Cinco maneiras de ganhar um Oscar

Levantamento da BBC mostra os tipos de atuação mais premiados com o Oscar de melhor ator ou atriz.

Lucy Rodgers, BBC

25 Fevereiro 2012 | 15h39

Com as especulações em alta sobre quais estrelas de Hollywood levarão para casa os concorridos Oscars deste ano, a BBC analisou os prêmios da academia para os melhores atores e atrizes desde 1927 para verificar se há certos papeis com mais possibilidades de receber uma estatueta que outros.

Ao longo dos anos o Oscar premiou atores e atrizes pela caracterização de uma ampla gama de personagens, reais ou ficcionais.

Mas padrões podem ser identificados. Os números mostram que certos tipos de papeis atraem mais os prêmios da academia.

Por isso a BBC preparou uma lista de cinco caminhos que os postulantes ao Oscar podem seguir para melhorar as chances de conseguir um prêmio.

1. Representar uma pessoa real

Quase um em cada cinco prêmios (19%) dos Oscars de melhor ator foram dados para artistas que representavam um personagem baseado numa pessoa real.

O último deles foi Colin Firth, que no ano passado foi premiado pela sua caracterização do rei George 6º enfrentando sua gagueira em O Discurso do Rei.

Dois anos antes, Sean Penn ganhou o Oscar ao representar o ativista gay Harvey Milk em Milk - A Voz da Igualdade, e dois anos antes disso Forest Whitaker foi o vencedor por seu papel como o ditador de Uganda Idi Amin em O Último Rei da Escócia.

Quando são analisados os prêmios de melhor atriz, representar mulheres reais também cai bem com o júri do prêmio, mas não tanto quanto com os homens: 13% dos prêmios de melhor atriz foram para atrizes representando personagens reais.

As vencedoras recentes incluem a francesa Marion Cotillard pelo seu papel como a cantora Edith Piaf em Piaf - Um Hino ao Amor, Helen Mirren como a rainha Elizabeth 2ª em A Rainha e Reese Witherspoon por sua representação de June Carter na biografia de Johnny Cash Johhny & June.

Então por que a academia americana premia mais as performances biográficas que outras?

"De certa forma isso demonstra a dificuldade de julgar a arte", explica a crítica Helen O'Hara, da revista Empire. "É extremamente difícil ver qual desempenho é melhor que o outro. Mas quando um ator representa uma pessoa real, você pode julgar um pouco melhor", diz.

Também ajuda se o artista mudar sua aparência física, como Charlize Theron em sua representação da assassina em série Aileen Wuornos em Monster - Desejo Assassino, para o qual ela ganhou 15 quilos e teve que usar maquiagem pesada.

"Hollywood tem uma obsessão com beleza e boa forma, e se impressiona bastante por pessoas que estão preparadas para ficarem feias. Isso é visto como coragem pela arte. Isso vale principalmente para as mulheres", observa O'Hara.

2. Representar um personagem com deficiência

Tanto na categoria de melhor ator quanto na de melhor atriz, a representação de deficiências físicas ou mentais também é altamente recompensada.

Um total de 16% dos vencedores tiveram papéis assim. Para homens, a porcentagem é ligeiramente superior, 17% à das mulheres, 14%.

O'Hara diz que essas performances são recompensadas, em parte, da mesma maneira que as que retratam personagens reais - pela facilidade de avaliar a atuação.

Mas talvez também a preparação que esses papéis envolvem ajudam a impressionar bastante os membros da academia.

Por exemplo, Dustin Hoffman teria passado um ano trabalhando com jovens autistas e suas famílias para se preparar para seu papel em Rain Man, que lhe deu o Oscar de melhor ator em 1988.

No ano seguinte, Daniel Day-Lewis levou o prêmio por seu papel como Christy Brown, um escritor e artista irlandês nascido com paralisia cerebral em Meu Pé Esquerdo.

Ele teria feito amizades com várias pessoas com deficiências e se recusava a deixar o papel durante as pausas das filmagens no set, permanecendo em sua cadeira de rodas.

Porém tais deficiências físicas são menos proeminentes entre os ganhadores do Oscar que os papeis que retratam doenças mentais e dependência de álcool e de drogas - um assunto mais bem entendido por Hollywood, segundo O'Hara.

Além disso, atuações de atores não deficientes em papeis de deficientes são criticadas por alguns ativistas, que as comparam a pintar atores brancos para representarem negros. O grupo Don't Play Me, Pay Me (Não me Represente, me Pague, em tradução livre), diz que há atores deficientes capazes de representar esses papéis.

3. Se for homem, representar um líder ou alguém com dependência de álcool

Cerca de 13%, quase um em cada oito, dos vencedores do Oscar de melhor ator representaram um político, um líder ou um membro da realeza.

Essa tendência vem desde os primeiros anos dos Oscars, quando os vencedores incluíram George Arliss por sua atuação como o primeiro-ministro britânico Benjamin Disraeli em Disraeli, de 1929, e Charles Laughton por seu papel como Henrique 8º em Os Amores de Henrique VIII, três anos depois.

Nos anos 1960 vieram o Thomas Morus de Paul Scofield em O Homem Que Não Vendeu Sua Alma, nos anos 1960, e o Gandhi de Ben Kingsley no filme Gandhi, de 1982.

Representar um personagem que batalha contra a dependência do álcool também é bastante recompensada entre os atores masculinos. Cerca de 17% dos vencedores na categoria de melhor ator representaram papéis assim - quase um em cada seis.

"O álcool e as drogas estão mais próximos à experiência de Hollywood", diz O'Hara. "E isso está proximamente ligado às indicações ao Oscar."

As atuações de alcoólatras premiadas com o Oscar incluem o capitão Charlie Allnut de Humphrey Bogart em Uma Aventura na África, em 1951, o marechal Rooster Cogburn de John Wayne em Bravura Indômita, de 1969, Ben Sanderson, de Nicolas Cage, em Despedida em Las Vegas, de 1995, e mais recentemente o Otis "Bad" Blake de Jeff Bridges em Coração Louco, em 2009.

4. Se for mulher, representar uma mãe solteira ou uma prostituta

Enquanto homens são premiados por papéis de liderança, o Oscar recompensa mulheres por suas representações de mães solteiras e viúvas ou prostitutas e amantes.

Ao longo dos anos, quase um quarto (23%) das vencedoras na categoria de melhor atriz representaram personagens cujas condições de mãe solteira ou viúva eram cruciais para o papel - na comparação com 5% dos homens.

Entre elas estão Joan Crawford em Alma em Suplício, de 1945, Sally Field em Norma Rae, de 1979, e Julia Roberts em Erin Brokovich, de 2000.

Além disso, 12% das melhores atrizes ganharam o prêmio ao representar uma prostituta ou uma amante.

De fato, o primeiro Oscar de melhor atriz foi dado a Janet Gaynor, parcialmente por sua atuação como uma prostituta em Street Angel. Outras seguiram a norma, incluindo Elisabeth Taylor em Disque Butterfield 8, Jane Fonda em Klute - O Passado Condena e Charlize Theron em Monster.

Para O"Hara, a divisão de gêneros no Oscar é um simples reflexo do mundo além do showbusiness.

"A sociedade ainda gosta de homens que são fortes e de mulheres vulneráveis", diz ela, explicando que há muitos poucos papeis desafiadores para mulheres, principalmente a partir de uma certa idade. Apesar disso, ela nota que as coisas estão mudando.

5. Representar alguém do showbusiness

O Oscar também parece recompensar um assunto do qual entende bem - o próprio showbusiness. Um total de 12% de melhores atores e atrizes ganharam o prêmio por representar alguém associado com o setor.

"É realmente notável neste ano o quanto Hollywood é representada - com O Artista (que se passa na Hollywood antiga) e A Invenção de Hugo Cabret (que explora o amor pelo cinema", observa O"Hara.

"Algumas vezes eles (os membros da academia) escolhem os filmes que estão mais próximos geograficamente também, como na vitória de Crash - No Limite sobre O Segredo de Brokeback Mountain no Oscar de 2005. Crash foi ambientado no próprio quintal de Hollywood e estava mais próximo aos corações dos jurados", diz ela.

Mas apesar de haver algumas mudanças sutis nas premiações do Oscar, O'Hara acredita que Hollywood continuará a seguir a regra ao julgar as atuações. E isso significa mais personagens biográficos, mais papéis que demandam transformações físicas e mais personagens que batalham contra desafios mentais e físicos. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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