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'Body' disseca as falsas ilusões e a angústia diante da morte

Filme polonês ganhou o Urso de Prata em Berlim com a história de um perito criminal e de sua filha anoréxica

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2016 | 20h06

Um perito criminal (Janusz Gajos) não costuma ser impressionável. Defronta-se com a morte e corpos em decomposição a cada dia do seu trabalho no Instituto Médico Legal. Ele é personagem de Body, da diretora polonesa Malgorzata Szumowska, ganhadora do Urso de Prata no Festival de Berlim com este trabalho.

O perito desenvolveu (talvez como defesa) uma relação fria com o mundo e consigo mesmo. Sua esposa morreu e sua relação com a filha, Olga (Justyna Suwala), é gélida. A garota o detesta, e ele parece não ligar muito para isso. No entanto, terá de se ocupar da moça quando esta desenvolver uma série de transtornos, incluindo uma anorexia mórbida, que a leva à psiquiatria. Como terceiro personagem, surge uma espiritualista, Anna (Maja Ostaszewska). Acredita que os mortos se preocupam com os vivos e procuram ajudá-los em seus problemas. Tanto Olga como o pai se negam a acreditar nisso.

Dirigido de maneira sóbria e em cores pastéis, Body expressa aquela seriedade associada à Europa Central. São clichês, mas, enfim, falam de relações pessoais distanciadas, clima de pouca luz, aprofundamento intelectual e certa melancolia existencial. De qualquer forma, lugares-comuns ou não, são essas características que se encontram em Body.

O filme (Cialo, no original) não tem esse nome por acaso. Diz respeito à relação das pessoas com o próprio corpo e com o corpo alheio. Não exatamente no sentido sensual, mas de maneira mais grave. Dessa forma, não é por acaso que o perito viva do exame de cadáveres cujas mortes envolvem algo de suspeito. Um crime, talvez, ou um suicídio. Nem por acaso que Olga somatize suas angústias nessa agressão ao corpo próprio que consiste em privá-lo de alimento suficiente para que se sustente. E, muito menos por acaso, que a terceira personagem, a da vidente, busque uma continuidade entre os seres, mesmo após a finitude orgânica do indivíduo.

A operação intelectual da diretora Malgorzata será a de esmiuçar as angústias e incertezas presentes em todos esses fatos. Pode-se deduzir que o ponto de vista da cineasta não parece nada complacente com quem se empenha em fornecer confortos ilusórios aos que sofrem. É, tudo somado, uma posição de cunho iluminista.

 

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