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Brasileiro Lula Carvalho assina a direção de fotografia do novo 'Tartarugas Ninja'

Flavia Guerra - O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2014 | 16h 00

Profissional tarimbado, ele também trabalhou em Robocop e prepara nova parceria com o diretor José Padilha, a série 'Narcos'

“Cowabunga!” Quem cresceu nos anos 80 e 90 sabe que este brado improvável anuncia a chegada de quatro heróis (quase) renascentistas: Leonardo, Michelangelo, Donatello e Rafael. Mais conhecidos como as Tartarugas Ninja, o quarteto que nasceu como história em quadrinhos pelas mãos de Peter Laird e Kevin Eastman no início dos anos 80, virou uma das mais longas séries de desenho animado no final da mesma década, rendeu um longa-metragem em live action de sucesso, série em episódios para a TV, brinquedo, entre outros feitos. Pois a série que já parecia não render mais novidades surge agora repaginada. 

Divulgação
Lula Carvalho no set de "Tartarugas Ninja"

Com produção de Michael Bay (de Transformers) e direção de Jonathan Liebesman (Fúria de Titãs, Invasão do Mundo - Batalha de Los Angeles), o novo longa das Tartarugas narra a saga dos heróis teenagers (em inglês eles são chamados de Teenage Mutant Ninja Turtles, ou Tartarugas Ninja Mutantes Adolescentes) para salvar Nova York do vilão Shredder. Assim como nas tramas originais, contam com a ajuda da repórter April O'Neil e de seu cinegrafista Vern. A jornalista é vivida por Megan Fox (que ganhou fama mundial, aliás, com Transformers) e o elenco conta ainda com Will Arnett, Whoopi Goldberg e William Fichtner. 

Apesar de ninguém ver de fato seus rostos reais, vale citar ainda os atores que interpretam os heróis que vivem no esgoto: Pete Ploszek, Alan Ritchson, Noel Fisher e Jeremy Howard. A propósito, o desafio de se fotografar atores reais que, no processo de pós-produção, têm os rostos substituídos pela animação que dá vida aos personagens dos quadrinhos, foi encarado por um brasileiro: o diretor de fotografia Lula Carvalho.

Um dos mais tarimbados nomes da atual direção de fotografia brasileira, Lula, que é filho do também fotógrafo consagrado Walter Carvalho, tem no currículo longas rodados na Argentina, na Espanha, no México, além dos brasileiros Budapeste,Feliz NatalTropa de Elite (1 e 2, ambos de José Padilha), O Lobo Atrás da Porta, e o americano Robocop

Foi este último, também fruto da parceria com José Padilha, que marcou sua entrada no mercado de Hollywood. O convite para assinar a fotografia de Tartarugas surgiu quando Lula ainda rodava Robocop, entre setembro de 2012 e janeiro de 2013. “Os filmes têm estúdios diferentes. Robocop é MGM/Sony. Tartarugas Ninja é Paramount. Mas mesmo que o filme não tivesse ficado pronto, como as pessoas sempre se conversam, os assuntos se espalham entre os estúdios. E acabou acontecendo uma referência do meu nome para os produtores de Tartarugas. No primeiro semestre de 2013, já estava filmando o longa. E nem pude voltar pra o Brasil para descansar das filmagens de Robocop”, contou Lula por telefone ao Estado

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Cena de "Tartarugas Ninja"

O fotógrafo, que se prepara para rodar mais um projeto em parceria com Padilha, está há quatro semanas na Colômbia, onde trabalha na pré-produção da série Narcos, que o diretor brasileiro vai rodar sobre Pablo Escobar para o Netflix. Estrelada por Wagner Moura (Escobar) que também já está em Bogotá, a série e vai contar a saga do narcotraficante em dez episódios que devem estrear no primeiro semestre de 2015.

De volta a Tartarugas, Lula conta que teve de aprender a desenhar uma nova fotografia para o longa, pois foi a primeira vez que não filmou diretamente o objeto real da ação. “É até engraçado. Foi coisa do destino mesmo filmar dois clássicos da década de 80, logo eu que cresci neste período. Mas em Tartarugas tudo é diferente de Robocop. Da luz à ação. EmRobocop, ainda que haja alguns ajustes feitos pós filmagens em computação gráfica, existia um ator com seu rosto como referência da fotografia. Já em Tartarugas, existem os atores, que dão as vozes e até mesmo as feições às tartarugas, mas seus rostos não aparecem na versão final. Eles são matéria-prima para o face capture (técnica que marca pontos nos rostos dos atores, que servem de referência para a pós-produção em computação gráfica), mas não há uma fotografia direta no rosto”, explica Lula. 

“É muito diverso do que se faz no Brasil. Nunca tinha feito algo tão especializado e complexo. Mas os americanos já criaram um mecanismo de produção que trabalha este tipo de efeito com frequência”, completa o diretor. 

Apesar das dificuldades, Lula aprovou o desafio e embarcou na viagem. “Foi mais uma técnica que aprendi. Este trabalho exigiu muita imaginação e muita participação do supervisor de efeitos visuais, pois é ele quem faz a ponte entre o real e o que vai ser criado depois. Sua figura é fundamental. Este processo de filmar o real e, ao mesmo tempo, trabalhar com personagens virtuais foi interessante. Por mais que se criasse algo artificial em computador, a ligação com o objeto verdadeiro era crucial”, explica o diretor. “Em Avatar, por exemplo, mesmo quando se criava ambientes, rostos etc, era preciso ter a conexão com o que o diretor de arte havia desenhado para a cena, com o que o diretor de fotografia havia também idealizado e filmado, da textura de cores às sombras e luzes. Assim também foi em Tartarugas. O que importa é o trabalho de uma equipe bem conectada”, completa ele. 

Para Lula, seu grande aprendizado foi construir uma ponte entre o real e o virtual. “Estávamos filmando em Nova York, um cenário maravilhoso. Da Times Square a China Town, passando pelo metrô, procurei retratar a cidade da forma mais fiel possível. E o pessoal da pós-produção e de efeitos visuais tinha sempre esta base real para trabalhar. Isso me deu responsabilidade, mas também motivação”, explica Lula, que também dirigiu cenas com atores reais. Entre eles, um nome como Megan Fox sempre desperta curiosidade. “Ela foi ótima no set. É mais uma atriz com quem tive oportunidade de trabalhar. Foi muito bom.”

Para Lula, ainda que Tartarugas seja seu primeiro filme totalmente americano, ele não se sentiu em momento algum um estrangeiro. “Aprendi isso com o tempo. No set, enquanto estamos trabalhando, nos sentimos pertencentes a um único país, o do cinema. Só me sentia estrangeiro quando saía do set e ia andar na rua. No cinema, não importa em que país estamos, nem a língua, mas sim o trabalho de se construir um filme”, observa ele. 

É importante observar que Lula Carvalho é mais um dos diretores de fotografia brasileiros que conquistaram seu espaço no mercado internacional. Outros nomes, como Affonso Beato, Lauro Escorel, Adriano Goldman, ja consquistaram espaco significativo no mercado estrangeiro. “O mundo está cada vez menor com as novas tecnologias. As pessoas circulam mais também, viajam, podem se falar em qualquer parte do mundo”, analisa. “Sem contar que Hollywood historicamente sempre absorveu talentos, sem importar de onde são. É isso que faz da indústria cinematográfica americana tão rica. Se vêem que a pessoa tem algo a acrescentar para eles, levam para lá.” 

Lula conta que para ele a grande diferença entre filmar no País e em Hollywood é o grau de maturidade da indústria americana. “Nós temos tão bons talentos quanto o cinema americano, mas eles têm uma indústria estabelecida há décadas. E lá há um mecanismo que caminha por si próprio. Há uma linha de montagem do cinema, com profissionais que já estão na terceira geração em determinadas funções », analisa. «Eu, que sou da segunda geração, pois meu pai também era fotógrafo, sei o quanto o cinema nacional já foi instável, já sofreu altos e baixos. Ver uma cadeia produtiva levada tão a sério, que gera divisas de forma independente, que emprega e forma tanta gente, é muito gratificante.”

Outros fotógrafos brasileiros que conquistaram mercado internacional 

Adriano Goldman

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O diretor de fotografia Adriano Goldman

Adriano Goldman figura na lista dos  mais requisitados fotógrafos do circuito internacional. Pelo trabalho em Sin Nombre, de Cary Joji Fukunaga, de 2009, levou o prêmio Excellence in Cinematography Award: Dramatic no Festival de Sundance. Além de ter dirigido a fotografia de vários curtas, Goldman dirigiu video clipes e o primeiro programa Unplugged da MTV Brasil. Seu clipe  Orgasmatron, da banda Sepultura, venceu o International Viewer's Choice Award at do MTV Video Music Awards. Também foi premiado pela fotografia das séries  Cidade dos Homens e por Filhos do Carnaval, de Cao Hamburger, de quem também assina a fotografia de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. Internacionalmente, também trabalhou em Jane Eyre, de Cary Fukunaga, Conviction, de Tony Goldwyn, 360, de Fernando Meirelles, Trash, de Stepehn Daldry, Circuito Fechado, de John Crowley, Álbum de Família, de John Wells, entre outros. 

Affonso Beato

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O diretor de fotografia Affonso Beato

Beato começou sua carreira na década de 1960 e logo de cara já ganhou fama internacional com a assinatura da fotografia de O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha. Na década de 1970,começou a integrar projetos internacionais e trabalhar ao lado do espanhol Pedro Almodóvar. Beato assinou a fotografia dos longas Tudo Sobre Minha MãeA Flor do Meu Segredo e Carne Trêmula. Já seu primeiro projeto em Hollywood foi Água Negra, de Walter Salles. De lá para cá, assinou a fotografia de A Rainha (2006), O Amor nos Tempos do Cólera, entre outros. No Brasil, mais recentemente, assinou a fotografia de O Tempo e o Vento, de Jayme Monjardim.  

Lauro Escorel

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O diretor de fotografia Lauro Escorel

Um dos mais prestigiados profissionais do cinema brasileiro, Lauro Escorel possui vasta experiência tanto como cineasta quanto como diretor de fotografia. Fez sua estreia como diretor de fotografia em São Bernardo (1971), de Leon Hirzsman, que recebeu o prêmio de melhor fotografia em Gramado. Seu trabalho em Ironweed (1987), de Hector Babenco, rodado nos Estados Unidos, abriu as portas para o mercado internacional. No exterior, assinou a fotografia de Indecency (1992), de Marisa Silver,Dangerous Heart (1993), de Michael Scott, e Amelia Earhart: The Final Flight (1994), de Yves Simoneau, entre outros. Em 1998, retomou a parceria com Babenco na direção de fotografia de Coração iluminado, que representou o Brasil no Festival de Cannes. É membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (AMPAS) e um dos fundadores da Associação Brasileira de Cinematografia (ABC).

Ricardo Della Rosa

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O diretor de fotografia Ricardo Della Rosa

Formado em cinema pela UCLA – Universidade da Califórnia em Los Angeles, Ricardo Della Rosa é um dos mais renomados diretores de fotografia brasileiros. No Brasil, foi premiado pelo trabalho em longas como  À Deriva,  Lope”, Olga, O Homem do Futuro, entre outros. Por  recebeu o Casa de Areia, recebeu o ‘Bronze Frog” no festival Cameraimage na Polônia, considerado o mais importante festival de cinematografia do mundo. Entre seus projetos internacionais, estão Alex Cross, de Rob Cohen, e um dos episódios de Rio, Eu te Amo, além de ter sido fotógrafo adicional de Ensaio sobre a Cegueira, ao lado de César Charlone.