Aos 68 anos, Diane Keaton está grandiosa como sempre

Em turnê de lançamento de seu livro 'Let's Say It Wasn't Pretty', Diane Keaton fala de seu nariz, chapéus, e, claro, Woody Allen

Entrevista com

Diane Keaton

Bob Minzesheimer - USA Today, USA Today

04 Junho 2014 | 10h10

NOVA YORK - Aos 68 anos de idade, ela tem o que alguns consideram rugas e pés de galinha próprios da idade, mas, quando diz que "nunca ninguém mexeu no meu rosto", não está se vangloriando.

Segundo Diane, é "complicado" e por isso escreveu Let´s Say It Wasn´t Pretty (publicado nos EUA pela Editora Random House). É uma coleção de 13 ensaios curtos sobre envelhecimento, beleza, os homens na sua vida, as duas filhas adotadas (com 18 e 13 anos) e por que jamais se casou e nunca o fará.

Neste início de turnê para divulgar o livro, ela compareceu à entrevista vestida no estilo Keaton da cabeça aos pés: chapéu marrom à moda Annie Hall, como ela mesma diz, "um lenço estilo Cary Grant" sob uma blusa branca, um largo cinto preto, calças justas pretas e sapatos pretos masculinos com pontinhos cor de prata.

Suas respostas são pontuadas por uma risada e repletas de digressões.

Em seu livro, Diante Keaton esforça-se para explicar porque quatro décadas depois dos seus primeiros papéis de sucesso em O Poderoso Chefão (1972) e Annie Hall (1977) ela evita o que chamou de “intervenções cirúrgicas”. Nada de Botox. Nada de Restylane.

Bebericando uma xícara de chá verde num hotel no centro de Manhattan, Diane diz que admira mulheres como Phyllis Diller e Joan Rivers, "as primeiras que falaram abertamente das suas múltiplas cirurgias plásticas. É preciso ter coragem para admitir suas imperfeições". Ela aprecia "mulheres que usam suas deficiências e as exploram de uma modo interessante". E admira Barbra Streisand e seu "nariz intocado, um nariz belíssimo".

"Cada um faz sua escolha pessoal", diz. "Às vezes, penso como seria hoje se tivesse feito uma plástica. Talvez devia ter começado quando tinha 40 anos... Mas depois me pergunto, 'e isso importa?'".

Na entrevista Diane falou sobre o seu livro, o nariz de Al Pacino, os pés de Woody Allen e a vida como mãe solteira.

Você pode explicar o título do seu livro? 

É uma frase que usei em muitos aspectos da minha vida. Não foram bonitos. Começou quando tinha em torno de 10 anos e me olhei no espelho e não me achei bonita (risos). Foi a primeira vez que reconheci que não era bonita. O principal defeito, percebi, era meu nariz. Não diria que era um nariz como o do W.C. Fields. Não tão protuberante, mas era grande. E meu corpo parecia mais volumoso do que achava. Essa se tornou a maneira de ver que eu era e o que eu queria e me fiquei desapontada.

Acho que este é um dilema que muitas mulheres enfrentam. Não acho que muitos homens têm essa reação com relação ao seu rosto ou seu corpo. Mas à medida que fiquei mais velha, comecei a ver com clareza a diferença entre ser atraente e ser bela.

E qual é?

Ser atraente é uma situação que tem a ver com você. Pessoas que eram atraentes eram superficiais. Beleza requer mais profundidade. Como no livro, eu menciono Natalie Wood que tinha aquele ar de tristeza, havia alguma coisa mais.

De quem foi a ideia da capa do livro, em que você se esconde por trás de um chapéu?

Foi minha. Achei que seria difícil vender aquela foto. Mas ela diz "o quanto você consegue esconder". Ela chama atenção.

Mas você não está se escondendo na contracapa.

E gosto dela. É como eu sou. E pareço feliz.

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Qualquer coisa que você deseja de fato fazer é autêntico.
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No livro você faz, mas não responde exatamente, esta pergunta: "é autêntico da minha parte procurar chamar atenção usando roupas excêntricas, sempre com chapéus?".

Bem, o que é ser autêntico? Acho que todos tem suas preferências. Qualquer coisa que você deseja de fato fazer é autêntico.

E quantos chapéus você possui? 

O que estou usando na capa já tem 20 anos, portanto não é que eles mudem muito. Mas sou interessada numa variedade de chapéus - o chapéu coco, bonés de beisebol. Devo der talvez um 50.

E sapatos, o que você aconselha guardar? 

Acho que é bom guardar, mas não quer dizer que tenho uma prateleira de sapatos. Não. Mas porque não guardá-los? A moda sempre volta. Foi o que ocorreu com as plataformas. Provavelmente tenho mais sapatos do que chapéus. Acho que uns 55 pares.

No seu livro você também escreve sobre orelhas "como as de Spock". Verdade? 

Elas são grandes, mas não como as do Bing Crosby. E eu não as operei, ainda.

Quanto ao seu cabelo, você cita um ex-namorado, Warren Beatty, que afirmava que cabelo é "60% do visual". Você concorda? 

Sabe que ele trabalhou no filme Xampu? Depende do quão obcecado você é com seu cabelo. No meu caso, penso muito no meu cabelo, que é muito fino.

Você fala, em seu livro, da sua vida morando perto de um despenhadeiro na frente do oceano em Los Angeles, apesar do conselho do seu pai, "não compre nada próximo de uma área sujeita a deslizamento. Não viva numa casa na colina. Não se case com um vagabundo".

Não vivo num penhasco. Estou uma quadra distante. Mas não nunca prestei atenção aos conselhos do meu pai...

Você escreve sobre suas amizades e romances com diversas celebridades do cinema, incluindo Woody Allen, que não gostava de andar descalço mesmo caminhando pela praia, o que você achava hilário. Como assim? 

Cresci no Sul da Califórnia e vivíamos sempre ao ar livre, com os pés na areia. Éramos gente da terra. Mas nunca conheci alguém como Woody. Ele nunca gostou de pôr os pés na areia. Eu gostava de fazer pilhéria por causa disto, mas ele conseguia fazer muito mais pilhérias a meu respeito. O que tornava a vida com ele muito divertida. Falei no livro quando ele me disse "você é bonita mesmo usando chapéu de apicultor". 

O que você diz para as pessoas que não sabem se acreditam em Woody ou em sua filha adotada, Dylan Farrow, que o acusou de abuso infantil? 

Sou sua amiga, portanto acredito em Woody.

Você também refere a Al Pacino no seu livro...

Vamos falar do seu nariz. O mais bonito que já vi. Incomparável. 

O que você quis dizer quando escreveu "o atrativo de Al" ou "perder um homem que nunca tive"?

(Risos) Como você perde alguma coisa que nunca teve? Provavelmente existem inúmeras maneiras pelas quais você poderia tentar seduzi-lo a se tornar alguma coisa que mentalmente deseja. Ou seja, que ele se envolvesse comigo. O que provavelmente não vai jamais acontecer. Muitas pessoas disseram isso na ocasião, mas não as ouvi. Isso mostra minha obstinação, como o meu Gammy Hall.

Você também diz em seu livro que jamais se casará. Tem certeza? 

Casar aos 68 anos de idade? Não apostaria nisso. E pela primeira vez? É preciso muito para você casar-se com alguém e quando tem 68 anos sabe muito bem quais são as suas limitações. Eu pensaria mais em ser companheira de alguém. Talvez um cachorro.

Você tornou-se mãe solteira aos 50. Como as coisas estão agora aos 68? 

(Risos). Acho que amadurecer mentalmente é um processo lento. Penso nas decisões que tomei e o quão imatura fui. As coisas ficam mais complexas à medida que o tempo passa. Mas você muda e quanto mais aceita a mudança melhor. Observo estas mudanças nas minhas filhas. É divertido, mas seria bom se elas tivessem um pai.

Elas fazem perguntas sobre isto? 

Não. Elas não são curiosas o bastante, ou têm curiosidade, mas temem enfrentar esta questão da adoção. Não é fácil ou agradável. Acho que uma presença masculina seria bom. Mas como ser mulher solteira é não ter privilégios, você precisa trabalhar e levar a vida. Oh Deus, eu penso, o que passa pela cabeça delas? 

Seu próximo filme, And So It Goes a ser lançado em 11 de julho é o seu primeiro filme com Michael Douglas. Como foi o trabalho?

Ele é um profissional, mas também um mistério. Não o conheço bem, mas ele não se importa de ser provocado. O que foi bom para mim porque contraceno com um homem num filme romântico, gosto de me soltar um pouco.

Planos para se aposentar?

Nunca. Por quê? Não sei o que isso significa. Algumas pessoas dizem que estão aposentadas e que elas terão tempo para fazer coisas que gostam. Sempre tive o privilégio de me dedicar aos meus hobbies como se fosse um trabalho. E são. Aposentadoria. Isto soa como se você fosse entrar passivamente no ocaso e desaparecer. "Quanto mais cedo melhor" por causa do que está fazendo? Nada! Embora, para algumas pessoas, talvez sentar e relaxar seja mais uma aventura. Então, o que sei eu? 

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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