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Cultura

Brian De Palma

Caixa traz três visões da estética peculiar de Brian De Palma

Box traz 'Um Tiro na Noite', 'Irmãs Diabólicas' e 'O Fantasma do Paraíso'

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Luiz Zanin Oricchio,
O Estado de S.Paulo

05 Março 2016 | 16h00

De Brian De Palma se pode dizer que é um dos diretores mais cults da atualidade. Isso significa que existe um grupo de cinéfilos disposto a reafirmar a genialidade do cineasta a cada filme que faz ou fez. E não é que Brian tem mesmo obras geniais? A conferir neste digistack da Versátil com três longas – Irmãs Diabólicas (1973), O Fantasma do Paraíso (1974) e Um Tiro na Noite (1981).

E, claro, com o elenco habitual de extras desse tipo de lançamento: 119 minutos de depoimentos, making of de Irmãs Diabólicas e trailers. De longe, o melhor extra é uma extensa conversa entre De Palma e um entrevistador muito especial, o também cineasta Noah Baumbach (de Frances Ha). Entre eles, a conversa é técnica, sobre o fazer cinematográfico, uma pequena aula dessa arte.

E os filmes? De longe, o melhor, o mais bem realizado, é Um Tiro na Noite (Blow Out). Como em outros, De Palma dá livre curso à sua tendência de reciclar referências. (Leia texto abaixo). John Travolta é Jack Terry, sonoplasta de filmes B, que, uma noite, se encontra numa ponte com seu gravador e poderoso microfone, tentando captar sons da natureza para usar no estúdio. O acaso o leva a testemunhar um acidente de carro, que se precipita nas águas do rio. Terry consegue salvar uma jovem que estava no interior do veículo. O que ele gravou, sem querer, o leva a desconfiar da versão oficial do acidente e farejar uma conspiração por trás de tudo.

O que De Palma conta não é o mais importante. Vale é o jeito “como” conta. Neste caso, fazendo de uma prosaica gravação de ruídos a porta de entrada para um segredo que pode ter implicações políticas. Uma das cenas-chave é aquela em que Terry volta seguidamente a fita do seu gravador para tentar entender o significado de um ruído misterioso – que pode ser tanto o estouro do pneu quanto um tiro. Acredite, o filme é excitante, apesar de alguns toques típicos do cinema comercial, como uma inevitável perseguição de automóveis.

Em Irmãs Diabólicas, temos um thriller de ressonâncias psiquiátricas. Uma modelo é acusada de um crime. Quer dizer, uma vizinha afirma ter testemunhado o assassinato de sua janela. Onde estará o corpo? As coisas se complicam quando se descobre que a tal modelo incriminada tem uma irmã gêmea. As duas são xifópagas, separadas por cirurgia. Têm temperamentos diferentes. O suspense funciona melhor se você descartar a subpsicanálise que dá sustentação à trama e o dualismo simplista entre o Bem e o Mal.

E, por fim, chegamos a O Fantasma do Paraíso, talvez o mais problemático de todos, mas que, mesmo assim, conta com uma legião de fãs. É o mais extravagante De Palma. Um produtor rouba a música de um compositor e consegue mandá-lo para a prisão. Lá, ele sofre um acidente que o deforma e, em liberdade, se torna o tal fantasma, em busca de vingança. Sem dúvida, De Palma prefigura a barbárie em que a música e a civilização estavam submergindo, e, à sua maneira paródica habitual, tenta encená-la sob forma de uma ópera pop. Num dos extras, ele mesmo admite que misturou tantos elementos heterogêneos que perdeu a conexão com seu público. Mas o filme, à melhor maneira dos cults, foi recuperado depois e transformou-se em objeto de adoração. Vale a pena ser revisto.

A ARTE DE BRIAN DE PALMA

Distribuição: Versátil (2 DVDs, 3 filmes)

Gênero: Suspense 

Duração: 293 min.

Preço: R$ 69,90

Indicação: 14 anos

Cineasta move-se por citações, de Hitchcock a Eisenstein

Compreende-se a atração exercida por Brian De Palma sobre os cinéfilos. Seu cinema baseia-se... no próprio cinema. Nutre-se de referências, a mais importante delas a de Hitchcock, o porto seguro maior entre os cineastas e aficionados desde que os críticos dos Cahiers du Cinéma puseram o “mestre do suspense” nos cornos da Lua. Pode-se dizer, sem exagero, que encontraremos vestígios de Hitchcock em qualquer dos filmes de De Palma. Em Irmãs Diabólicas, por exemplo, a citação maior leva a Janela Indiscreta, em primeiro lugar, mas também a Psicose, dois dos títulos mais badalados de Hitchcock. 

Mas, se sir Alfred Hitchcock é a maior influência sobre o americano, não é a única. De Palma procura se alimentar de outras fontes e outros nutrientes, também de prestígio. Um Tiro na Noite, por exemplo, inspira-se no caso real do senador Ted Kennedy, que sofreu um acidente de carro em 1969, no qual morreu a acompanhante, sua ex-secretária. O fato, inexplicado e inexplicável, pôs fim às suas pretensões de se tornar presidente dos EUA. 

Além do caso real, o filme inspira-se no clássico Blow-Up, do italiano Michelangelo Antonioni e dialoga com A Conversação, de Francis Ford Coppola. Ambos, Blow-Up e A Conversação, por sua vez, tem origem num conto de Julio Cortázar, Las Babas del Diablo. A ideia é que a realidade é uma aparência, sobre a qual é preciso escavar para encontrar, atrás dela, outras realidades. No caso de Blow-Up, a ampliação de uma foto revela um crime. Em A Conversação e Um Tiro na Noite são os sons que, ampliados e decodificados, permitem perceber o que antes estava oculto. 

Já em Os Intocáveis, De Palma, numa cena famosa, imita a sequência mais célebre de O Encouraçado Potenkim, o clássico de Sergei Eisenstein. De arrepiar, a cena mostra um carrinho de bebê, descontrolado, descendo uma longa escadaria em meio a um tiroteio. O historiador Eric Hobsbawm considerava a sequência de Eisenstein os “seis minutos mais influentes da história do cinema”. Até um devoto de Hitchcock, como De Palma, lhe dá razão.

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