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'As Memórias de Marnie' é cuidadoso nos detalhes, como nuvens que expressam sentimentos

Indicado ao Oscar, animação retrata um espírito solitário

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Yuri Kageyama,
AP

16 Fevereiro 2016 | 03h00

TÓQUIO - A história da passagem de uma adolescente para a idade adulta é familiar: uma garota tímida com problemas para se relacionar cria um amigo imaginário. A originalidade da animação As Memórias de Marnie, indicada ao Oscar, está na maneira como as imagens desenhadas à mão expressam o tormento interior da jovem.

A sedutora animação desenhada manualmente é marca registrada do renomado Studio Ghibli, do Japão, onde o diretor do filme, Hiromasa Yonebayashi, trabalhou durante anos. Ele diz que a maneira como os artistas ilustraram minuciosamente os céus carregados de nuvens e as ondas agitadas expressam a alma da personagem, Anna, que carrega uma dor no coração porque é uma menina adotada.

“É um desafio expressar emoções internas visualmente, por exemplo, por meio das expressões faciais da protagonista e a paisagem de fundo”, disse ele numa entrevista em sua sala no Studio Ghibli, em Tóquio. “O vento é gelado, mas existe calor num abraço.”

A mãe adotiva de Anna fica muito preocupada com o isolamento da filha, uma garota fechada em si mesma, e a envia para passar férias de verão em Hokkaido, ao norte do Japão, ao lado de parentes que vivem numa pitoresca casa de campo próxima de um lago e colinas verdejantes.

É ali que ela encontra Marnie, que obviamente é uma figura imaginária e, mesmo sem seu longo cabelo loiro, desperta a atenção e a amizade de Anna, mais do que as grosseiras garotas tediosas e barulhentas em torno dela. O final dramático envolve uma separação que é inevitável, mas, numa mudança inesperada, a heroína sente-se em paz consigo mesma, mostrando ao mesmo tempo como alguns vínculos importantes perduram.

“Ela aprende que é realmente amada pelas pessoas que a cercam”, diz Yonebayashi. “É um pequeno passo para um indivíduo. Mas também um grande avanço e é isto que o filme expressa. E penso que este aspecto nunca foi mostrado antes.”

O estilo de As Memórias de Marnie não tem os exageros comuns nos trabalhos de animação do Studio Ghibli e outros. Yonebayashi decidiu criar as imagens dos ambientes e movimentos dos personagens mais realistas, para destacar mais as cenas da protagonista com Marnie, que parecem ser de um sonho.

Yonebayashi recentemente deixou o estúdio para prosseguir com seus próprio projetos, mas trabalhou em filmes anteriores produzidos pelo Ghibli como Princesa Mononoke e Ponyo, Uma Amizade que Veio do Mar, dirigidos pelo fundador do estúdio Hayao Miyazaki, que conquistou um Oscar em 2003 por A Viagem de Chihiro e um prêmio honorário da academia em 2014.

Quando indagado o que ele aprendeu com Miyazaki sobre a arte da animação, Yonebayashi pensou por mais de meio minuto. “Tudo”, respondeu. “O movimento, a maneira de pensar quando você desenha uma imagem, como traçar uma linha, tudo”, acrescentou.

Miyazaki anunciou sua aposentadoria e não se sabe qual será o próximo projeto do Studio Ghibli. Yonebayashi não deu detalhes sobre seu próximo projeto, mas disse que pode ser um novo trabalho do Ghibli. E seus vínculos estreitos com o estúdio são claros. Ghibli providenciou o smoking que ele estará usando para a cerimônia do Oscar em 28 de fevereiro.

“Sinto-me extremamente honrado. O legado e a confiança que o estúdio criou no decorrer dos anos e os trabalhos que fizemos com a nossa equipe hoje são avaliados positivamente”, disse ele.

O estúdio foi criado em 1985 por Miyazaki e Isao Takahata, cujo filme O Conto da Princesa Kaguya foi indicado ao Oscar no ano passado. O estúdio insiste no método do trabalho intensivo de desenho à mão, evitando as imagens digitais e outras tecnologias que hoje são cada vez mais o padrão.

“Menos tecnologia transmite mais os sentimentos do criador e o desenho à mão dá uma sensação de novidade”, diz Yonebayashi. “Um estrangeiro disse-me certa vez que criamos coisas no estilo tradicional e isso me lembrou que é assim que deve parecer. Mas não que o 3-D seja superior ao 2- D. Uma imagem é uma imagem”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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