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Colin Farrell diz estar feliz da vida por 'renascer' em 'O Estranho Que Nós Amamos'

Após um período ruim, astro celebrou em Cannes a nova fase de prestígio no novo filme de Sofia Coppola

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2017 | 06h01

Colin Farrell anda rindo à toa. No Festival de Cannes deste ano, em maio, ele participava da competição com dois filmes - A Morte de Um Cervo Real, de Yorgos Lanthimos, e O Estranho Que Nós Amamos, de Sofia Coppola. Em ambos, divide a cena com Nicole Kidman. Há dois anos, também em Cannes, percorreu o tapete vermelho com outro filme de Lanthimos, Lobster, que depois foi para o Oscar. E, no ano passado, arrebentou como o vilão de Animais Fantásticos e Onde Habitam, baseado em J.K. Rowling, a celebrada criadora de Harry Potter.

Em Cannes, na coletiva do filme de Sofia, Farrell brincava. “Consegui emendar um monte de bolas pretas com filmes de sucesso e de prestígio, na avaliação dos críticos. Renasci!” Nada mau para o pai de dois filhos - de 13 e 7 anos -, que até há pouco se perguntava o que queria da vida. “Dizia que era ator e não tinha muita certeza. Hoje, digo que interpreto e até me pagam, mas meu papel preferido está sendo o de homem. Adoro ser pai.”

Tendo interpretado remakes - entre eles o de O Vingador do Futuro, que já havia sido filmado por Paul Verhoeven, com Arnold Schwarzenegger -, Farrell não vê problemas em refazer os filmes. “No caso de O Estranho Que Nós Amamos, Sofia (Coppola) viu o clássico de Don Siegel recentemente e descobriu alguma coisa que lhe interessava. O filme antigo era muito construído na perspectiva masculina, com Clint Eastwood, e ela percebeu que havia ali material para recontar a história com um viés feminino, e até feminista. Só o fato de estarmos aqui (em Cannes) dá conta de seu acerto.”

Farrell não se considera um ladies man, um conquistador, mas diz que se sente muito confortável na companhia de mulheres. O Estranho passa-se num internato feminino, aonde chega esse soldado fugitivo, e ferido, do Norte. O personagem de Farrell é praticamente o único homem em cena. Desperta o desejo reprimido das mulheres. A coisa fica violenta. No set era o oposto. “Nunca participei de um set assim. Não havia competição e, entre tomadas, ficava todo mundo relaxado. Conversando, fumando... Sofia é a diretora, independentemente de gênero, mais cool com quem trabalhei.” A fase ‘de arte’, segundo ele, vai continuar. “Desde que vi Edward Mãos de Tesoura, sonho filmar com Tim Burton. E agora ele me chamou para seu Dumbo live action. Estou entusiasmado."

Diretora encara o clássico com viés próprio

Sofia Coppola foi cobrada em Cannes por sua decisão de praticamente eliminar as personagens negras de seu novo filme, que se passa justamente durante a Guerra Civil nos EUA. Norte e Sul foram à guerra por causa da escravidão, que era a base da economia sulista. Em O Estranho Que Nós Amamos, sobre soldado ferido (do Norte) que se refugia num pensionato de mulheres (do Sul), a tensão sexual é motor do relato e a racial vai para segundo plano. A diretora defendeu-se na coletiva - “Omiti de forma muito consciente porque não via espaço para incrementar o drama com personagens negras. Estaria sendo superficial e até irresponsável na abordagem de uma questão controversa”, considerou.

Terceiro dos cinco filmes do diretor Don Siegel com Clint Eastwood, O Estranho Que Nós Amamos original, de 1971, foi o único relativo fracasso da dupla. Para muitos críticos, é a obra-prima dos dois, mas não repercutiu tanto na bilheteria porque estava adiante de sua época ou fugia demais à imagem de Clint que o próprio Siegel ajudara a construir. O soldado desestabiliza o universo das mulheres e ao mesmo tempo está vulnerável. É quase uma inversão. O homem foi sempre predador no universo de ação de Siegel. Daquela vez, eram as mulheres.

O Estranho venceu em Cannes, neste ano, o prêmio de direção - o segundo atribuído a uma mulher em toda a história do festival. Antes, apenas Youlyia Solntseva, viúva de Alexandr Dovjenko, recebera o mesmo prêmio por Epopeia dos Anos de Fogo, em 1960. Sofia, contando a mesma história de Siegel, fez um filme feminino e talvez feminista. Não é pouco, mas o de Siegel é melhor.

 

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