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Artistas discutem variação da bilheteria do cinema nacional em 2013

Números indicam que poucos filmes brasileiros vão bem no mercado: a maioria vai mal

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

03 Dezembro 2013 | 22h37

Sempre haverá algum crítico ou espectador para contestar a informação – no ano passado, o melhor filme brasileiro do ano deve ter feito míseros 10 mil espectadores, se tanto, e não se pode dizer que tenha sido um fracasso. Lançado em pouquíssimas salas, em horários alternativos, Sagrado Segredo, de André Luiz Oliveira, fez números decentes por cópia para alcançar a média, mesmo que baixa. Este ano tem sido de comemoração – os números do cinema brasileiro aumentaram muito, incluindo o share, a participação nacional no próprio mercado, mas é muito provável que o melhor brasileiro do ano, programado para estrear no dia 27 – São Silvestre, de Lina Chamie – encerrará 2013 fazendo menos público que o melhor de 2012.

Justamente nesta sexta-feira, dia 5, a Ancine, Agencia Nacional de Cinema, que regulamenta o cinema no País se reúne para debater a cota de tela para a produção nacional em 2014. Neste ano, dependendo do número de salas de cada complexo, os cinemas cumprem uma cota mínima entre 28 e 63 dias por sala e devem exibir de três a 14 filmes nacionais diferentes, no mínimo. O cineasta Ícaro Martins divulgou um documento que foi avalizado por Eduardo Escorel em seu blog. Há um discurso de que o cinema brasileiro se consolida, avança de vento em popa e não precisa de leis protecionistas para se impor no próprio mercado. Martins tem restrições a ele. Não é verdade – não num mercado formatado para a produção de Hollywood, agora é o repórter quem diz. Como Martins assinala em seu documento, tanto a frequência do público quanto os números do cinema brasileiro aumentaram muito desde 2000. Mas, se é verdade que o mercado cresceu, a presença brasileira tem sido tudo, menos regular.

Este ano, nenhum filme superou a marca de 5 milhões de espectadores, embora dois tenham se aproximado bastante. E são dois bons filmes – De Pernas pro Ar 2, de Roberto Santucci, e Minha Mãe É uma Peça, de André Pellenz, com o fenômeno Paulo Gustavo. Os críticos reclamam do sucesso das comédias, como se elas não pudessem ter méritos. Uma aborda em chave crítica o papel da mulher na sociedade brasileira. A outra discute a disfuncionalidade familiar. Márcio Fraccaroli, da Paris Filmes, que distribui os dois, analisa. Sua empresa fez uma aposta na comédia e deu apoio integral aos projetos, inclusive apostando em lançamentos massivos. Agora mesmo, Crô – O Filme, de Bruno Barreto, acaba de abrir com mais de 330 mil espectadores no primeiro fim de semana. O filme deve fechar a primeira semana em 600 mil espectadores, e Fraccaroli acredita que chegará a 1,5 milhão de espectadores, bem mais que o próprio Barreto alcançou com seu longa precedente, o dramático (e poético) Flores Raras.

Se a previsão de público para este ano no Brasil é de 152 a 155 milhões de espectadores, a expectativa é de que a participação brasileira (o share) fique entre 25 e 26 milhões. Desse total, entre 16 e 17% do bolo, 65% correspondem a filmes da Paris. Fraccaroli comemora, mas mantém a cabeça fria. Para ele, o mercado está em processo de mudança. Como explicar, do seu ponto de vista, que Cine Holliúdy faça mais público que Serra Pelada, de Heitor Dhalia? Neste quadro, os 750 mil espectadores de O Tempo e o Vento, de Jayme Monjardim, são honrosos – mesmo que decepcionantes, na relação custo/benefício. A novidade dos números deste ano foi que tivemos mais produções em torno de 500 mil espectadores, mas isso gerou um discurso equivocado, segundo Ícaro Martins em seu documento.

Os eufóricos saudaram um crescimento dos filmes brasileiros médios, mas a verdade é que os números não são tão positivos assim. Muitos filmes projetados para ser blockbusters realizaram desempenhos abaixo do esperado e obtiveram rendimento de filme médio – aqueles projetados para 150 cópias, ou salas –, ficando na tal faixa dos 500 mil. Recentemente, no RioMarket, Camila Pacheco, diretora de Marketing da Fox no Brasil, apresentou um dado alarmante – o share (participação) do filme médio caiu de 30% para 6% no mercado. Camila culpa a lenta expansão do mercado exibidor, mas há controvérsia. O número de salas tem aumentado a uma razão superior a 7% ao ano, mais que o dobro do PIB. O problema, o real problema, vão informar os produtores e diretores independentes – de pequenos filmes autorais –, é que está cada vez mais caro lançar filmes no Brasil.

Ao contrário da Paris, muitos distribuidores esperam que os produtores tragam o dinheiro do lançamento. Sem investimento – sem publicidade –, as chances dos filmes são reduzidas. Sílvia Cruz, da Vitrine Filmes, tem sido guerreira na batalha por espaço. Muitas vezes ganha horários alternativos empurrada pela crítica. Com O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, seu maior sucesso, fez 96 mil espectadores. Ela apoia o aumento da cota de tela, mas teme que vá beneficiar ainda mais os filmes grandes. Não ocorre só aqui. No Festival do Rio, ao lançar um dos melhores filmes estrangeiros do ano (Um Estranho no Lago), o diretor Alain Guiraudie disse que seu prestígio não tem a contrapartida do público e, mesmo na França, um país reputado como de cinéfilos, sua média de público tem sido de 30 mil espectadores. Se a tendência à concentração do mercado é mundial, no Brasil é ainda mais dramática. A fatia em que se movimentam os filmes brasileiros, lembra Ícaro Martins, anda na faixa de 12%. Este ano, vai a 17%, mas, dos 115 longas lançados em 2013 (e a retrospectiva começa hoje no CineSesc com 111), 15 dividem, de forma desigual, 15% de toda a renda, cabendo aos outros cem os 2% restantes. Ou seja, o cinema brasileiro vai bem, mas a maioria dos filmes vai mal.

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