'Chega de Saudade' empolga júri popular no Festival de Brasília

Segundo filme de Laís Bodansky está entre os favoritos da competição que chega ao fim nesta terça, 27

Luiz Zanin Oricchio,

07 Novembro 2026 | 19h31

Se dependesse do público, Chega de Saudade já poderia ser proclamado vencedor do Festival de Brasília. Mas, como público é público e júri é júri, teremos de esperar até hoje à noite para saber o que foi decidido e quem irá levar os troféus Candango. Não será tarefa das mais fáceis, dado o nível de qualidade elevado dos longas-metragens.   Entre os seis, nenhum filme pode ser descartado logo de saída. Amigos de Risco deve ficar distante dos prêmios principais, mas é uma estréia promissora de Daniel Bandeira. Dois diretores considerados mestres, como Carlos Reichenbach e Julio Bressane, apresentaram ótimos filmes, como Falsa Loura e Cleópatra e estão entre os favoritos. José Eduardo Belmonte, em seu terceiro longa, Meu Mundo em Perigo, faz seu melhor trabalho, no trabalho mais inquietante do festival. E o documentário Anabasys, de Paloma Rocha e Joel Pizzini, trata de ser inventivo para ficar à altura do seu "objeto", o cineasta Glauber Rocha e sua tumultuada passagem pelo Festival de Veneza de 1980, onde apresentou seu último filme, A Idade da Terra.   Filme coral   E quanto a Chega de Saudade? Bem, o segundo longa de Laís Bodansky, que aqui já venceu, em 2000, com Bicho de Sete Cabeças, causou a melhor das impressões em quem esteve no Cine Brasília no domingo à noite. É um projeto daqueles que despertam receio antecipado entre os críticos. Como pode dar certo um filme que se passa em uma noite, em locação única - um salão de baile - e com personagens que pertencem, em sua maioria, à terceira idade? Em seguida nos lembramos de O Baile, de Ettore Scola, que faz passar uma parte da história contemporânea pelo interior de um salão de dança. E nos recordamos de que não existem projetos inviáveis - o que interessa é o modo de realizá-lo. E o talento empregado nesse modo.     Nada disso - talento, inventividade, paixão - falta ao filme de Laís Bodansky. O projeto é diferente do de Scola. Neste, a ação se prolonga ao longo do tempo. No de Laís, tudo se concentra em uma noite. No de Scola, não há diálogos. No de Laís, sim: os personagens falam, e bastante, entre si. O de Scola concentra-se nos efeitos da História sobre as vidas individuais. O de Laís ocupa-se das relações humanas. São dois belos filmes. Emocionantes, ambos.   Chega de Saudade é um filme coral - isto é, distribuído entre vários personagens, à maneira de Robert Altman. Existem, por assim dizer, dois núcleos na história. Um, o dos jovens, um casal, na verdade, formado por Paulo Vilhena, que é o técnico de som da casa, e sua namorada, vivida por Maria Flor. O segundo, dos veteranos, como o casal formado por Tônia Carrero e Leonardo Vilar, e mais Beth Faria, Conceição Senna, Cassia Kis, Stepan Nercessian, Miriam Mehler, Marli Marlei, Clarice Abujamra. Há um contraste, aqui, entre a impaciência e a falta de humor dos jovens e a sabedoria do declínio, que é o conforto dos mais antigos.   Embalado   Como não poderia deixar de ser, Chega de Saudade é um filme embalado pela música. Elza Soares e Marku Ribas no palco e mais músicas de todo o tipo, de tangos a Reginaldo Rossi, com direito aos famosos pot-pourris das orquestras de salão. Entre um passo e outro, entre uma birita e um salgadinho, as histórias se cruzam, e falam do envelhecimento, da libido que não se aplaca, das rivalidades, dos ciúmes, dos sonhos perdidos mas que sempre retornam e, sim, sempre e sempre, da aspiração a ser amado, da humana necessidade de viver no desejo do outro. Por isso é comovente, e não patético, o caso do conquistador de meia-idade que dá em cima de uma jovem apenas para voltar, rejuvenescido, ao seu antigo - e veterano - amor. Bela interpretação de Stepan como o velho lobo, tão alegre e malandro como melancólico.     Chega de Saudade é um filme de atores, de closes, porque busca, nos rostos, e, sim, nos pés, a expressão dos sentimentos. Deve muito à fotografia de Walter Carvalho, em magnífico trabalho. E também à montagem de Paulo Sacramento, que lhe dá o ritmo de um bom bolero, ao qual é impossível ficar indiferente. Aliás, enquanto subiam os créditos, vários casais podiam ser vistos dançando em frente à tela do Cine Brasília. Maior homenagem não poderia haver a um filme que resume as aspirações e o drama humano na intensidade de um baile.   O festival se encerra nesta terça, 27, com a exibição de Dezesperato, raro filme de Sérgio Bernardes Jr., de 1968. É o único longa terminado pelo diretor, que morreu em julho deste ano e deixou várias outras obras audivisuais inconclusas. Dezesperato é um filme mítico do cinema chamado "marginal", desconhecido das novas gerações. Será muito bom revê-lo na tela do Teatro Nacional, onde ocorre a premiação desta histórica 40.ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.   NOTAS   Tragédia na cidade O documentarista brasiliense André Luiz da Cunha fez o documentário Dia de Visita, que tem como personagem principal Sônia de Sousa Faustino, ex-detenta da penitenciária da cidade, a Papuda, e que, liberta, dedicou-se ao apoio às famílias dos presidiários. Sônia botou vestido novo para assistir à estréia do filme no Cine Brasília, mas não chegou até lá. Morreu atropelada na calçada de sua casa. A polícia afirma que não se trata de acidente e sim de crime. O motorista atropelou Sônia quando pretendia atingir o filho desta, com quem tivera um desentendimento. Em conversa com o Estado, André Luiz se disse desalentado. E afirmou que pretende fazer um longa-metragem sobre a personagem já que dispõe de mais de três horas de gravação.   Bandido O lançamento do DVD de O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla agita Brasília. O disco, entre outros extras, contém uma cereja para cinéfilos: o primeiro filme dirigido por Rogério, que se chama de Documentário apesar de pertencer ao gênero ficção. Em preto-e-branco, mostra dois amigos caminhando pelo centro de São Paulo em busca de um filme para ver. Rogério foi um cinéfilo e esse curta já pode ser entendido de outro jeito: que filme fazer, àquela altura do campeonato, final dos anos 60? Helena Ignez, atriz de Bandido da Luz Vermelha e mulher do diretor, morto em 2004, autografou as cópias no saguão do Hotel Nacional.   O mais querido Falar nisso, o jornal Correio Braziliense, para comemorar os 40 anos de festival, fez uma enquete com críticos de todo o Brasil, perguntando qual seria o preferido entre todos os vencedores do festival, ao longo de sua história. Uma espécie de campeão dos campeões. Deu Bandido da Luz Vermelha, vencedor da edição de 1968, na cabeça. Os outros, por ordem de classificação: A Hora e Vez de Augusto Matraga (premiado em 1965), Santo Forte (1999), Guerra Conjugal (1975), Todas as Mulheres do Mundo (1966), Lavoura Arcaica (2001), Iracema, uma Transa Amazônica (1980), Tudo Bem (1978), Filme de Amor (2003) e Baile Perfumado (1996).   Outsiders Outros DVDs de filmes raros tem sido lançados neste festival. Foram os casos de Meteorango Kid, de André Luis de Oliveira, e O Super-Outro, de Edgard Navarro.   Filme da cidade O secretário de Cultura do Distrito Federal, jornalista Silvestre Gorgulho, lançou onde edital para confecção 10 documentários de 7 minutos cada, que depois serão transformados num longa-metragem de episódios. O projeto é parte das comemorações para os 50 anos de Brasília.

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