Arquiteto Sérgio Bernardes ganha documentário

Conduzido pelo seu neto, 'Bernardes' traça panorama de sua vida

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

27 Junho 2014 | 19h30

"Eu invento meu mundo. E vocês têm de inventar o seu. Vocês têm um tempo muito curto de vida e têm que projetar coisas porque vocês inventam. E não se acostumar com a negação do ato de viver, que é dada pelo sistema de poder que está aí", afirma o arquiteto Sérgio Bernardes a um grupo de estudantes em cena do documentário Bernardes, agora em cartaz.

Nascido em 1919 e morto em 2002, aos 82 anos, Bernardes foi um dos mais importantes arquitetos brasileiros do século 20. "A obra dele é fundamental para qualquer estudo que se fez na área da cultura no Brasil", diz o arquiteto Guilherme Wisnik no filme. Já o arquiteto e escritor Lauro Cavalcanti comenta que ele estava no mesmo patamar de Oscar Niemeyer. "A relação deles podia ser um Fla-Flu da arquitetura moderna carioca, mas, na verdade, não havia um clima de competição. Eles até tiveram um escritório juntos."

Mas, então, por que não se fala mais de Sérgio Bernardes?, questiona no filme seu neto e também arquiteto Thiago Bernardes.

Para responder a esta pergunta e ainda contar quem foi este gênio inquieto e fascinante é que Thiago e os diretores Gustavo Gama Rodrigues e Paulo de Barros realizaram Bernardes. "A ideia surgiu da vontade de um neto entender melhor quem foi seu avô", conta Paulo de Barros. “Decidimos que o Thiago conduziria o filme, as conversas e estaria também em cena. O que fizemos foi ajudá-lo a superar a timidez e se soltar diante da câmera", completa o diretor, que optou por mostrar momentos em que Thiago se prepara para entrar em cena e gravar. "Eu não conhecia nada da obra de Sérgio e foi uma grande descoberta para mim também", acrescenta Paulo.

Uma das prioridades do trio era não só traçar a história do profissional Sérgio Bernardes, mas também a sua trajetória familiar e filosófica.

É esta figura complexa e multifacetada que está em quadro em Bernardes. Tanto o arquiteto de casas que marcaram a história da elite carioca quanto o visionário que deixou tudo para se dedicar a seus ideais de uma arquitetura mais democrática e social até o profissional que ousou projetar a Escola Militar de Guerra durante a ditadura militar e pagou caro por não se afiliar nem à militância de esquerda e nem ao sistema vigente.

"Ele pensava em usar a arquitetura como forma de melhorar o mundo. Ao projetar a Escola de Guerra, tentou modificar o sistema por dentro, queria mexer na escola. E os militares, obviamente, não aprovaram. Ao mesmo tempo, acabou sendo malvisto pela esquerda. Ele não estava de lado nenhum, mas no da arquitetura", conta Paulo.

Entre seus outros projetos famosos, estão o Pavilhão de São Cristóvão e os Postos de Salvamento da Orla das praias, no Rio, o Palácio do governo do Ceará, e o Hotel Tambaú, na Paraíba, além da lendária casa de Lota Macedo Soares, no Rio. "Fiz a casa da Lota, que ganhou vários prêmios, com um operário só, o Antônio. Aliás, todas as minhas casas têm a ver com meu diálogo com eles. É um projeto de uma simplicidade enorme", declara Sérgio em uma das imagens de arquivo do filme, provando que, de fato, sua arquitetura, além de técnica, era emocional.

São os resgates históricos aliados a depoimentos fortes que fazem de Bernardes muito mais que uma ovação unânime. Ainda que suas facetas contraditórias sejam reveladas, como o episódio em que ele deixa a família no dia seguinte da festa de bodas de prata, é sempre um retrato humanista que se vê. “Falar só sobre a técnica de seu trabalho era pouco diante de um personagem tão rico. Ele foi um grande arquiteto, mas o que nos interessa muito é o homem cativante, forte e cheio de questões polêmicas”, complementa Paulo.

BERNARDES

Direção: Paulo de Barros e Gustavo Gama Rodrigues.

Gênero: Documentário. (Brasil/ 2014, 91 minutos). Classificação: Livre. 

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