Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Camila Pitanga celebra o triunfo, como codiretora, do documentário ‘Pitanga’

Em fase de recolhimento, atriz fala com o Estado: "Não são muitas mulheres que ficam o tempo todo com os filhos. O importante é o afeto que se transmite"

Entrevista com

Camila Pitanga

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2017 | 04h00

Camila Pitanga não fala sobre o episódio Domingos Montagner. O repórter, por dever de ofício, insiste. Ela não quer simplesmente dizer não, ser indelicada. Retruca – “Mas você acha importante trazer esse assunto, se estamos falando do lançamento do filme?” O filme é Pitanga, o extraordinário documentário sobre seu pai, o ator Antônio Pitanga, que coassina, como diretora, com Beto Brant. Pitanga não é só uma celebração de Pitanga como pessoa, o homem político e o grande artista que é. É uma celebração do encontro – de Pitanga com os outros, o mundo. Ainda nem estreou – na quinta, dia 6, em 20 salas de todo o País –, e já é um dos maiores filmes do cinema brasileiro.

Ela não fala sobre aquele assunto, mas dá alguma pista. “Tirei um período sabático, para me repensar, para avaliar a vida, o trabalho.” O filme tem ajudado muito. “Meu pai é esse personagem maravilhoso. Teve o privilégio de conhecer, e interagir, com pessoas incríveis. Diz que nunca pertenceu ao movimento negro, mas é um negro em movimento. Tudo isso tem me feito refletir muito. Sobre a família, sobre o Brasil, sobre mim mesma.” O resultado dessa reflexão tem aparecido nas redes sociais. “Não sou escritora, mas tenho escrito.” Com Wagner Moura e outros artistas, Camila integra um grupo que tem se posicionado contra “esse momento de retrocesso”. Camila engajada, militante, no Instagram.

Filha do ator Antônio Pitanga com Vera Manhães – “A área de minha mãe era a dança, mas ela foi também modelo, numa época em que isso era muito mais difícil por causa da cor, do preconceito” –, Camila reage à observação de que a arte talvez já estivesse no DNA. “Achava que ia ser advogada e trabalhar com direitos humanos.” O casamento do pai com Benedita da Silva trouxe, ainda mais que antes, a política para dentro de casa. Mas um dia Camila participou de um espetáculo – Orfeu da Conceição, a peça mítica de Vinicius de Moraes. “Senti uma coisa, mas também que era despreparada, muito crua. Se quisesse continuar, teria de estudar muito. E foi o que fiz. É o que faço até hoje.”

Linda de morrer. “Jura que você vai me perguntar isso?” O segredo da beleza de Camila. O DNA conta – a mãe era deslumbrante, o pai, um deus negro cujo corpo em movimento atravessa o Cinema Novo. “Cuido da alimentação, mas não é só o corpo. Tem de alimentar a mente.” Camila lê, atualmente, Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, com vistas a uma possível adaptação para teatro por seu grupo, a Mundana Companhia. É atuante em teatro, TV e cinema. Avalia rapidinho momentos que foram decisivos em cada uma delas. A peça O Duelo, da Mundana, dirigida por Georgette Fadel e apresentada em fevereiro, em São Paulo, na 4.ª Mostra Premmia de Teatro, que este ano homenageia Domingos Montagner. A novela Paraíso Tropical, de Gilberto Braga, de 2007, em que fazia a garota de programa Bebel, que tinha aquele affair com Wagner Moura. E o filme Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, de Beto Brant, de 2011. “Pode parecer oportunismo, porque estou lançando o filme que codirigi com o Beto, mas ele me abriu ali uma janela que foi muito importante. Me instigou a participar do roteiro, a me envolver criativamente como nunca antes. E foi ali que o envolvimento com meu pai nos trouxe até o Pitanga (filme)”, resume.

Mas, se for para falar de algum outro filme que viu recentemente, o melhor, só pode ser Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé. Faltam adjetivos para tudo que Camila quer dizer de bom sobre José Dumont, Sueli Franco. “Zé é aquela figura. A maneira como ele se posiciona perante os não atores é fantástica, mas a Sueli... Me emocionou muito, pela grandeza. É da estirpe de meu pai.” O próprio Pitanga reflete. Diz que, quando Brant trouxe Camila para o projeto, tornou-se impossível para ele dizer não à filha. No início, a ideia era que Pitanga contasse sua vida a Camila, em lugares que foram importantes para ele. Mas o filme foi tomando outro rumo. “Tivemos um primeiro encontro, uma primeira entrevista em minha casa quando Pitanga se abriu com a gente.” Camila alterna o tratamento carinhoso de ‘papai’ com o nome adotado – antes ele era Sampaio. 

“Foram surgindo as pessoas e situações que teriam de estar no filme. O Beto foi armando um roteiro e eu me encarregava de trazer as pessoas, que me conheciam e tinham confiança em mim, para o tipo de coisa que queríamos fazer. No set, eu as provocava com minhas perguntas. E, com toda a experiência do Beto, eu também combinava o set com o diretor de arte (Xarlô), armava o plano com o diretor de fotografia (Leleco Maestrelli).” Na hora de montar – “de burilar o filme”, como Camila diz –, a Globo a chamou para a novela (Velho Chico). Foi uma longa preparação. O filme teve uma longa montagem – um ano. “Achei que não dava para ele parar todo esse tempo, me esperando. Beto trabalhou com a montadora Juliana Munhoz. Me mandavam as cenas, eu palpitava.”

Foi uma experiência única, extraordinária. Camila está diretora? “Não sei, teria de encontrar uma história que quisesse muito contar, como a de meu pai.” Fala de família – o amor pelas duas filhas, a parida, Antônia, de 9 anos, e a do coração, Maria Luiza, de 18, nascida do casamento anterior do ex-marido, o diretor de arte Cláudio Amaral Peixoto. O amor pelo irmão, Rocco. “Sou três anos mais velha que ele. Cuidava do Rocco, da casa, quando Pitanga estava ausente.” Embora viajasse muito, a trabalho, Pitanga sempre foi um pai presente, como a mãe que Camila também procura ser. “Não são muitas mulheres que conseguem ficar o tempo todo com os filhos. Então, é preciso criar condições, compensar. O importante é o afeto, a segurança e independência que se transmite.”

O repórter a trata de menina. “Você poderia ser meu pai, talvez queira me proteger. Mas não sou frágil. Sou uma mulher de 40 anos.” Na quinta à noite, houve a pré-estreia, para convidados, de Pitanga em São Paulo, com direito a apresentação de um grupo de percussão. Camila riu, dançou. Intensa, empoderada. Como lhe disse o repórter, às vezes, senão sempre, só percebemos nossa força quando somos colocados à prova. “É isso aí.” Camila está vivendo esse momento.

ENTREVISTAS - Um diálogo com ‘Cinema Novo’ e ‘Eu Não Sou Seu Negro’

Beto Brant, diretor, e Antônio Pitanga, ator

Antônio Pitanga e seu diretor, Beto Brant, conversam com o repórter no lobby do hotel, antes da pré-estreia paulistana do filme, na quinta-feira à noite.

Pitanga é um mito, mas por que um filme sobre ele? 

Beto Brant: Justamente por isso. Conheci o Pitanga quando trabalhava com a Camila no Lindos Lábios e ele me fascinou. Esse homem não tem só uma grande história, ele é um grande contador de histórias e, se você deixa ele falar, fica imediatamente cativado.

Você esperava esse filme tão maravilhoso? 

Pitanga: O filme foi feito pela minha filha, que eu amo, e pelo Beto, que é esse cara talentosíssimo. Então, eu esperava alguma coisa especial, mas o resultado foi muito além.

E o Pitanga se segue ao filme de Eryk Rocha, em que seu corpo em movimento atravessa os maiores clássicos do Cinema Novo... 

Pitanga: Eu acho que os dois filmes dialogam muito bem e até se completam. Contam uma história que é humana, política. Esses dois (Brant e Camila) me convenceram dizendo que eu ia encontrar meus amigos. Riachão, Gilberto Gil, Caetano, Bethânia, João Ubaldo, Cacá Diegues, Sérgio Ricardo... Diziam: ‘Você vai encontrar seus amigos e, nesses encontros, o papo que vai se desenhar é a história do Pitanga’. Mas agora eu vi outro filme que soma, Eu Não Sou Seu Negro (de Raoul Peck), com outras figuras que me formaram. Malcolm X, Martin Luther King. Reviver tudo isso está sendo um privilégio.

E você é um príncipe, de tão elegante... 

Pitanga: Príncipe era o Cartola, que eu conheci como flanelinha. Cartola e Dona Zica me levaram para a Mangueira. Fui campeão e vice no carnaval de 1988 pela Vila Isabel e pela Mangueira. Não me sinto completo sem o chapéu panamá e isso aqui (mostra o lenço).

Tanta elegância deve ter ajudado a se converter num sedutor... 

Pitanga: Sou um gentleman, e os cavaleiros não comentam essas coisas.

 

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