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Cultura

Festival de Berlim

Brasil fica entre aplausos e polêmicas no Festival de Berlim

'Mãe Só Há Uma' é bem recebido e 'Curumim' deixa o público em choque

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2016 | 21h40

BERLIM - E a sexta-feira, dia 12, foi marcada pela presença brasileira na Berlinale. Um ano depois de ganhar o prêmio do público na seção Panorama com Que Horas Ela Volta?, Anna Muylaert mostrou ontem, também no Panorama, seu novo filme, Mãe Só Há Uma. Ela admitiu que estava nervosa. No fim, aplaudida pelo público, comemorou o nascimento “do bebê”. “Vacilei um pouco para voltar aqui porque pensei comigo que não ia ganhar de novo o prêmio do público. Mas, depois, dei-me conta de que amo esse festival, as amizades que fiz e seria bom voltar. Cada filme é um flor. Essa é a nova flor que oferto a Berlim.”

Anna exibiu seu filme à noite no Zoo Palast, que já foi, anos atrás, o palácio do festival. Antes dela, à tarde, e em outra sala, passou outro brasileiro – Curumim, de Marcos Prado. Dois filmes fortes, que ficcionalizam histórias reais. Mãe Só Há Uma chama-se Don’t Call Me Son em inglês, Não me Chame de Filho. Inspira-se na história de Pedrinho, que foi roubado ainda bebê numa maternidade de Brasília, décadas atrás. Criado como filho pela sequestradora, Pedrinho, que vira Pierre no filme, é reintegrado à família biológica, à qual não consegue se adaptar.

Se a situação, em si, já é forte, Anna e seu assessor no roteiro, o também diretor Marcelo Caetano, transformaram Pierre num representante dessa nova juventude que trafega entre gêneros. Era a sua vida, antes. Maquiado como mulher, ele trafegava entre sexos. A nova família é careta. O pai, interpretado por Matheus Nachtergaele, entra em rota de colisão com o filho. O apoio mais inesperado vem do irmão que, no começo, o olha torto, estranhando as unhas pintadas e o desinteresse de Pierre pelo futebol. No fim da sessão, abraçada por amigos e felicitada pelo público, a diretora tinha motivos para se sentir feliz. Entre os que abraçaram estava o também diretor Karin Aïnouz. “Gostei do filme. A Anna vai para o lado da loucura e se sai superbem”, analisou o autor de Praia do Futuro.

O título Curumim pode levar o público a pensar, erroneamente, que se trata de um filme de índio. Curumim era o codinome de Marco Archer, o brasileiro que foi condenado e executado na Indonésia por tráfico de drogas. Instrutor de voo livre no Brasil, ele foi preso em 2003, no aeroporto de Jacarta, quando tentava entrar no país com 13,4 quilos de cocaína, que estavam escondidos em uma asa delta. Depois de passar 11 anos no corredor da morte e de vários adiamentos da sentença e pedidos de clemência negados, ele foi fuzilado em 18 de janeiro de 2015, aos 53 anos.

O diretor Marcos Prado, parceiro de José Padilha em Tropa de Elite 1 e 2 e, ele próprio, realizador do documentário Estamira e da ficção Paraísos Artificiais, não apenas tem a mesma idade de Curumim como pegou onda com ele. Archer contatou-o para fazer um filme de sua vida – de sua luta.

Munido de uma câmera clandestina, ele registrou sua vida na prisão. Falando para a câmera, ele conta como o típico menino do rio – mar, surfe e garotas – se envolveu com as drogas, e o tráfico. Um amigo dá seu depoimento. Os dois traficavam na Califórnia para financiar a boa vida e a busca da onda perfeita. Chegaram a se envolver com uma conexão colombiana, pessoal de Pablo Escobar – que Padilha biografou numa série da HBO com Wagner Moura.

De certa forma, Marcos Prado fez um filme geracional. O sonho que acabou. Na coletiva após a exibição, ele revelou que não teve nenhum apoio da embaixada do Brasil na Indonésia – nem para entrar na prisão e falar com Marco. Achavam que o filme ia embolar as negociações para tentar libertar o prisioneiro, ou pelo menos comutar a pena de morte. O filme evita o sensacionalismo e o sentimentalismo. É forte. Atinge como um soco no estômago. E pode provocar polêmica por decisões como a de recriar o fuzilamento. Havia gente em choque na plateia, no fim de Curumim.

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