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Com foco na Polônia, Mostra Internacional de Cinema discute o diretor Andrzej Wajda

Evento também exibe grandes clássicos de Krysztof Kieslowski

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2016 | 19h43

É o ‘polish day’, o dia polonês na Mostra, com direito à revisão de grandes filmes de Andrzej Wajda e Krysztof Kieslowski, mais debate com a participação de um especialista na obra do primeiro, o crítico Tadeusz Lubeski. Terra Prometida, O Homem de Mármore, Sem Anestesia. Tudo isso e o filme mais polêmico da seleção do Festival de Brasília deste ano. Antes o Tempo não Acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo, virou a Geni da competição brasiliense. Lembrem-se da música de Chico (Buarque) – ‘Joga pedra na Geni!/Ela é feita pra apanhar!/Ela é boa de cuspir!’

Havia, em Brasília, um documentário muito forte sobre o imbróglio das terras indígenas. Martírio, de Vincent Carelli – também na Mostra –, discute como desde o Império os brancos têm avançado sobre o território dos guaranis cayowás. Uma cena se passa no Congresso Nacional, uma reunião que trata do assunto. A bancada ruralista em ação – se fosse ficção, qualquer espectador ia achar que o roteirista errou a mão caricaturando deputados que usam o microfone, sem o menor pudor, para dizer com todas as letras, que o extermínio (dos índios) está próximo. É documentário, e é real. Essa verdadeira tragédia brasileira vira ficção com a dupla Andrade/Baldo.

O protagonista é um índio gay, duplamente marginalizado e perseguido, na tribo como no mundo dos brancos. O filme provocou discussões acirradas por cenas que remetem a cultos ancestrais. Tem até infanticídio. Apareceram antropólogos e sociólogos para acusar os diretores – e o índio que faz o papel – de traírem a causa. Antes o Tempo não Acabava presta-se à polêmica, mas o massacre dos diretores e do ator não marcou nenhum avanço. O filme trabalha o mito. Tem duas cenas admiráveis. O índio e o garoto, na margem do rio, gritam para ele. Depois, mais adiante, o índio no meio do rio, grita para a floresta. Em ambos os casos, ele não pertence a lugar nenhum. A extraterritorialidade não é só a tragédia do protagonista., Reflete também a espoliação, o que está ocorrendo com os índios em geral, face ao avanço de agropecuaristas e madeireiros. É o ponto no qual, por vias tão diversas – um tão elogiado, outro tão apedrejado –, Martírio e Antes Que o Tempo Acabe conseguem dialogar. Um diálogo atravessado, talvez.

Pode ser que, na hora de escolher o melhor filme de Wajda – o grande diretor polonês que morreu no começo do mês –, a preferência da maioria da crítica, senão toda, se volte para o genial Cinzas e Diamantes, de 1958, quando ele ainda estava chegando. Os três filmes citados anteriormente, os de hoje, são dos anos 1970. A Terra Prometida, de 1975, baseia-se no romance do Prêmio Nobel Wladyslaw Reymont sobre os primórdios do capitalismo na Polônia. Três amigos fundam uma fábrica, exploram os trabalhadores. O tema é a luta de classes, um conceito marxista cada vez mais obsoleto num mundo que, paradoxalmente, não eliminou, pelo contrário, as desigualdades. O Homem de Mármore, de 1976, virou o filme do degelo na Polônia. Coloca na tela um sentimento contestatório que, pelos anos seguintes, iria levar aos protestos de Gdansk e à criação do movimento Solidariedade,

O filme é sobre a realização de um documentário sobre um herói do trabalho, daqueles que as autoridades do regime comunista criavam como estímulo para o bom comportamento das massas. O ‘herói’ se insurge contra a burocracia stalinista e é apagado da história. O degelo poderá trazê-lo de volta. Em 1981, quando O Homem de Mármore estreou no Brasil – com atraso de cinco anos –, Wajda, com o Homem de Ferro, sobre o Solidariedade, estava vencendo a Palma de Ouro em Cannes. Sem Anestesia é ainda mais duro – um jornalista de opiniões livres cai em desgraça. O regime corta seus privilégios, a mulher pede divórcio. Seu mundo desmorona. Nesses três grandes filmes Wajda faz uma espécie de síntese da história da Polônia. Não admira que sua estética, contestadora e engajada, lhe tenha valido o rótulo de ‘Sr. Política’.

OUTROS DESTAQUES

'Sangue do meu Sangue', de Marco Bellocchio

Segundo dos dois longas-metragens que o mestre italiano trouxe para a Mostra, este fala da Itália e do poder em dois tempos. No primeiro, no século 17, uma mulher é torturada pela Igreja por supostamente ter parte com o diabo. No segundo, nos dias atuais, um vampiro comanda a pequena cidade de Bobbio. 

'Um Dia Perfeito para Voar’, de Marc Rocha

Filme catalão, cheio de mistérios. Um garotinho brinca com uma pipa num campo deserto, acompanhado de um personagem paterno, vivido pelo ator Sergi Lopez. 

'Então Morri', de Bia Lessa e Dany Roland

Da cerimônia do adeus ao nascimento. Em ordem regressiva, o filme vai ao Brasil profundo e conta a vida uma mulher.

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