1. Usuário
Assine o Estadão
assine


Copa do Mundo de 1970, da magia à decepção

Wilson Alves-Bezerra - ESPECIAL PARA O ESTADO

10 Junho 2014 | 02h 00

O sucesso do time levou o Brasil a ser tido como terra da felicidade e atraiu o autor mexicano Juan Pablo Villalobos

O futebol e as Copas do Mundo já produziram muita literatura em nosso continente. Para citar exemplos representativos, o argentino Martín Kohan em Duas Vezes Junho reconta o Mundial de 78, pelo viés da ditadura argentina e da tortura; o uruguaio Eduardo Galeano, com seu Futebol ao Sol e à Sombra, em breves crônicas traça perfis de personagens do futebol de vários mundiais, com destaque para o de 50, de triste memória para nós; Nelson Rodrigues, nosso precursor, com suas crônicas de futebol, elevava partidas e jogadores a dimensões trágicas: seu O Berro Impressos das Manchetes traz desde o relato do Fla-Flu da véspera até comentários sobre a seleção e o caráter do brasileiro, registrados em expressões como "a Pátria de chuteiras" e "complexo de vira-latas".

Pois agora, pleiteando um lugar nesta seleção, Juan Pablo Villalobos vem revisitar, com seu No Estilo de Jalisco, o êxito brasileiro da Copa de 70 e a rivalidade com os uruguaios. É o terceiro romance do mexicano, radicado em Campinas. A particularidade de No Estilo de Jalisco é ter sido escrito em português ou, mais precisamente, em portunhol. O protagonista, um mexicano bêbado num bar do Rio de Janeiro, quer dar uma de malandro e derruba cerveja na gravata de um frequentador do local. Ato seguido, paga-lhe uma cerveja e resolve contar suas desilusões amorosas e o impacto causado pela seleção brasileira em sua vida, desde o mundial de 70. Trata-se do conhecido golpe de ganhar a confiança do estrangeiro e seduzi-lo para conseguir alguma vantagem, numa conversa bem articulada que prepara terreno para o bote final. Villalobos alcança seu feito com mérito, a narrativa é fluida e ele cria com destreza seu personagem, a exemplo do que fizera no seu livro de estreia. O desafio de escrever em português fronteiriço é bem enfrentado.

Divulgação
É gol. Pelé na decisão de 70 e o goleiro Albertosi

Marx escreveu em seu 18 de brumário de Luis Bonaparte, que a história e seus personagens se repetem, primeiro como tragédia e logo como farsa. Pois o que temos é o cruzamento do épico tri brasileiro com o trágico maracanazo de 50. Ambos feitos viram objeto de uma representação teatral mambembe - proposta pelo vagabundo do bar e patrocinada pelo tráfico de drogas - por cidadezinhas mexicanas: Carlos Alberto e seus esquadrão são levados à cena pelos beberrões que mal conseguem se manter em pé, mas que ao momento de saudar o público encarnam a dimensão exemplar do ídolo. Futebol como farsa para ganhar dinheiro, sexo e álcool, eis a proposta de Villalobos. É um bom divertimento, mas o amigo torcedor fica se perguntando se ela tem vigor para ultrapassar o circunstancial.

* WILSON ALVES-BEZERRA É CRÍTICO LITERÁRIO E AUTOR DE HISTÓRIAS ZOÓFILAS E OUTRAS ATROCIDADES (OITAVA RIMA/EDUFSCAR)

NO ESTILO DE JALISCO

Autor: Juan Pablo Villalobos.

Editora: Bateia / Realejo (96 págs., R$ 24,90).