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'Avanti Popolo' retrata relação entre pai e filho

Longa também discute os traumas da ditadura

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Flavia Guerra,
O Estado de S.Paulo

11 Junho 2014 | 20h19

"É preciso esquecer, sem esquecer o que foi esquecido.” A frase do escritor israelense Amos Oz não só ilustra o trailer de Avanti Popolo como simboliza as motivações do diretor Michael Wahrmann em seu primeiro longa.

O filme narra o drama de André (André Gatti) e seu pai (vivido pelo diretor Carlos Reinchenbach, morto em 2012). Depois de se separar, André passa a viver na casa do pai, que vive com a cachorra Baleia e espera há 30 anos pela volta de outro filho, desaparecido na ditadura militar.

Paulistano por opção, o diretor mora há dez anos em São Paulo, mas nasceu no Uruguai e cresceu em Israel. Lá não só se educou como se envolveu politicamente, ainda adolescente, com a militância de esquerda e formou suas utopias políticas e socais. Mais que isso, também lidou com traumas e questões como o Holocausto. “Morei 20 anos em Israel. E isso influenciou muito minha formação. A premissa de Avanti Popolo já nasceu nos meus dois curtas, que tratam da relação entre avós e netos. E giram em torno do trauma do Holocausto vivido pelos avós, da impossibilidade de falarem sobre isso e dos netos entenderem o que eles passaram”, conta Wahrmann ao Estado. "A discussão é muito semelhante à do longa, que traz a questão da falta de comunicação entre pai e filho. Da relação com este trauma e com a memória", completa ele, que ressalta as formas opostas como cada país trata de seus traumas.

"Uruguai e Israel tratam os traumas de forma muito explícita. As questões são discutidas o tempo todo. O Holocausto é uma questão quase política. E, no Uruguai, a ditadura foi muito discutida, os militares foram julgados. É muito presente. Mas no Brasil há a sensação de que é uma questão do passado. Nas conversas, ouvimos coisas como ‘Não podemos reabrir esta discussão porque a superamos’”, diz. “Mas diz-se também que abrir as feridas é a única forma de curá-las. Isso demorou muito no Brasil, só agora há a Comissão da Verdade."

Mas Wahrmann não escolhe um lado. “Não sei, ao certo, o que é mais saudável. Se recalcar os traumas ou botá-los para fora. O filme é minha forma de tratar do tema.” Para o diretor, no cinema brasileiro, a questão também se restringe, em geral, ao passado. "Ou as histórias são sobre heróis guerrilheiros do passado. Poucos tratam do presente. E em geral retratam o passado como um fantasma. Queria trazer esta dor para o tempo de hoje. Analisar se o esquecimento nos leva para frente ou não", analisa o diretor.

Em Avanti Popolo, são fitas que André encontra, filmadas em Super 8mm por seu irmão durante a ditadura, que fazem a ponte com um passado que sempre retorna. Ao resgatar imagens, André traz à tona a angústia da eterna espera e da desilusão do presente em contraponto a um passado idealista. “Um filho desaparecido, diferentemente do morto, não permite o luto. As famílias dos desaparecidos estão sempre no limbo, em espera eterna de algo que não vai voltar."

É esta espera que motivou inicialmente o diretor. Mirando a angústia tratada por obras como Esperando Godot (de Samuel Beckett), Avanti Popolo retrata o absurdo da espera. “No final de Esperando Godot fala-se ‘vamos andar, mas ninguém anda’. Cantamos Avanti Popolo, mas ninguém vai avante”, comenta ele.

 

Se a ideia de filmar a história a partir de um personagem real (Gatti foi mestre de História do Cinema de Wahrmann) nasceu muito da observação do diretor sobre a personalidade crítica de seu professor, as metáforas ligadas ao cinema também vieram naturalmente na trama.

Um dos exemplos é a escolha de um cineasta como Reichenbach para viver o pai. "Fiz o convite a ele porque o achava muito parecido com o Gatti. Era perfeito. Mas, obviamente, há uma metalinguagem no filme", diz Wahrmann. "Qual o papel do cinema durante a ditadura? E hoje? Em um mundo em que as utopias acabaram? No filme, não por acaso, há um diretor cantando em um cinema em ruínas."

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