai achar de nossas escolhas e preferências.

Mas em vez de fazê-lo em cenas dramáticas, Carnevale cria momentos tragicômicos, que revelam o ridículo e o cômico de nossos preconceitos de cada dia. Em Coração de Leão - O Amor Não Tem Tamanho, o diretor o faz ao contar a história de León e Ivana. Ele é um arquiteto famoso, bem-sucedido, que um dia, ao ver Ivana arremessar seu celular na grama de um parque, guarda-o para devolvê-lo em seguida. Ele busca a palavra 'Casa' na agenda do telefone e liga para ela, na tentativa de combinar um jantar para devolver o aparelho e, claro, conhecê-la. A partir daí, uma sequência simples, mas surpreendente, se segue.

Uma das cenas mais tensas, e ao mesmo tempo leve, é a que, durante uma discussão, Ivana pergunta a León: "Onde você sente mais dor?". E ele responde, de olhos marejados: "No pescoço", em gesto que mostra o quão doloroso, mas cômico, pode ser viver olhando sempre para cima.

Egresso do mercado de filmes publicitários, Carnevale traz o apreço por planos muito bem construídos e por um roteiro que prima, mais que pelos efeitos especiais, por diálogos bem trabalhados e histórias comuns, mas universais. Foi assim que seus filmes anteriores, Elsa & Fred - Um Amor de Paixão (2006) e Viúvas (2011), ganharam atenção mundial. Coração de Leão chega ao Brasil com um belo cartão de visitas. Na Argentina, já foi visto por 1,7 milhão de pessoas e é a segunda melhor estreia do país.

Vale lembrar que a película é uma coprodução entre Brasil e Argentina e tem cenas rodadas no Rio. O produtor do filme no País é o ator argentino naturalizado brasileiro Mário José Paz (o Maradona, de Viver a Vida), que faz também uma ponta no filme.

De volta à trama, Carnevale afirma que sempre tenta abrir a consciência das pessoas, trazer um novo olhar. "Sem ser pretensioso, falar de assuntos que têm a ver com a educação, aliás, com a má educação, que nos dão."

Por má educação, entenda-se o preconceito, as receitas prontas para viver e a preocupação exagerada com o que a sociedade pensa. "As pessoas deveriam viver como elas querem, como sonham. Mas fazem o que 'devem fazer' 'e ficam infelizes”, completa.

Mas como negar que, diante do amor de uma bela mulher por um rapaz extremamente baixo que, como diz o personagem León, é um homem completo só que com um pequeno problema de crescimento, a primeira reação é de surpresa e estranhamento? "O que acontece quando nos envolvemos com alguém fora dos padrões? Ivana é linda, advogada de sucesso. León também é bem-sucedido, gentil, bonito... Mas tem 1,36 m. O que pensam os outros? O que pensamos nós mesmos? Devíamos dizer: Não me importa! Mas não é assim na realidade", comentou Francella durante o lançamento do filme na Argentina.

É a discussão sobre se importar ou não que rende um dos momentos mais emocionantes do filme. Toto (Nicolás Francella, filho de Guillermo na ficção e na vida real) diz ao pai: "Nunca me importei na escola, quando meus amigos comentavam sobre você. Porque sabia que não se importava".

É o pai que dá força ao filho. Mas quando ela falta, o tamanho vira documento. "Pois me importo. Quando todos cresciam por fora, eu crescia dentro. Mas estou cansado de ser baixo", responde o pai.

É a interação entre pai e filho que contribuiu muito para que o roteiro fluísse no filme em que a ação direta foi todo o tempo interrompida por operações de efeitos visuais. "Muitas vezes, eles atuavam separadamente e a cena se completava na pós-produção. Era a estreia de Nicolás no cinema. Ter pai e filho tão amigos, tão entrosados, que já ensaiavam em casa e chegavam ao set prontos e criando situações, foi ótimo", diz o diretor.

 

Sobre os efeitos visuais, Francella declarou: "Gosto muito da originalidade do projeto. Mas foi um desafio atuar com tantos fatores técnicos. Até mesmo minha postura teve de mudar".

Foram os fatores técnicos que possibilitaram que a ideia virasse filme. Para que Francella, que tem estatura normal, ficasse pequeno na tela, houve muitos preparativos no set, do fundo verde a ajuste de objetos. Na pós-produção, que levou quatro meses e ficou a cargo de Juan Pablo Pires, a figura de León era recortada, diminuída digitalmente e sobreposta a imagens rodadas separadamente. O resultado é único. "Quando a gente vê o filme pronto, sente que valeu a pena."

CORAÇÃO DE LEÃO - O AMOR NÃO TEM TAMANHO

Direção: Marcos Carnevale.

Gênero: Comédia (Arg-Br/2013, 100 min.). Classificação: 12 anos. 

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