Daniel Chiacos
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'Como É Cruel Viver Assim' é destaque na Première Brasil e 'Patti Cakes' explode no Panorama

Festival do Rio também conta com 'As Boas Maneiras', de Marco Dutra e Juliana Rojas, e 'Aos Teus Olhos', de Carolina Jabor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2017 | 19h30

RIO - Na entrevista que deu ao Estado, Steven Soderbergh explicou o que havia de mais atraente no roteiro de Lucky Logan – Roubo em Família, que estreou nesta quinta, 12. Ao contrário da série Onze Homens e Um Segredo, que é sobre profissionais, Lucky Logan é sobre assaltantes de primeira viagem, que precisam aprender a roubar, e isso faz toda a diferença. Júlia Rezende poderia dizer a mesma coisa sobre o quarteto de seu longa Como É Cruel Viver Assim, que está na mostra competitiva da Première Brasil, aqui no Festival do Rio.

O casal Vladimir/Clívia, os amigos (muy amigos) Primo e Regina. Estão numa pior. Regina acena com a possibilidade de sequestrarem seu ex-patrão. Para Vladimir será a oportunidade de se mostrar aos olhos da mulher, até porque o ex dela é um profissional. O problema é que são inexperientes. Vão precisar de aulas de criminalidade. Júlia Rezende é diretora de grandes sucessos de público – a série Meu Passado Me Condena, com Fábio Porchat e Miá Mello. Diz alguma coisa sobre a realidade do mercado no Brasil o fato de que seu melhor filme – a comédia romântica Ponte Aérea, com Caio Blat e Letícia Colin – tenha feito 1% do público do primeiro Meu Passado.

Seu melhor filme até agora é Como É Cruel Viver Assim – é bom ressaltar. O novo longa baseia-se numa peça que o ator Marcelo Valle fez no teatro. Na passagem do palco para a tela, Como É Cruel não perde nada e até ganha como estudo de personagens. E ainda tem a trama de sequestro, a pintura da realidade da periferia. O filme é das boas coisas vistas na Première Brasil deste ano – com as ficções As Boas Maneiras, de Marco Dutra e Juliana Rojas, e Aos Teus Olhos, de Carolina Jabor. Ótimo elenco – Valle, Fabíula Nascimento, Débora Lamm e o marido da diretora, Sílvio Guindane, em seu melhor papel desde De Passagem, de Ricardo Elias –, cores saturadas, humor grave, estilo realista. Júlia Rezende muda o tom, e acerta.

'As Boas Maneiras' representou o Brasil no Festival de Locarno esse ano

É mais do que se pode dizer de O Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida, também na Première Brasil. Um assalto a um restaurante desencadeia um banho de sangue. O horror, o horror. Se a ideia é fazer uma representação social do Brasil, é preciso desistir de todo o idealismo e abraçar o cinismo para acreditar que o cinema deva ir por aí. O filme, de qualquer maneira, tem defensores ardorosos e não será nem um pouco surpreendente se Luciana Paes receber o Redentor de melhor atriz, embora o repórter preferisse ver a Isabel Zuaa de As Boas Maneiras empalmar a estatueta. Embora a Première, como plataforma do cinema brasileiro – e mostra competitiva – seja a menina dos olhos do Festival do Rio, o evento abriga várias outras seções, inclusive um panorama (do cinema nacional).

Michel Hazanavicius está aqui mostrando O Formidável, que adaptou do livro de Anne Wiazemsky. Jean-Luc Godard no Maio de 1968. O autor de A Chinesa toma-se por um revolucionário, mas as lideranças do movimento o consideram apenas um pequeno-burguês pretensioso. Há um nu frontal de Louis Garrel, ator que faz o papel, e Godard reclama dessa mania que os diretores têm de tirar a roupa de seus atores. Hazanavicius diz que não podia perder a ‘blague’ (piada). Diretor comercial, consagrado com o fenômeno O Artista, ele diz que não fez seu filme para acertar nenhuma conta com o ícone da nouvelle vague. Gostou do livro, e esse Godard meio clownesco, que não é o que pensa ser, lhe pareceu um personagem muito interessante.

Anne Wiazemsky, que foi mulher de Godard – e é godardiana de carteirinha –, gostou, Hazanavicius diz que nunca teve críticas tão boas, mas o público desertou das salas francesas. “Tem gente que pensa que é um filme de Godard, não sobre ele”, reflete o diretor, para explicar o fracasso. 

Confira boas pedidas do Festival do Rio para o feriado

Justamente no Panorama, o Festival do Rio tem aberto uma janela para a produção indie dos EUA. Estreia em novembro um dos melhores filmes aqui no Rio. Patti Cakes, de Geremy Jasper – o diretor cancelou sua vinda no último momento –, é outra produção da RT Features, de Rodrigo Teixeira. Uma rapper branca – Killa P – vomita suas rimas atrás de um balcão de bar, enquanto sonha com outra vida. Seu medo maior é ser uma fracassada como a mãe, cuja voz é um canhão, mas não lhe ajudou muito. Patti é gorda – uma ‘Preciosa’ white trash. Para sua vizinhança é ‘Dumbo’. O filme é uma explosão de vitalidade e talento, a atriz Danielle Macdonald é genial. 

Outro regalo do panorama é Bom Comportamento, dos irmãos Ben e Josh Safdie, com Robert Pattinson, que também estreia em breve.

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