Paris Filmes/Downtown Filmes/02 Play
Paris Filmes/Downtown Filmes/02 Play

Campeão de efeitos do cinema brasileiro, 'Malasartes' faz frente ao cinismo dominante no País

4,5 milhões de reais foram gastos em efeitos especiais, que contaram com mais de 100 profissionais em dois anos de trabalho

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2017 | 06h00

Há mais de 30 anos, Paulo Morelli começou a gestar o projeto que agora estreia precedido do título de ser a produção brasileira com mais efeitos da história. Os cenários de Malasartes e o Duelo com a Morte foram criados em 3D em pós-produção totalmente feita no Brasil. Foram gastos R$ 4,5 milhões só em efeitos especiais e um batalhão de mais de 100 profissionais participou dos dois anos de trabalho na empresa O2. Morelli explica que isso se deve ao fato de o filme abordar com igual intensidade o mundo rural e o mágico. Malasartes já nasceu com essa ambição.

“No passado, Mazzaropi criou um Malasartes rural e nutrido da tradição oral, com ‘causos’ muito divertidos. Já esse novo Malasartes se nutre, por um lado, da mesma fonte do folclore brasileiro que alimentou personagens como Jeca Tatu e João Grilo, e, de outro, coloca um novo viés ao trazer a questão da liberdade versus aprisionamento, livre-arbítrio versus destino. Essa é a porta de entrada para o mundo mágico que aparece no filme”, avalia o diretor. E Morelli assume - “O filme se propõe a conectar o mundo rural de um pícaro atemporal com o mundo mitológico das entidades que controlam o destino humano, numa aventura onde o que está em jogo é a conquista da liberdade.”

Houve um momento, no passado, em que Morelli chegou a pensar em fazer o filme com Selton Mello - o ator e diretor de O Filme da Minha Vida, atualmente em cartaz. Hoje, às vésperas da estreia - na quinta, 10 - o diretor admite que não poderia estar mais feliz com sua escolha. Jesuíta Barbosa é quem faz o papel e forma uma dupla encantadora com Isis Valverde. Jesuíta criou-se no sertão cearense, Isis é uma mineirinha que assume seu lado caipira - uai. São ótimos, e o elenco todo corresponde ao tom buscado pelo diretor. “Tudo começou com uma série de TV da Olhar Eletrônico, episódios de meia hora que se alimentavam de temas recorrentes do folclore mundial. Adorei uma história do folclore da Europa Central, do pícaro que tentava enganar a Morte invertendo a cabeceira da cama.”

Nesses anos todos de gestação, Morelli não cessou de incorporar novos elementos. “É impossível abordar as entidades que controlam o destino humano sem se referir às Parcas. E me pareceu que o Malasartes, como João Grilo, renderia mais em dupla e o parceiro ideal para ele seria o Candinho, uma corruptela do Cândido de Voltaire.” Na obra original, Cândido ou o Otimismo, o herói, decepcionado com os ensinamentos do Dr. Pangloss - que se chocam com o mundo à sua volta - chega a uma conclusão meio enigmática de que devemos “cultivar nosso jardim”. Malasartes e Candinho, Jesuíta e Augusto Madeira, unem-se contra a Morte, mais uma criação sensacional de Júlio Andrade. “Nosso herói é pícaro, mas de bom coração”, diz o diretor. “Carrega uma ingenuidade que intencionalmente se choca com o cinismo do mundo contemporâneo, tal como o estamos vivendo.”

Sobre o marketing do filme, baseado nos efeitos, o diretor reflete - “Os efeitos especiais de Malasartes sempre estiveram em pauta, desde muito antes da filmagem. Mesmo assim, o trabalho dos técnicos do 3D e da composição de imagem superou, e muito, a nossa expectativa (da produção). Eles entregaram um mundo mágico que deu credibilidade à história que estava querendo contar.” O repórter reclama da imagem lavada e Morelli observa. “A cópia que você viu ainda não é a definitiva (que foi para o Cine Ceará, onde foi apresentada no domingo). A final é ainda mais lavada, porque eu queria que os efeitos transparecessem como tal. O mundo mágico da ficção não é o mundo real.”

Paulo de Tarso Morelli foi um dos fundadores - com Fernando Meirelles e Andréa Barata - da O2. Como diretor, fez filmes tão diversos como Viva Voz, O Preço da Paz, Cidade dos Homens, Entre Nós e agora Malasartes e o Duelo com a Morte. Essa diversidade - de histórias, de tons, de gêneros - é o que mais o atrai no cinema. “A despeito de todas as diferenças, sinto que estou em todos esses filmes. E que eles terminam por me refletir, e refletir o próprio país.” Isis Valverde, a Ritinha da novela - A Força do Querer -, conta que Malasartes sempre fez parte do seu universo. “Quando pequena, minha avó me contava as histórias e eu adorava. Então, quando o Paulo (Morelli) me propôs o papel - Hein? - , aceitei logo, antes que ele desistisse de mim. E quando perguntei quem seria o Malasartes e ele me disse que o Jesuíta, aí sim. Fiquei louca. Sou a maior fã desse cara.”

ENTREVISTA - Jesuíta Barbosa - ATOR

Aos 26 anos, Jesuíta Barbosa acumula grandes papéis em filmes como Praia do Futuro e Tatuagem, novelas como O Rebu e Justiça.

Por que Malasartes?

O personagem tem a cara do brasileiro, como João Grilo e Jeca Tatu. Mas também se inscreve na tradição ibérica do herói picaresco. Foi gostoso de compor.

Você não tem aparecido muito. Por quê?

Tirei um ano sabático. Disse para a Globo que precisava de uma parada e ela topou. Não tinha muita leitura e aproveitei para ler tudo. Acho que hoje tenho mais ferramentas para entender personagens complexos. O próprio Malasartes. É pequeninho, parece ingênuo, mas está atento a tudo.

De onde vem sua pegada? As cenas com Isis são ótimas...

Me criei no sertão, xente. Isso que você chama de pegada é natural. Meu pai é porreta. Me miro nele.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.