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Clássico de Tarantino, 'Pulp Fiction' está de volta ao cinema

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo

09 Junho 2014 | 11h 11

Narrado fora de ordem cronológica, filme conta três histórias diferentes, mas entrelaçadas

Quentin Tarantino não é só um diretor de cinema - um grande diretor. É um popstar cuja simples presença em Cannes percorre como rastro de pólvora toda a Croisette e incendeia o maior festival do mundo. Este ano, Sophia Loren prestigiou a exibição da versão restaurada de Matrimônio à Itasliana - e os 40 anos do filme famoso de Vittorio De Sica. Deu uma concorrida master class. Wim Wenders também foi à sessão de Paris, Texas em Cannes Classics - e este ano se comemoraram os 30 anos de sua Palma de Ouro -, mas as entrevistas que deu foram pelo documentário The Salt of the Earth, que realizou com Juliano Ribeiro Salgado, sobre o grande fotógrafo Sebastião Salgado, pai de Juliano. Tarantino foi à sessão de Pulp Fiction - Tempo de Violência no Cinema da Praia. Foi a sessão mais pop do evento.

Divulgação
John Travolta e Samuel L. Jackson em cena do filme "Pulp Fiction", sucesso de Tarantino

Tarantino, Uma Thurman e John Travolta assistiram ao filme com o público, em plena praia. As cenas de violências, os diálogos, tudo era motivo de festa (e de aplausos). No final, foi preciso convocar um monte de seguranças. Tarantino e sua pequena (grande) trupe saíram, como se diria, nos braços do povo. Uma e ele entregaram a Palma de Ouro outorgada pelo júri presidido por Jane Campion - para o turco Nuri Bilge Ceylan, de Winter Sleep. Tarantino foi o único convidado que teve direito a coletiva. Foi reiterar o que todo mundo sabe. A Palma de Ouro mudou sua vida. Já se passaram 20 anos da Palma de Pulp Fiction. Eu estava lá, e me lembro.

Não era a primeira vez de Tarantino em Cannes. Ele já mostrara Cães de Aluguel, fora de concurso. Deu sua primeira entrevista, à tarde, e os jornalistas eram - éramos - tão poucos que a sala ficou grande demais. Tarantino sentou-se em meio às cadeiras, o grupo fechou uma roda. Cães de Aluguel rapidamente virou objeto de um culto. Diálogo ríspido + violência = a fórmula tarantiniana. Quando ele voltou, e em competição, com Pulp Fiction, a expectativa era grande. O filme passou no último dia. Sessão lotada, coletiva lotada. E levou a Palma.

Os jovens o amaram, rápida e incondicionalmente. Tarantino, cinéfilo de carteirinha, tirou o cinema da academia. Sua cinemateca foi a loja de vídeo em que trabalhou. Seus clássicos não eram Sergei M. Eisenstein (O Encouraçado Potemkin) nem Orson Welles (Cidadão Kane), mas spaghetti westerns e obscuros diretores coreanos e chineses (de artes marciais). Sua escadarioa de Odessa eram os tiroteios de Sergio Leone, sustentados pela música de ópera de Ennio Morricone. A coletiva de Tarantino teve como desculpa a apresentação da versão restasurada de Por Uns Dólares Mais, na noite de encerramento. Além de falar muito de si, Tarantino colocou Leone nas nuvens.

E como é rever, hoje, Pulp Fiction? O filme está em cartaz na cidade, seguindo a trilha de outros clássicos - Um Corpo Que Cai e Os Pássaros, de Alfred Hitchcock; Motorista de Táxi, de Martin Scorsese etc. Voltam em salas do Espaço Itaú e do Cinemark que trazem os filmes restaurados, no formato DCP (Digital Cinema Package). Muitos jovens, com certeza, só conheciam Tempo de Violência em vídeo e DVD, ou baixado da internet. Em Cannes, na praia, o próprio Tarantino perguntou quem já havia visto seu filme, quem não? Meio a meio, talvez mais mãos levantadas no mais. É outra coisa (re)ver Pulp Fiction na tela grande. Muitos dos que hoje aplaudem Tarantino nem se lembram que, há 20 anos, deploraram que a Palma tivesse ido para um vulgar pulp, quando poderia - segundo eles, deveria - ter premiado a grande literatura. Concorria, no mesmo ano, o chekhoviano O Sol Enganador, de Nikita Mikhalkov, preferido dos críticos 'sérios'.

Pulp Fiction narra três histórias diferentes, mas entrelaçadas, sobre dois assassinos profissionais, o gângster que os contrata e a mulher dele, um pugilista pago para perder uma luta e um casal que assalta um restaurante em Los Angeles - justamente quando os pros estão descansando, depois de uma ação frenética. A violência inclui punhos, variados tipos de armas de fogo, arma branca (espada), serra elétrica, bastão de beisebol. Tarantino trabalha o tempo narrando fora de ordem cronológica. E sempre interrompe a ação para extensos diálogos. Bruce Willis e Maria de Medeiros têm uma fala que parece interminável num apartamento. Samuel L. Jackson e Travolta, os assassinos, batem à porta de Tarantino (sim, o diretor) em busca de socorro depois que o primeiro, acidentalmente, explode a cabeça de um comparsa e enche de sangue e miolos o interior do carro. Entra em cena Harvey Keitel como o encarregado da limpeza. Fala pelos cotovelos.

E tudo é muito estilizado, assimilando formas e fórmulas tradicionais do cinema de gângsteres, do western, do policial e até do melodrama, mas com tanta liberdade - e fora dos cânones - que parece perfeitamente original, mesmo hoje, depois de 20 anos de imitações de Pulp Fiction. Em 1994, muita gente acreditava que esse cinema não ia permanecer. Que Tarantino ia passar. Quando ele passa, hoje, especialmente em Cannes, as pessoas ovacionam. A revolução de Tarantino está longe de terminar. E com Bastardos Inglórios e Django Livre, sempre no cinema de gênero, ele se reinventou, permanecendo fiel a si mesmo. É só o que seus tietes esperam dele.