1. Usuário
Assine o Estadão
assine
  • Comentar
  • A+ A-
  • Imprimir
  • E-mail

Caixa apresenta obra de Melville, especialista em filmes noir

- Atualizado: 09 Fevereiro 2016 | 19h 31

Diretor francês é tido como precursor da nouvelle vague

Os filmes de Melville são exatos como uma equação e às vezes complicados como um teorema. De maneira geral, satisfazem às exigências de clareza e elegância do autor. É o que se pode ver pela amostra de três filmes da caixa A Arte de Jean-Pierre Melville, da Versátil: Dois Homens em Manhattan, Técnicas de um Delator e O Círculo Vermelho. O lançamento traz ainda o documentário Codinome Melville, de Olivier Bohler.

Este doc é interessante para nos aproximarmos da figura de Melville. Diretor tido como precursor da nouvelle vague, era fascinado pelo cinema norte-americano. Em especial pelo cinema noir. Desenvolveu uma modalidade francesa de noir (na França, este gênero é chamado de “polar”). Muitos o acusam de submissão excessiva ao modelo americano, mas ele mesmo se defendia dizendo fazer filmes franceses – “o dia em que eu fizer um filme americano vocês vão notar a diferença”, dizia. Polêmica à parte, a limpidez de filmagem é digna de nota. E seus filmes sempre trazem algo a mais do que apenas uma boa história policial.

Em todo caso, o fascínio com os EUA é muito grande. A ponto de ambientar em Nova York um dos títulos da caixa – Dois Homens em Manhattan (1959). Na história, um diplomata da França na ONU desaparece e um repórter e um fotógrafo saem à sua procura noite adentro. Sabendo que o tal diplomata era incorrigível mulherengo, percorrem o bas-fond de Manhattan. O filme tem o encanto de todo mergulho no submundo, em especial quando visto com elegância distanciada. O próprio Melville interpreta um dos jornalistas.

Alain Delon em 'O Círculo Vermelho'
Alain Delon em 'O Círculo Vermelho'

Já em Técnica de um Delator (1969), Melville se propõe dissecar o mundo dos informantes e suas relações dúbias com a polícia. Há um caso de receptação e dois amigos se enfrentam pelo butim. Serão amigos mesmo? Um deles, vivido por Jean-Paul Belmondo, é notório delator. Este é o filme de trama mais complexa, expressando, em sua dificuldade, a ambivalência moral dos personagens.

Do ponto de vista artístico, o mais bem sucedido dos três é O Círculo Vermelho (1970), tido como um dos melhores filmes de Melville, ao lado de O Samurai, que teve lançamento solo pela Versátil. Alain Delon trabalha em ambos. Em O Círculo Vermelho, é visto deixando a cadeia, onde permaneceu por um período. Em paralelo, há o prisioneiro (Gian Maria Volonté) que consegue fugir quando transportado de trem para cumprir pena. Por fim, entra em cena o atirador de elite (Yves Montand), que foi da polícia, deixou-se seduzir pelo crime e tornou-se alcoólatra. Juntos, reúnem-se para um grande roubo a uma joalheira da Place Vendôme, endereço chique em Paris.

O mundo moral de Melville é complexo. Seus filmes do ciclo policial (os melhores de sua carreira, segundo o crítico francês Jean Tulard) concentram-se, claro, no microcosmo formado por criminosos e policiais. Mas nota-se que sua meditação vale para o conjunto da sociedade: a corrupção está em toda parte e permeia todas as relações. No entanto, veem-se pontos de luz nessas trevas. E essas luzes estão na amizade viril entre os personagens. Estamos na lama, mas nem o mais sórdido criminoso de Melville deixa de apresentar uma face humana.

A ARTE DE JEAN-PIERRE MELVILLE

Distribuição: Versátil (caixa com 2 discos, R$ 69,90)

 

Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Estadão.
É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Estadão poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Você pode digitar 600 caracteres.

Mais em CulturaX