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'As Sufragistas', o filme que fez de Helena Bonham Carter uma feminista

Longa, em cartaz, retrata grupo de mulheres inglesas que lutou pelo direito de voto no final do século 19

Nancy Mills, THE NEW YORK TIMES

02 Janeiro 2016 | 16h00

Se Helena Bonham Carter tivesse vivido em 1912, durante o auge da campanha pelo voto feminino na Grã-Bretanha, teria enfrentado um dilema.

A atriz de 49 anos muito provavelmente sairia bradando um cartaz com os dizeres “Direito ao Voto” e faria greve de fome na cadeia; porém, o homem cujo ponto de vista teria que mudar era o do próprio tataravô, Lorde Herbert Asquith – que, na época, era o primeiro-ministro e totalmente contrário ao movimento. Como também a filha dele, Violet, avó de Helena. “Foi um encontro bem estranho com os meus antepassados”, comenta ela.

Ela se refere a As Sufragistas, em cartaz nos cinemas. Nele, Meryl Streep encarna a líder Emmeline Pankhurst, com Carey Mulligan no papel de uma lavadeira que se une à causa. Helena é Edith Ellyn, ativista que trabalha em uma farmácia e conta com a ajuda do marido, já que o estabelecimento funciona como ponto de encontro e ela, protetora, age como mãezona para as mais novas. Ao se justificar para uma das recrutas, Edith diz: “Eu queria ser médica, mas nasci no sexo errado”.

A princípio, a personagem ia se chamar Caroline, mas depois de ler sobre a sufragista Edith Garrud, a estrela pediu permissão à diretora Sarah Gavron para rebatizá-la. “Edith tinha 1,49 m”, conta a atriz, que tem 1,57 m. “Treinou as trinta mulheres que faziam a segurança de Emmeline Pankhurst. Ensinou-lhes as técnicas do jiu-jítsu para ajudá-las a suportar as infinitas agressões. Infelizmente a cena acabou cortada do filme”, diz ela, de telefone, de Londres.

A primeira lei para o voto feminino não foi aprovada pelo Parlamento, em 1870. Os grupos de defesa do movimento começaram a se formar em meados da década de 1880, mas foi só em 1928 que as britânicas conquistaram o direito.

Helena estudou na Westminster School, uma das melhores da Inglaterra para o ensino médio – mas admite que, mesmo assim, conhecia poucos detalhes do movimento.

“Eu não sabia das greves de fome, nem da vigilância policial e tinha apenas uma vaga ideia da ‘Lei do Gato e Rato’ que foi aprovada, infelizmente, pelo meu tataravô.”

A legislação, oficialmente conhecida como Leis das Presas (Libertadas Temporariamente por Questões de Saúde), de 1913, tinha como objetivo impedir que as sufragistas se tornassem mártires, fazendo greve de fome até a morte. Graças a ela, as detentas cujas vidas corriam risco por falta de alimentação voluntária eram libertadas – mas tinham que voltar assim que tivessem recobrado o mínimo de saúde.

“O que eu teria feito? Não sei. Contei com a sorte da geografia e do nascimento. Nunca sofri qualquer discriminação por ser mulher. Talvez se me visse numa posição de frustração extrema, de não ter voz, teria sido diferente. Sou bem direta. A vida é muito curta para ficar dando voltas.”

“Meu pai sempre me tratou igual aos meus irmãos. Fui à escola, estudei, pude ter uma carreira, fazer tudo o que quis.”

A atriz sempre teve objetivos definidos. “Aos 14 já era bem precoce, forçava a barra mesmo. Sabia bem que, se tivesse um empresário, podia ser diferente. Poderia começar logo.”

“Além do mais, eu queria me exibir. Não sabia bem com que intenção, mas pode crer que o que não me faltava era autoconfiança”, admite.

Partiu então para a lista telefônica e descobriu uma lista de representantes. “Mandei uma foto e falei da minha altura. Aí liguei para a primeira e ela topou, mas não consegui grande coisa, só um anúncio e uma peça.”

Foi quando o diretor Trevor Nunn, que procurava alguém para encarnar Lady Jane Grey – aquela que durou nove dias como rainha da Inglaterra, em 1553 – em Lady Jane (1986), notou uma foto de Helena na revista da alta sociedade britânica The Tatler. Antes de usá-la em seu filme, porém, James Ivory a contratou para viver Lucy Honeychurch em Uma Janela para o Amor (1985). Lançado primeiro, acabou se tornando um sucesso do cinema de arte e iniciou sua carreira.

Desde então ela já fez mais de 50 longas, incluindo destaques como Clube da Luta (1999) e O Discurso do Rei (2005), pelo qual faturou o Oscar de Melhor Coadjuvante. E já tinha sido indicada a Melhor Atriz por seu trabalho em Asas do Amor (1997).

Entretanto, talvez seja mais conhecida, pelo menos em alguns círculos, por sua malvada Bellatrix Lestrange em Harry Potter e a Ordem da Fênix (2007), Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2009) e nas duas partes de Harry Potter e as Relíquias da Morte (2010-2011).

“Basicamente interpreto para deixar de ser eu mesma. É como se tirasse férias de mim. Não quero me repetir porque me canso com facilidade.”

As Sufragistas lhe deu a oportunidade de fazer algo com um significado pessoal. “Muitos poucos filmes valem a pena ser feitos no sentido de abordarem histórias que vão além do entretenimento. Incrível como essa não foi contada antes.”

Participar de As Sufragistas transformou Helena em feminista. “Quando comecei a filmar, não achava que fosse. Agora sou do tipo feminista distraída. Tenho certeza que há muitas por aí como eu, mulheres que não se sentem inferiores a nenhum homem. Basta se sentir em pé de igualdade para se tornar uma. Feminista não significa odiar os homens por tabela.”

“Tem muita mulher ainda hoje que acha que não há mais motivo para a luta, mas depende de onde se nasce. Veja só a Malala, essa menina paquistanesa que tomou um tiro na cara porque queria aprender.”

A ligação familiar de Helena com o filme fez com que passasse a analisar sua árvore genealógica mais de perto. “Aparentemente, meu tataravô era um homem muito inteligente, mas disse que as mulheres não mereciam direito de voto porque não éramos fortes o bastante para defender o país caso ele fosse atacado – o que é, no mínimo, um argumento idiota e burro.”

A atriz também se surpreendeu ao descobrir a antipatia da avó pelas sufragistas.

“Ela morreu quando eu tinha três anos, mas soube um pouco da vida dela através de cartas que enviou. Perguntei para a minha mãe, que era muito ligada a ela, por que Violet era contra o movimento, e ela me disse que era por respeito aos irmãos. Era confidente do pai. Sabia que não havia diferença entre homens e mulheres, porém, não podia votar.”

A lição de História de Helena ficou ainda mais pessoal quando conheceu a bisavó de Emmeline Pankhurst, Helen. “Tive que me desculpar com ela e dizer que estava tentando reavaliar tudo o que sabia sobre a causa.”

Na época em que As Sufragistas estava sendo rodado, Helena tinha acabado de se separar do diretor Tim Burton, pai de seus dois filhos, Billy Ray, de doze anos, e Nell, de sete.

Os dois se conheceram quando ele a escalou para fazer seu Planeta dos Macacos (2001). Depois, vieram mais seis: Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (2003), A Noiva-Cadáver (2005), A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005), Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco de Fleet Street (2007), Alice no País das Maravilhas (2010) e Sombras da Noite (2012).

Burton é um dos produtores de Alice no País das Maravilhas: Através do Espelho, previsto para estrear em 2016, no qual Helena repete o papel da Rainha de Copas – mas ele não o dirigirá.

“Foi muito divertido voltar a encarná-la. É mimada e toda nervosinha. Quando você gosta da personagem e tem a chance de repeti-la, é como se calçasse um par de sapatos velhos.”

“Passei grande parte de 2014 bem brava e irritada, rodando As Sufragistas e voltando a encarnar a Rainha. No final, estava sem voz, de tanto gritar tanto tempo. Foi muito terapêutico.”

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