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Com Julia Roberts e Meryl Streep, ‘Álbum de Família’ é incandescente

Diálogo de Tracy Letts é outro destaque do longa que recebeu muitas indicações ao SAG e ao Globo de Ouro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2013 | 15h00

Pauline Kael, a grande crítica norte-americana – e a mais influente – tinha uma fórmula simples. Diante de certos filmes, ela não conseguia definir se eram ‘cinema’ ou ‘teatro filmado’, o que quer que fossem, mas concluía – são grandes. Pauline Kael provavelmente recorreria à sua velha definição. Álbum de Família baseia-se na peça de Tracy Letts que venceu o Pulitzer. Algum crítico dirá, provavelmente, que é teatro filmado, que o diretor John Wells exagera nas tintas, mas o que não falta à adaptação é intensidade. E o elenco é poderoso. Não foi por acaso que o filme ganhou várias indicações para o SAG Awards, o prêmio do Sindicato dos Atores, e o Globo de Ouro.

Meryl Streep e Julia Roberts foram indicadas ao SAG – melhor atriz e melhor coadjuvante – e há outra indicação para o prêmio de melhor elenco. Julia também foi indicada ao Globo de Ouro como melhor coadjuvante de drama. É poderosa como a filha durona de Meryl Streep. Com as irmãs, ela é chamada às pressas para a casa em Oklahoma quando o pai desaparece. Afloram conflitos e ressentimentos. Face ao que parece a fragilidade do grupo familiar, Julia assume as rédeas da situação. Dá ordens, grita com todo mundo. Não se iluda, a matriarca do clã Weston – Meryl – é mais dura que ela.

Logo na abertura, num solilóquio, o ator e dramaturgo Sam Shepard, sem olhar para a câmera, conta que a mulher e ele fizeram um pacto – ele bebe, ela se enche de pílulas. O patriarca Weston some – logo o espectador fica sabendo o que ocorreu com ele – e a mãe, traumatizada e sob efeito das drogas, transforma o jantar com o que restou da família num violento acerto de contas verbal com as filhas e genros. Para agravar, Meryl, que se chama Violet – Vi – está sendo devastada por um câncer na boca. Ela acusa Julia de haver ignorado sua doença, mas de ter vindo correndo ao saber do sumiço do pai. Pais e filhos nunca conseguem esconder suas preferências, ela brada.

Tracy Letts é um ator, dramaturgo e roteirista que já inscreveu seu nome no teatro e no cinema dos EUA. Autor de peças como Bug e Killer Joe, ele também assinou o roteiro das adaptações (impressionantes) feitas por William Friedkin. Ele também tem o crédito pelo roteiro de Álbum de Família. No original, é August: Osage County. E, como ator, seguiu trabalhando em séries como Prison Break, que terminou em 2009, (o personagem Peter Tucci) e Homeland (o senador Andrew Lockhart). A parceria entre Letts e Friedkin tornou-se explosiva porque são duas personalidades muito fortes. Mas John Wells, o diretor de Álbum de Família também merece crédito. Ganhou vários Emmys por séries como ER. A trilha de Gustavo Santaolalla contribui para o clima.

Wells sabe que a força de seu filme está na palavra – no verbo de Tracy Letts. Sua mise-en-scène, à maneira de um Joseph L. Mankiewicz, constrói-se por meio do dinamismo dos diálogos. Mas ele possui ideias, e boas. A casa inicialmente fechada abre-se, mas não é para que entre a luz libertadora. A transparência é para que todo mundo exponha suas carências. E o calor é insuportável, virando ele próprio um personagem. Lá pelas tantas, você não sabe se as pessoas estão derretendo de calor ou por causa da combustão interna. Algumas cenas ficam com o espectador – Violet falando da própria mãe, e Julia pela primeira vez entendendo como e por que esta mulher é assim; ou a tia, ao confessar seu ‘erro’, como diz, olhando o marido que sai da casa, após a agressão verbal. Impossível não pensar numa frase de Jean Renoir no cultuado A Regra do Jogo – e o mais terrível é que todas essas pessoas têm suas razões.

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