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'Brooklin' fala da mocinha que deixa a Irlanda para viver nos EUA

Longa foi indicado em três categorias do Oscar

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Luiz Zanin Oricchio,
O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2016 | 03h00

Brooklin, de John Crowley, é uma história de imigração. E histórias de imigração, em geral, são interessantes, quando não empolgantes e sofridas. Todo imigrante é um herói. Deixa para trás um país, uma cultura, um idioma, às vezes família e amigos. Vai para outro país, outra cultura, às vezes outra língua, sem conhecer ninguém, ou sem emprego ou ocupação. São histórias de luta, como sabe quem já foi ou pertence a famílias de imigrantes.

Vista desse modo, parece até suave a saga da garota Eilis, vivida por Saoirse Ronan, candidata ao Oscar de melhor atriz. A produção ainda disputa os troféus de melhor filme e roteiro adaptado (Nick Hornby). Eilis vai da Irlanda aos Estados Unidos nos anos 1950 em busca de melhores condições de vida. Não parece particularmente pobre na Irlanda, embora trabalhe num armazém comandado por uma megera. Ao chegar nos Estados Unidos, vai morar numa pensão simpática, trabalha com chefes amigáveis, não tem obviamente problemas com o idioma, estuda para contadora e, quando vê, já está namorando um ítalo-americano e aprendendo a enrolar espaguetes para fazer bonito diante da família do moço. Nada parece muito dramático.

A recepção é amistosa desde o início. Por isso não faz tanto sentido quando, durante a travessia marítima, outra moça, esta já experiente, a aconselha a olhar firmemente nos olhos do policial da imigração e seguir em frente. Como se houvesse alguma possibilidade de ser recusada. O detalhe é que, quando o oficial lhe indica a porta azul da saída, e Eilis a transpõe, o espectador a vê cercada por uma aura luminosa. Está como que cruzando o umbral do paraíso, alcançando a terra da promissão.

Certo, essa cena um tanto ridícula não é o melhor cartão-postal do longa. É apenas reveladora, porque exacerbação de um estilo que marca esse filme romântico, embalado por uma trilha sonora óbvia, cheio de boas intenções. Já pela metade do caminho, o espectador começa a se inquietar: “Mas não tem conflito?”. Calma. Ele chega, com a morte da irmã, o regresso temporário à Irlanda, um luto rápido e a constatação de que a realidade que deixou para trás ao se mudar para os Estados Unidos talvez não fosse tão ruim assim. Agora, Eilis, que já considerava a vida resolvida, estará com o pé em duas canoas. Encaminhou-se no país de destino, está feliz, mas não se livrou por completo do país de origem. Aí está o conflito, que ela terá de resolver em âmbito pessoal.

Para quem se acostumou a histórias mais viscerais de mudança de país, como a do recente Deephan, por exemplo, Brooklin pode parecer muito fraco. No entanto, é nessa hesitação da heroína que o filme pode crescer um pouquinho. Pois se refere a outra questão, embora de certa forma também ligada à da emigração: como encontrarmos nosso lugar no mundo? Eilis não terá de fazer escolhas forçadas, como fazem os povos que fogem de uma guerra civil ou da fome. Apenas balança entre duas situações no fundo nem tão desiguais assim, entre dois países, dois homens, dois destinos. Nada de tão dramático.

Como conta uma história banal, e o faz de maneira rotineira, Brooklin parece destinado ao esquecimento rápido. Ainda mais diante do mar de lançamentos que disputam a atenção do público todo santo ano. Sobra-lhe certo charme démodé, sentimentos delicados em vez de pancadaria, vidas pequenas contadas em nota baixa, interpretações discretas mas convincentes do elenco, em especial de sua protagonista. Se o termo cabe, Brooklin destaca-se por sua discrição.

 

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