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Cineclube no Belas Artes apresenta o cinema de Billy Wilder

Mostra vai apresentar quatro filmes clássicos do cineasta

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 Maio 2015 | 14h30

Pense em Billy Wilder e, com certeza, virão imagens emblemáticas - o vestido de Marilyn Monroe esvoaçando no vento do metrô e deixando a calcinha dela à mostra em O Pecado Mora ao Lado; Marilyn, de novo, rebolando na estação, na corrida para pegar o trem em Quanto Mais Quente Melhor; e Norma Desmond, aliás, Gloria Swanson, dizendo para Mr. De Mille que está pronta para o close no desfecho de Crepúsculo dos Deuses/Sunset Boulevard. Foi por imagens assim, desses grandes filmes, que Wilder virou um dos grandes do cinema, idolatrado até por colegas cineastas do prestígio de Pedro Almodóvar.

Em sucessivos encontros, em fóruns internacionais de cinema - festivais e encontros -, Almodóvar não perde a oportunidade de reverenciar Wilder e Luis Buñuel, seu outro grande. O Cineclube do Belas Artes está fazendo de Wilder seu homenageado do mês. Seria fácil (re)programar esses filmes, mas a curadoria resolveu fazer ouro caminho. Em vez dos filmes mais conhecidos de Wilder, porque não dar chance a alguns dos menos? A programação, como sempre, é semanal e os filmes passam no sábado, com reprise na quarta-feira. Começa neste final de semana com Farrapo Humano e, depois, segue exibindo, pela ordem, A Montanha dos Sete Abutres, Irma la Douce e Beija-Me Idiota.

Jornalista no começo de sua carreira, Wilder gostava de contar como, certa vez, ainda em Viena, foi entrevistar Sigmund Freud. O pai da psicanálise o despachou da porta, mas Wilder jura que conseguiu dar uma olhada e ver o seu divã. Wilder não era como Alçfred Hitchcock, que fez da psicanálise uma das ferramentas do seu cinema, a tal ponto que os críticos dizem que Freud e ele nasceram um para o outro. Mas Wilder com certeza entendia da natureza humana e, em seus filmes, filmou tanto os labirintos da mente quanto as disfunções do corpo. Fez filmes sobre sonhos e desejos. Seu primeiro filme na 'América', Adorável Suzana, já era sobre travestimos - uma mulher que se disfarçava como criança e provocava olhares cobiçosos se homens maduros. Wilder talvez nem soubesse, mas restava sendo pioneiro na abordagem, mesmo que por vias tortas, da pedofilia.

Incrível Suzana marcou o início de sua parceria com o roteirista Charles Brackett e a obra de Wilder divide-se em duas fases - os filmes co-escritos por Brackett e os outros, com I.A.L. Diamond. Brackett foi o parceiro de Wilder na sua fase noir, em filmes como Farrapo Humano e Crepúsculo dos Deuses. Farrapo Humano, que venceu os Oscar de melhor filme, diretor e ator (Ray MIlland), mostra o pesadelo que vira o fim de semana de alcoólatra sem dinheiro para comprar bebida. No limite, o personagem entra em delirium tremens e começa a ter visões sinistras de bichos. Hoje, o expressionismo (da forma) ficou um tanto datado, mas a importância do filme é indiscutível. Hollywood, na época, era uma usina de sonhos e Wilder arrombou a porta com um pesado drama social.

Em A Montanha dos Sete Abutres, Brackett e ele continuaram investindo na linha social, agora por meio da história de repórter  ambicioso que é demitido do jornal em que trabalha.Em rota para outro possível emprego, ele para numa pequena cidade e descobre uma tragédia - a do homem que ficou preso numa mina. Sem nenhuma compaixão pelo sofrimento humano, Kirk Douglas transforma o fato em ferramenta para tentar voltar à antiga profissão. Cria um circo, um grande carnaval, envolvendo a vítima, sua mulher, as pessoas ao redor, a população como um todo. Mais do que um ataque à chamada imprensa marrom, o filme discute como o jornalismo pode ser o mercado de notícias da peça de Bem Jonson e do documentário de Jorge Furtado. Danem-se os interesses do público, o importante, o necessário é vender a informação - é causar, como se diria hoje. De novo Wilder filmou em preto e branco, criando um clima asfixiante (e noir).

Com Irma la Douce encontramos um estágio avançado da parceria de Wilder com Diamond. Dois ou três anosa, eles haviam vencido o Oscar com Se Meu Apartamento Falasse, interpretado por Jack Lemmon e Shirley MacLaine. Em Irma la Douce, a dupla volta na pele de 'Irma' e 'Nestor'. Ela é prostituta em Paris, no começo do século passado. Ele vira seu gigolô, empurrado pelas circunstâncias, mas não é do ramo. Chega a criar um cliente imaginário para ter Irma só para ele. Wilder filmou numa Paris de estúdio, recriando o mercado de Les Halles - onde Nestor trabalha de noite, enquanto Irma dorme -, num set gigantesco, por meio de um trabalho prodigioso do diretor de arte Alexander Trauner. Irma la Douce parece romântico na tradição de outros filmes de Wilder dos anos 1950 - Sabrina, Amor na Tarde. Na verdade, mais até do que François Truffaut, Wilder não é um romântico que desconfia do romantismo, mas um cínico que desconfia da capacidade de as pessoas serem genuinamente românticas. O mantra do filme é a frase repetida pelo barman, a toda hora - "...mas essa é outra história". As outras histórias estão sempre afastando Irma de Nestor até que, no final, no tribunal.

Irma la Douce possui a fama de ser um Wilder menor, mas não é. É dos maiores. A programação vai se encerrar, no fim de semana do dia 30, com Beija-Me Idiota. Talvez seja o filme mais polêmico de Wilder, que encampa uma tese digna de Nelson Rodrigues (embora não se saiba se, ou quanto foi influenciado pelo grande dramaturgo brasileiro). O filme mostra cantor que atravessa os EUA de carro, na rota entre Las Vegas e Los Angeles, e vai parar numa pequena cidade onde uma dupla tipo Gordo e o Magro - Wilder adorava Oliver & Hardy - compõe e vê na presenças de Dino (Dean Martin) a chance de suas vidas. Como Dino é um notório mulherengo, o Gordo convence o Magro a enviar a mulher para a casa da mãe e contra a pistoleira Polly, garçonete local, para se passar por 'esposa' e entreter o hóspede, que se instalou na casa. Entra em cena Kim Novak, com toda sua carnalidade exuberante. A tese rodrigueana - toda dona de casa sonha com seu dia de p...? E por que não o inverso?

Para muitos críticos, Wilder nunca foi tão grosseiro nem vulgar e, por causa disso, o prestígio de Beija-Me Idiota sempre foi relativo. Era o filme dele que a maioria da crítica tinha vergonha de gostar, mas com o tempo, e a evolução dos costumes, o valor de Beija-Me Idiota foi se impondo e hoje a obra é cultuada. Já que se falou num mantra de Wilder, é bom recorrer a outro para fechar o texto. Em Quanto Mais Quente Melhor, o Boca Larga Joe E.Brown vive dizendo que ninguém é perfeito e repete a frase quando Jack Lemmon tira o disfarce de mulher e mostra que é homem. Wilder entendia a natureza humana (o resquício freudiano). Sabia que ninguém é perfeito.  Seu cinema é tão bom porque é sobre isso.

Caixa Belas Artes 

Endereço: Rua da Consolação, 2423 - Consolação - Centro - São Paulo

Data: De 9/05 a 3/06

Horários: Quartas às 18:30 e Sábados às 22:30

Preço: R$ 22 (inteira); R$ 11 (meia-entrada)

Filmes

Farrapo Humano

A Montanha dos Sete Abutres

Irma la Dolce

Beije-me, Idiota

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