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Ao falar de amor, 'Coração de Leão' faz aposta na tolerância

Luiz Zanin - O Estado de S.Paulo

18 Junho 2014 | 02h 00

Para a sua série do Hobbit, o diretor Peter Jackson resolveu comprimir atores de estatura normal - e até elevada - para fazer deles os anões da trama, convencido de que só assim conseguiria expressar o ego gigantesco dos personagens. O argentino Marcos Carnevale segue a lição de Jackson. Em Coração de Leão, ele conta a história de uma advogada que se envolve com um anão. Não é fácil enfrentar o preconceito dos outros, mas como Ivana, Julieta Diaz, descobre que, primeiro, ela precisa vencer o próprio preconceito, quem sabe o medo de ser julgada e ridicularizada pelos outros, especialmente o ex-marido. No Brasil, Coração de Leão - o personagem chama-se León - ganhou um subtítulo, O Amor Não Tem Tamanho, totalmente desnecessário, porque se o espectador não deduzir isso na história, então o filme não terá valor nenhum. E tem.

Quando fez a sua releitura de Branca de Neve, Blancanieves, o espanhol Pablo Berger não abriu mão de ter anões de verdade e, em São Paulo, até comentou com o repórter que os atores de seu filme são performers sexuais, que se apresentam em shows e despedidas de solteiro, aproveitando o mito de que possuem genitálias avantajadas. Carnevale escolheu um ator de estatura normal e o comprimiu na pós-produção, como Peter Jackson fez em O Hobbit. Isso talvez explique o à vontade de León quando se apresenta para o primeiro encontro com Ivana. Ele encontra o celular que ela, num momento de raiva, jogou fora. Ivana está tensa. A vida profissional, compartilhada com o ex, não anda bem, ela não faz sexo. A voz do sujeito ao telefone a atrai. Ela se prepara para o encontro e chega León.

Ela está sentada e, do jeito que Carnevale filma, ele, de pé, fica da mesma altura que ela. Na cena de sexo, Ivana, ao se olhar no espelho, tem a impressão de estar com uma criança. León lhe diz - “Foque em mim.” O que mais chama a atenção nessas cenas é a autoconfiança de León e a forma como ele envolve a mulher. Ele tem tudo, bem, quase tudo. Como diz a funcionária, e confidente, Ivana está saindo com um anão rico, e isso faz uma diferença e tanto. Quando ele a convida, de cara, para largar tudo e se entregar à aventura, a proposta é para saltar de paraquedas. Tudo o que o filme quer dizer sobre diferença e preconceito está aí resumido. O que León propõe a Ivana é esse salto sem rede - na vida.

Talvez um anão de verdade, ao fazer o papel, não tivesse a confiança de Guillermo Francella, com seu riso sedutor. Mas o grande desafio enfrentado pelo ator é a cena em que ele precisa representar de verdade. É no diálogo de León com o filho, Toto, e o ator que faz o papel é filho do protagonista, Nicolas Francella. O garoto, percebendo como o amor fragilizou o pai, lembra como ele era forte na escola, quando seus colegas e os pais lançavam sobre ele um olhar diferente. É preciso ser um ator muito bom para colocar em palavras, de forma tão convincente, o que significa ser visto como 'diferente'. Como em Elsa e Fred, seu longa anterior, que pega carona em Federico Fellini, Carnevale, ao falar do sexo na terceira idade ou do amor com uma pessoa diferente, aposta na tolerância. São filmes tão bonitos que só cabe desejar que Coração de Leão repita o sucesso de Elsa e Fred. Não tem nada a ver, mas o conceito do diferente é o mesmo de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. São filmes que dão lições de vida, e - muito importante - de cinema.