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Caixa apresenta obra de Melville, especialista em filmes noir

Diretor francês é tido como precursor da nouvelle vague

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Luiz Zanin Oricchio,
O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2016 | 19h30

Os filmes de Melville são exatos como uma equação e às vezes complicados como um teorema. De maneira geral, satisfazem às exigências de clareza e elegância do autor. É o que se pode ver pela amostra de três filmes da caixa A Arte de Jean-Pierre Melville, da Versátil: Dois Homens em Manhattan, Técnicas de um Delator e O Círculo Vermelho. O lançamento traz ainda o documentário Codinome Melville, de Olivier Bohler.

Este doc é interessante para nos aproximarmos da figura de Melville. Diretor tido como precursor da nouvelle vague, era fascinado pelo cinema norte-americano. Em especial pelo cinema noir. Desenvolveu uma modalidade francesa de noir (na França, este gênero é chamado de “polar”). Muitos o acusam de submissão excessiva ao modelo americano, mas ele mesmo se defendia dizendo fazer filmes franceses – “o dia em que eu fizer um filme americano vocês vão notar a diferença”, dizia. Polêmica à parte, a limpidez de filmagem é digna de nota. E seus filmes sempre trazem algo a mais do que apenas uma boa história policial.

Em todo caso, o fascínio com os EUA é muito grande. A ponto de ambientar em Nova York um dos títulos da caixa – Dois Homens em Manhattan (1959). Na história, um diplomata da França na ONU desaparece e um repórter e um fotógrafo saem à sua procura noite adentro. Sabendo que o tal diplomata era incorrigível mulherengo, percorrem o bas-fond de Manhattan. O filme tem o encanto de todo mergulho no submundo, em especial quando visto com elegância distanciada. O próprio Melville interpreta um dos jornalistas.

Já em Técnica de um Delator (1969), Melville se propõe dissecar o mundo dos informantes e suas relações dúbias com a polícia. Há um caso de receptação e dois amigos se enfrentam pelo butim. Serão amigos mesmo? Um deles, vivido por Jean-Paul Belmondo, é notório delator. Este é o filme de trama mais complexa, expressando, em sua dificuldade, a ambivalência moral dos personagens.

Do ponto de vista artístico, o mais bem sucedido dos três é O Círculo Vermelho (1970), tido como um dos melhores filmes de Melville, ao lado de O Samurai, que teve lançamento solo pela Versátil. Alain Delon trabalha em ambos. Em O Círculo Vermelho, é visto deixando a cadeia, onde permaneceu por um período. Em paralelo, há o prisioneiro (Gian Maria Volonté) que consegue fugir quando transportado de trem para cumprir pena. Por fim, entra em cena o atirador de elite (Yves Montand), que foi da polícia, deixou-se seduzir pelo crime e tornou-se alcoólatra. Juntos, reúnem-se para um grande roubo a uma joalheira da Place Vendôme, endereço chique em Paris.

O mundo moral de Melville é complexo. Seus filmes do ciclo policial (os melhores de sua carreira, segundo o crítico francês Jean Tulard) concentram-se, claro, no microcosmo formado por criminosos e policiais. Mas nota-se que sua meditação vale para o conjunto da sociedade: a corrupção está em toda parte e permeia todas as relações. No entanto, veem-se pontos de luz nessas trevas. E essas luzes estão na amizade viril entre os personagens. Estamos na lama, mas nem o mais sórdido criminoso de Melville deixa de apresentar uma face humana.

A ARTE DE JEAN-PIERRE MELVILLE

Distribuição: Versátil (caixa com 2 discos, R$ 69,90)

 

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