EFE/Doug Peters
EFE/Doug Peters

Bruce Springsteen diz buscar na literatura uma 'honestidade' que não alcança na música

Músico participou de um evento com jornalistas em Londres para falar de sua recente autobiografia 'Born to Run'

Guillermo Ximenis, EFE

18 Outubro 2016 | 10h13

LONDRES - Bruce Springsteen busca na literatura uma “honestidade” que não alcança na música. O músico participou de um encontro com jornalistas em Londres para falar de Born to Run, sua autobiografia de quase 600 páginas.

Springsteen, de 67 anos, chegou ao Instituto de Arte Contemporânea da capital britânica vestindo uma jaqueta de couro preto de aspecto roqueiro, mas brincou que para a ocasião havia trazido óculos para ver de perto que facilitariam sua leitura.

O cantor e compositor admitiu estar mais acostumado a concertos em grandes estádios do que ao recolhimento de escrever memórias, um trabalho que lhe tomou sete anos. "Não há ninguém para aplaudir quando você acaba de escrever", disse, sorrindo. "Muitas das minhas canções, incluindo aquelas que as pessoas creem que são muito pessoais, como no álbum Tunnel of Love, têm por detrás um trabalho de imaginação. Na realidade, me meti nos sapatos de outro e imaginei como seria sua vida", relatou.

"Inventei muitas coisas para as minhas canções", confessou. No livro, por outro lado, Springsteen desenvolve aspectos tão privados como o orgulho que sua mãe sente de sua carreira, apesar de começar a sofrer do mal de Alzheimer, e como ele teve que aprender a tratar seus filhos ante a falta de uma referência adequada no próprio pai.

"Escrever foi uma oportunidade para entrar em mais detalhes na complexidade das relações pessoais. Certamente, pude fazer isso com meu pai, cuja vida foi muito mais complicada do que retratei por meio da música", afirmou.

Com o Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan ainda atual, Springsteen quis evitar comparações e abriu a conversa advertindo que seus objetivos não passam por alcançar a glória literária. "Há uma grande diferença. Bob é certamente um poeta. Eu sou um viajante que trabalha duro", comparou o músico, que vê "altamente improvável" a chance de publicar um segundo livro depois dessa autobiografia.

Dylan "é um escritor muito influente", continuou Springsteen. "Muito depois de que todos nós sejamos esquecidos, o trabalho de Bob continuará soando alto e claro."

Ainda assim, Springsteen não oculta sua admiração por Philip Roth, romancista norte-americano que para alguns críticos reuniu mais méritos do que o autor de The Times They Are A-Changin' para levar o Nobel.

Entre as influências literárias que inspiraram sua escrita nos últimos anos, o músico citou Dostoiévski e Tolstói, em cujas obras encontra a "complexidade psicológica" que tratou de refletir nas memórias.

Ao relembrar sua infância, Springsteen reconheceu que sonhava em ser uma estrela do rock desde que tem memória. "Tinha a fantasia de que Mick Jagger ficava doente antes de um show em Asbury Park, e os Stones, claro, precisariam de mim para subir ao palco e tomar as rédeas", relatou entre risadas Springsteen, que cresceu em uma casa humilde em Nova Jersey.

O livro se aprofunda, entre outras questões, na educação religiosa que ele recebeu até os 13 anos e a influência que tiveram em suas criações conceitos católicos como "redenção" e "glória". / Tradução Guilherme Sobota - O Estado de S. Paulo

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