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Basta de denúncias contra o assédio: é chegada a hora de uma conversa franca e ações reparadoras

Em Hollywood, a Justiça restaurativa pode ser o caminho

Ann Hornaday, WASHINGTON POST

06 Fevereiro 2018 | 06h00

Aqui está o que sabemos: Casey Affleck foi tirado do Oscar. James Franco está fora da corrida. Louis C.K. e Aziz Ansari estão efetivamente escondidos. Jovens atores renunciam a Woody Allen.

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As instituições de Hollywood, incluindo a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, estão escrevendo novos códigos de conduta em relação ao mau comportamento no ambiente de trabalho. Enquanto isso, poucos meses depois que as acusações de assédio sexual e abuso contra Harvey Weinstein provocaram uma avalanche de acusações semelhantes em toda Hollywood, uma crise de pânico se desencadeou, com homens - e não poucas mulheres - invocando os julgamentos das bruxas de Salem e o macarthismo dos anos 1950.

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Dentro desse redemoinho de indignação, coragem, júbilo, ansiedade e receios reside uma pergunta que anima quase todas as conversas em Hollywood nos dias de hoje: o que vem depois? Depois que as hashtags do #MeToo se tornaram virais e os broches do Time’s Up foram guardados? Será que a “próxima coisa” pode ser algo mais produtivo do que a humilhação pública e o desterro profissional, por um lado, ou ações judiciais e prisões do outro? Será que é possível passar das “iscas de cliques” nas redes sociais para uma responsabilização genuína e uma cura?

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Laura Dern já nos deu a resposta. Em seu eloquente discurso no Globo de Ouro, em janeiro, ela lembrou o fato de ter sido educada em “uma cultura de silenciar (isso) que se tornou normal”, acrescentando: “Apelo a todos para não só apoiar sobreviventes e espectadores que são corajosos o suficiente para contar sua verdade, mas para promover a justiça restaurativa”.

Os colegas de Dern deram-lhe um caloroso aplauso, mesmo que muitos deles não soubessem exatamente o que ela quis dizer com “justiça restaurativa” (alguma coisa a ver com um tribunal? Em um spa?). Mas o que pode soar como um aforismo vagamente aspirante tem um significado muito específico, que contém uma promessa em particular para um setor, em meio a um intenso autoexame e uma igualmente intensa necessidade de fuga.

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A justiça restaurativa não é nova. A Comissão de Verdade e Reconciliação na África do Sul pós-apartheid provavelmente é o mais famoso dos exemplos. Mas, como conceito, existe há séculos. No contexto dos dias modernos, é mais frequentemente usado em comunidades, escolas e locais de trabalho como uma alternativa não punitiva às tramitações tradicionais envolvendo acusações, argumentos e punições.

Ao contrário dos julgamentos e tribunais contenciosos, a justiça restaurativa facilita as conversas entre pessoas prejudicadas e as pessoas que as prejudicaram, assim como familiares, amigos e membros da comunidade vizinha que foram impactados negativamente pela infração. Os encontros, realizados após uma cuidadosa preparação das duas partes, concentram-se nas pessoas prejudicadas, expressando seus sentimentos, com os agressores ouvindo e, idealmente, assumindo a responsabilidade pelo sofrimento que causaram. Alissa Ackerman, professora de Justiça Criminal e pesquisadora de políticas para crimes sexuais na Universidade Estadual da Califórnia, em Fullerton, descreve a justiça restaurativa como uma estrutura “cuja preocupação são as pessoas e os relacionamentos, não definições de estatutos e normas para sentenças”. Em vez de penas de prisão ou indenizações, a restituição pode assumir a forma de serviço comunitário, um pedido privado de desculpas ou uma forma mais pública de reparação.

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Dado o espectro de comportamentos recentemente descritos em Hollywood - desde sutis violações de fronteiras e abuso verbal até agressão direta e estupro - a justiça restaurativa oferece uma maneira de reformular situações que às vezes estão imersas em tons de cinza.

Como seria se as supostas vítimas de James Franco, que disseram querer apenas um pedido de desculpas do ator, pudessem alcançar esse desejo, distante do brilho do noticiário da manhã e em um contexto mais silencioso e mais solidário? Será que as necessidades emocionais da mulher que se sentiu intimidada e desrespeitada após seu encontro com Aziz Ansari seriam melhor atendidas ao apresentar suas queixas fora da chamada cultura de mídia social? Dada a sua declaração meio defensiva e quase autoconsciente em novembro passado, existe potencial para Louis C.K. assumir a responsabilidade concreta pelo seu comportamento?

Não que nenhuma dessas conversas seja fácil ou possa ocorrer de forma instantânea. “Há tanto pesar e dor que os sobreviventes precisam sentir antes de estarem prontos para encarar seus agressores”, diz Sonya Shah, que trabalhou com vários sobreviventes de abuso sexual no Ahimsa Collective, em São Francisco. “As pessoas que foram prejudicadas precisam sentir-se indignadas, irritadas, valorizadas - elas só precisam de algum espaço para sentir-se zangadas e machucadas e entristecidas, e um bocado de espaço para apenas ser.” Esse é o espaço emocional que a maioria das pessoas parece estar ocupando agora. Mas se alguém decidir buscar a justiça restaurativa em um caso particular, é essencial que este processo seja iniciado pela parte lesada, diz Shah.

“Há alguns sobreviventes que chegam a um perdão espontâneo de imediato, e há outros que defenderiam a pena de morte”, diz ela. “Para a maioria deles, o período logo após acontecer um incidente não é o momento em que os sobreviventes pedem ajuda. Eles têm seus próprios traumas, raiva, vergonha e raiva que precisam elaborar antes de estarem prontos para se envolver em uma conversa ou mesmo descobrir se isso é algo que eles querem considerar. ‘Isso vai ajudar na minha cura? Vai me ajudar a viver uma vida plena e bela?’, questionam-se.”

Lauren Abramson, que pratica a justiça restaurativa no Centro de Conferência da Comunidade, em Baltimore, acrescenta que é incorreto supor que as práticas restauradoras fracassaram, caso elas não resultem em perdão. “Eu acho que as pessoas têm a concepção errônea de que, se você fizer isso, tudo vai ficar resolvido”, diz Abramson. “Não se trata de forma alguma de perdão. É para que as pessoas possam ter um espaço para externar sua experiência, ouvir a dos outros e, ao fazê-lo, abrir as portas para a cura. O perdão pode ou não fazer parte disso”.

No entanto, ela acrescenta, há etapas individuais positivas que indivíduos e instituições em Hollywood podem adotar para fugir do ciclo atual de denúncia/divulgação e negação/defesa.

“E se os homens em Hollywood começassem a se reunir em seus próprios grupos e sentirem o que é admitir seus próprios comportamentos, uns com os outros?”, Abramson indaga. Tais encontros francos e sinceros, diz ela, “darão às pessoas uma sensação de que não existem apenas os Harvey Weinsteins e os Louis C.K.s. Poderia ser um grupo de pessoas dizendo: ‘Algo está acontecendo, do qual fazemos parte, não nos envolvendo com isso e não aceitando. E há algo que podemos fazer para levar o nosso próprio comportamento a um nível mais elevado’... porque apenas usar um broche é muito fácil.”

A boa notícia é que alguns homens já estão indo além do broche: na entrega dos Prêmios SAG, em janeiro, William H. Macy mencionou que havia participado de uma reunião de homens organizada pelo Time’s Up. De sua parte, Ackerman aceitaria a oportunidade de ajudar os festivais, as corporações e a academia a formular métodos reparadores para fazer executar suas regras internas.

“Estou sediada no sul da Califórnia e cada vez que um caso se torna público, me pergunto como faço para entrar em contato com esses homens. Porque quando você desarma a vergonha, quando você desarma o pânico e cria uma conexão, as coisas que surgem nessas conversas são incríveis.”

Pela proximidade com Hollywood, Ackerman está bem situada para se tornar a Gloria Allred (advogada que defende direitos das mulheres) da justiça restaurativa. E, se seus ideais mais alardeados fossem levados a sério, Hollywood deveria ser uma plataforma ideal para modelar uma prática baseada em narração e escuta profunda. Quando os cineastas falam sobre seu ofício, em geral dizem que o que mais valorizam como artistas são a autenticidade, a empatia e a narrativa verdadeira. Agora, é a hora de reunir tais valores a serviço de catarses reais, fora da tela. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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