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"Casa de Areia" reúne mãe e filha na tela

Agencia Estado

13 Maio 2005 | 11h 52

Elas fizeram teatro juntas (com Gerald Thomas), cruzaram-se no set de Gêmeas, de Andrucha Waddington ("Minha participação era mínima", diz Fernanda Montenegro), mas agora as duas Fernandas pensam que valeu a pena esperar. "Estamos inteiras em Casa de Areia; o filme tem a nossa cara, o nosso tempo, o nosso isolamento", explica Fernanda Torres. Isolamento? "Nossa profissão é expansiva, mas na vida familiar somos todos muito fechados, isolados. Mamãe vive dizendo que marido não é parente." O marido, no caso, é Andrucha, pai do neto de Fernanda Montenegro e do filho de Fernanda Torres, Joaquim, de 5 anos. O trio teve o maior prazer de trabalhar junto no filme que estréia nesta sexta-feira. Casa de Areia não é exatamente um filme fácil, mas quem é que diz que o público brasileiro só quer (ou só está preparado para) filmes fáceis? Casa de Areia conta a história de três gerações de mulheres que se perdem num labirinto de areia para terminar se encontrando. Sempre mãe e filha - as duas Fernandas. A Montenegro vê no filme um sintoma da saúde e diversidade do cinema brasileiro. "Vivemos num país em que a questão social é tão premente que quase não nos achamos no direito de falar sobre questões metafísicas, como as do filme de Andrucha." Em Casa de Areia, uma equipe de cientistas viaja aos Lençóis Maranhenses para provar a Lei da Relatividade de Einstein. "É uma lei tão ampla que engloba até a possibilidade da existência de Deus", diz Fernanda Montenegro. O próprio filme assume a Lei da Relatividade para celebrar o humano, ela acredita. Em conversa com o repórter do Estado, o diretor explicou seu processo criativo. O filme nasceu de uma imagem. "Luiz Carlos Barreto me contou a história de uma mulher que passou a vida lutando para salvar sua casa da areia." A imagem, que Barreto descobriu numa foto (que Andrucha não viu), permaneceu com o cineasta. Ele construiu uma ficção sobre ela, acompanhando três gerações de mulheres, durante 80 anos, num deserto de areia. Não pensou por que estava fazendo o filme. Isso era uma coisa para ser descoberta depois. Andrucha acredita muito na intuição, mas Fernanda Torres esclarece que Casa de Areia não foi feito ao deus-dará. "O Andrucha tem uma maneira muito peculiar de criar. Ele pode ir na intuição, mas sabe bem como levar o filme." O diretor retirou todas as referências factuais do roteiro. Havia indicações de datas - 1919, 1929, 1945. Ele as suprimiu. "Ficou mais interessante", diz Fernanda Torres, a Fernandinha. São 80 anos de nada, porque a rigor não acontece muita coisa. Só que nada também quer dizer tudo e as mulheres são confrontadas com a vida, o desejo, a morte, a natureza, a guerra. "O Andrucha me surpreende", diz Fernandinha. "É um intelectual", acrescenta, e você percebe a admiração profunda que ela tem pelo marido. É a mesma admiração que tem pela mãe (e Fernandona retribui). As duas possuem o mesmo código genético, são unidas por laços afetivos e culturais, mas se admiram é como mulheres e atrizes. Fernanda Montenegro reconhece na filha uma das atrizes mais corajosas de sua geração, capaz de ousar no teatro, no cinema e na TV. Fernanda Torres vê na mãe, senão propriamente um exemplo a ser seguido, um farol - de integridade artística e humana. Andrucha é um cara completamente speedy na vida. Parece ligado na eletricidade. No cinema, seu tempo é outro. Ele adora os filmes lentos. Casa de Areia tem esse tempo que o espectador deve construir. "Minha analista diz que ele fez um filme sobre nós, minha mãe e eu, nossa família." Não foi nada racional, explica Fernandona. Mas na história dessas duas mulheres em cena - na verdade, são seis mulheres -, existem elementos da vida das duas Fernandas. "Uma personagem se chama Áurea, como a irmã de mamãe, que virou mãe-de-santo e se integrou à cultura africana, mesmo sendo de origem italiana." Nos Lençóis Maranhenses, Fernandinha reencontrou o espírito da avó maranhense, mãe de seu pai. Sem racionalizar, Andrucha, intuitivamente, filmou a trajetória da mulher e da sogra. Fernandona diz que, para criar a personagem, só precisou se voltar para o que diziam "suas velhas" - as avós e tias, que não eram só italianas, mas naturais de uma ilha, a Sardenha. Ela sabe que isso explica a tendência ao isolamento da família. As duas estão orgulhosas do filme que fizeram e que agora entregam ao público. Se vai fazer sucesso, não sabem nem as preocupa. Era um filme que tinha de ser feito. Fizeram com total dedicação. Fernanda Montenegro brinca de que vai dar um tempo ao cinema. Tem feito um filme atrás do outro. Vai fazer a próxima novela das 8, de Silvio de Abreu. Com tantos filmes e, agora, uma novela, ela não tem tempo de desenvolver projetos teatrais. Mas é mentira que vá parar com o cinema. Ela ama a aventura do cinema brasileiro. A energia do set, a paixão com que os diretores enfrentam todo tipo de dificuldade para colocar a cara do Brasil na tela. Tem sido assim desde o primeiro filme, A Falecida, de Leon Hirszman, em 1965, quando ela já era considerada uma senhora atriz de teatro. O cinema retribui a paixão e não cessa de oferecer grandes papéis a Fernanda Montenegro, numa época da vida - ela tem 75 anos - em que a maioria das mulheres (e das atrizes) se queixa de que não tem mais nada para fazer. Fernandona teve uma cena de sexo com Raul Cortez em Do Outro Lado da Rua, de Marcos Bernstein. Em Casa de Areia, ela descobre o amor, um amor improvável, no deserto. A personagem de Fernandinha quer ir embora, mas descobre o prazer do sexo com um negro, interpretado por Seu Jorge, que vira Luiz Melodia quando a jovem Fernanda também é substituída pela Fernanda madura. "Mamãe é a prova de que aos 70 anos as mulheres estão no ponto", Fernanda Torres brinca. A mãe acrescenta que é outro aspecto interessante do filme - a análise que Andrucha faz de mulheres e negros, que integram um quilombo no deserto. As origens do Brasil fazem-se presentes na integração desses tradicionais grupos de dominados. "A presença do feminino já está em Eu Tu Eles; é algo muito forte no trabalho do Andrucha", diz Fernandona. Ao contrário da mãe, Fernanda Torres está cheia de projetos teatrais. E tem a Casa dos Budas Ditosos. "É o meu ganha-pão. Vou fazer até os 68 anos." Elas adoram representar. Talvez porque em cada personagem que interpretam, independentemente da mídia, haja um pouco de cada uma delas. Casa de Areia (BR/2005)- Drama. Dir. Andrucha Waddington. 16 anos. Em grande circuito. Cotação: bom.

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