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'Betinho' e 'Já Sinto Saudades' despontam no Festival do Rio

Falando sobre ética, morte, vida e desejo, filmes exibidos no primeiro fim de semana do festival refletem a realidade

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2015 | 04h00

RIO - Na saída da sessão de Betinho – A Esperança Equilibrista, num breve encontro com o repórter, o diretor Victor Lopes disse que há três anos, quando começou a trabalhar no projeto, seu filme era uma homenagem a um grande brasileiro. Herbert Souza, o Betinho, virou símbolo da campanha pelo retorno dos exilados durante a ditadura militar – cantado por Elis Regina num clássico da MPB, O Bêbado e a Equilibrista – e logo em seguida, como hemofílico que contraiu o vírus da aids, liderou campanhas contra o preconceito e a favor de uma política pública contra a doença. Isso foi só parte de sua luta. Talvez ele próprio valorizasse mais que tudo sua campanha pela cidadania e pela ética, e a luta contra a fome. Três anos mais tarde, quando o filme, enfim, estreia – dia 29, depois da exibição no Festival do Rio –, a realidade política do Brasil deu uma atualidade urgente à obra.

Na tela, ex-presidentes – Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva – tecem loas ao retratado. A questão é como Betinho reagiria hoje ao lamaçal de acordos e denúncias que ameaça tragar o País. “A questão premente de Betinho é a necessidade de se defender a democracia brasileira”, reflete o diretor. O filme é informativo, sem ser didático, é divertido e emocionante. Havia gente chorando durante a sessão, e muitos outros de olhos vermelhos, quando terminou. “Poderia emocionar muito mais”, admite o diretor, que podou o que lhe pareciam ‘excessos’. A esperança segue equilibrista. Victor Lopes fez um belo filme.

É curioso como os filmes da programação terminam dialogando. Não é mera coincidência, claro. Tem a ver com curadoria. Betinho reflete sobre a morte, contra a qual lutou – mas que não temia. Num longa hollywoodiano de ficção, exibido sábado à noite no Odeon, convertido em Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, Já Sinto Saudades, de Catherine Hardwicke, o espectador acompanha a história de duas amigas, interpretadas por Toni Collette e Drew Barrymore. O filme cobre um longo período, desde a infância das duas. Casam-se, Toni tem filhos, Drew luta para engravidar. A tragédia – Toni é diagnosticada com câncer. Faz químio, perde o cabelo. Faz mastectomia, perde os dois seios. E o tempo todo ela, Toni, e a amiga falam de morte, mesmo quando parecem evitar o tema. A morte não santifica ninguém. Betinho, no documentário, admite seus erros (como quando aceitou dinheiro do bicho para ajudar sua associação em defesa de aidéticos). Toni, na ficção, vira uma peste. Ferida na sua identidade/sensualidade, arranja um amante. E provoca um acidente que quase interrompe a gravidez de Drew.

A libido também está no centro de Beatriz, de Alberto Graça, que inaugurou a mostra competitiva da Première Brasil. Uma mulher transforma-se em cobaia de experimentos eróticos que impulsionam o processo criativo do parceiro escritor. O editor tem a ideia de transformar o texto em peça de teatro, que é ensaiada à medida que o autor vai fornecendo os capítulos. Realidade e ficção mesclam-se em várias frentes. A mulher, Marjorie Estiano, degrada-se. O escritor, Sérgio Guizé, vicia-se em drogas. Ela se pergunta – “Se eu faço isso por amor, não vou terminar me odiando? Odiando você?” E boa parte da safadeza ocorre num bonde, em Lisboa – o bonde chamado desejo? O filme foi dirigido e escrito por homens. Já Sinto Saudades, que também fala sobre o desejo feminino, é obra de uma mulher – a diretora que formatou a série Crepúsculo. Catherine Hardwicke assina a primeira (boa) surpresa desse festival. Já Sinto Saudades aborda temas tabus de forma humana e até divertida. Distribuído pela Imagem, estreia ainda neste ano.

Cães, homens e os limites da lei no novo Marcos Jorge

Marcos Didonet, que organiza os debates da Première Brasil, não deixou por menos e saudou o novo Marcos Jorge, Mundo Cão, como um grande filme brasileiro. O diretor de Estômago relaciona cães e homens. Lázaro Ramos faz chefão que responsabiliza Babu Santana pela morte de seu rottweiler e sequestra o filho dele. É o começo de uma escalada de violência cujo subtexto é ‘a lei’. Até onde se pode ir em defesa dos direitos? É lícito pegar em armas, se a Justiça não funciona? O twist final desencadeou uma onda de aplausos. O filme estreia em março, e vai provocar polêmica, podem anotar.

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