Mario Anzuoni/Reuters
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Christopher Plummer fala sobre carreira, Oscar e substituição de Kevin Spacey

O ator está em cartaz com 'Todo o Dinheiro do Mundo' no papel J. Paul Getty - Spacey foi excluído da produção após denúncias de assédio sexual

Entrevista com

Christopher Plummer

Cara Buckley, NYT

11 Fevereiro 2018 | 06h00

Para milhões de pessoas, Christopher Plummer será sempre o galante capitão von Trapp do adorado clássico de 1965 A Noviça Rebelde, embora Plummer tenha considerado o papel tedioso e se ressinta de sua invariável associação com o filme. Nos últimos anos, o ator ganhador do Tony, que foi criado em Montreal, entrou para os livros de história, graças à explosão tardia de elogios às suas atuações.

Em 2012, aos 82 anos, tornou-se o ator mais idoso a ganhar um Oscar (por seu papel como coadjuvante em Toda Forma de Amor) e em janeiro, aos 88 anos, tornou-se o ator mais velho a receber uma indicação, por sua atuação, substituindo Kevin Spacey, no papel de J. Paul Getty no filme de Ridley Scott, Todo o Dinheiro do Mundo.

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Em janeiro, ele falou comigo por telefone de sua casa de inverno na Flórida, sobre temas que variaram de Spacey e o momento #MeToo até sua idade e a decisão de trabalhar com Elia Kazan. Plummer esquivou-se de uma resposta quando foi questionado sobre a discrepância salarial entre ele e os colegas de elenco – Mark Wahlberg ganhou US$ 1,5 milhão a mais do que Michelle Williams para regravar cenas cruciais – dizendo que estava “completamente focado no filme e desconhecia totalmente qualquer outro assunto comercial na época”.

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O agente publicitário que nos conectou se referiu a você apenas como Chris. Mas você não pode ser só Chris, é um homem imponente demais para ser qualquer coisa que não seja Christopher!

Oh, calma lá, eu sou um chato, não seja boba.

Você já é o ator mais idoso a receber um Oscar e o mais idoso a conquistar uma indicação. Como você se sente, quebrando tantos recordes?

Oh, Deus, essa coisa da idade já está ficando ridícula. Tenho que começar a mentir sobre minha idade.

Mas você não pode. A internet não esquece nada.

Não há mais privacidade, nenhum mistério, é terrível.

É incrível que você tenha recebido todos esses louvores nos seus 80 anos.

Fiz mais de 100 filmes, e alguns deles foram até bons. É bom renascer de décadas em décadas, porque então você pode ter uma outra carreira. A parte agradável sobre prêmios e ser indicado é o fato de que ele desperta todo mundo de novo e faz com que as pessoas percebam que você está vivo, bem e disponível. Os papéis tornaram-se mais interessantes à medida que envelheci. No teatro, onde passei a maior parte da minha vida, atuei em todos os grandes papéis clássicos na Inglaterra, América do Norte, Broadway e no Canadá. Então, aqui vamos nós de novo. Agora, estou interpretando grandes papéis clássicos modernos. J. Paul Getty é uma figura talhada para o clássico. Interpretei recentemente o imperador Guilherme II no drama da 2.ª Guerra, The Exception. Adoro interpretar esses caras realmente velhos. Embora não possa mais ser o Rei Lear. Estou ficando velho demais para o papel.

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Os papéis estão melhorando, você melhorou, ou as duas coisas?

Tenho muita sorte com os escritores. Simon Burke (The Exception) escreveu uma excelente peça. David Scarpa (roteirista de Todo o Dinheiro do Mundo) fez um trabalho formidável, e deu muito caráter ao que seria um personagem bastante insípido, e aceitei de imediato. Achei que em alguma parte deveria haver algum tipo de humanidade nesse homem, e acho que encontramos um pouco disso.

Ridley Scott já disse que queria você para a parte Getty desde o início.

Ele diz que sim. Provavelmente, eu era um entre dois. Ele disse que eu era a escolha original dele, e se eu era ou não, pensei: Quem se importa, afinal estou nisso.

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Algum temor, ao assumir o lugar de outro ator que já havia completado sua interpretação?

No teatro, isso sempre acontece. Nos filmes, não. Eu sempre quis trabalhar com Ridley. Ele é um profissional e tanto, com um senso de humor maravilhoso. Não deu tempo de ter medo. Rimos a maior parte do tempo. Foram apenas nove dias de filmagem. Se a minha memória não está falhando.

Você teve algum contato com Kevin Spacey depois que Ridley o chamou para o papel?

Não. Realmente não queria saber sobre essas negociações e também eu não tinha tempo.

O que você acha sobre as pessoas que falaram sobre o assédio sexual que enfrentaram?

É ótimo que as mulheres agora possam se manifestar e falar. Acho que isso é ótimo, e deve prosseguir. Espero que as coisas fiquem menos tensas um dia – está começando a se tornar um frenesi. Embora seja extremamente importante que isso aconteça, espero que a situação se estabilize e que as mulheres possam aproveitar sua vitória.

Li que você odiava estar no elenco de 'A Noviça Rebelde', que você já chamou de 'The Sound of Mucus' (O Som do Muco, num jogo de palavras com o nome do filme em inglês, 'The Sound of Music').

Jamais disse que o filme não era fantástico. Eu estava apenas muito entediado com meu papel. Não o considero emocionante. Não pensei que fosse muito bom. Eu amei Julie (Andrews) e Robert Wise, ele é um fantástico diretor. 

Bem, seu trabalho realmente era ficar ali parado e bonitão, o que você fez muito bem.

Caramba, eu espero ter feito mais do que isso.

Você fez! Estou brincando. Voltando, a peça 'J.B.' rendeu-lhe sua primeira indicação para o Tony. Você trabalhou com Elia Kazan na época em que ele prestou depoimento no Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso. Foi uma decisão difícil de se tomar na ocasião e sua perspectiva sobre isso mudou ao longo dos anos?

Isso não aconteceu enquanto estávamos fazendo J.B. Isso aconteceu em parte durante e em parte depois. Um dos grandes momentos da minha vida foi trabalhar com Elia Kazan. Seu talento era fantástico. Ele mudou a face do teatro, promovendo uma nova vibração, com Brando, Montgomery Clift. Ele realmente mudou o modo de encarar a atuação. Então, há muitas coisas maravilhosas que lembro sobre Gadge, que é como nós o chamávamos. Mas essa outra coisa eu não sei. Veja, ele era um imigrante, e realmente eu acho que poderia estar com medo. Muitas pessoas prestaram depoimento porque tinham medo, então citaram nomes. Por mais difícil que seja, pode parecer lamentável que uma pessoa com tanta autoridade e coragem no teatro possa ter sido tímida a respeito de sua posição nos Estados Unidos.

Essa é uma leitura com muita compaixão.

Se conhecesse Gadge, não poderia pensar de outro jeito.

TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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