Philipp Guelland/ EFE
Philipp Guelland/ EFE

Animação de Wes Anderson abre Festival de Berlim: 'o filme mais político da minha carreira'

'Ilha de Cachorros' está previsto para estrear no Brasil no dia 14 de junho; veja o trailer

Rodrigo Fonseca , O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2018 | 12h56

BERLIM - Ao narrar o cotidiano de um futuro distópico no qual até o mais domesticado cãozinho de estimação precisa ser banido do convívio com a civilização, por ordens do Governo, o texano Wes Anderson conseguiu trazer para a abertura do Festival de Berlim aquilo que melhor caracteriza o evento alemão desde sua gênese, em 1951: debate político. Embora diluída num ritmo febril (mas palavroso, como é típico do diretor) de aventura por um Japão futurista, a discussão sobre a intolerância racial coroa com os espinhos da denúncia a nova animação do realizador de cults como Os Excêntricos Tenenbaums (2001): Ilha de Cachorros (Isle of Dogs), previsto para estrear no Brasil no dia 14 de junho. 

"Eu tenho uma filha pequena (que nasceu em 2016), mas este filme está há mais tempo na minha vida do que ela, tendo consumido horas e horas do meu tempo nos últimos anos na frente de um computador. Tive a ideia de falar sobre a rotina de cães abandonados antes de ela nascer. Como eu tive que inventar toda a estrutura governamental deste nosso Japão animado, ele é, sem dúvida, o filme mais político da minha carreira. Mas ele foi concebido como uma fantasia. Eu só não imaginava que, desde a sua concepção, o mundo mudaria tanto", disse Anderson na coletiva de imprensa para uma lotada Berlinale, tremendo de frio a dois graus de temperatura.

Resultado de uma inusitada mistura da estética animada de Hayao Miyzaki (diretor de A Viagem de Chihiro) com os épicos de samurai de Akira Kurosawa, a narrativa de Isle of Dogs acompanha os esforços do menino Atari para salvar seu mascote, Spot (dublado por Liev Schreiber, astro da série Ray Donovan), de um depósito para cães. O local é uma espécie de lixão a céu aberto, cheio de ratos e vermes. O principal auxílio de Atari será um bando de cães que, um dia, tiveram um passado feliz, interpretados nas vozes de Edward Norton, Jeff Goldblum e Bill Murray. Estes dois últimos vieram a Berlim ao lado da atriz Greta Gerwig (atualmente na peleja pelo Oscar de melhor direção com Lady Bird) e o cultuado ator Bryan Cranston, o Walter White do seriado Breaking Bad. Ela vive uma ativista pró-animais e Cranston encarna um vira-lata bravo, solitário feito os ronins de Toshiro Mifune, que acaba virando o herói do filme de Wes. 

"Comecei a estudar a animação japonesa, sobretudo o trabalho de Miyazaki quando fui fazer O Fantástico Senhor Raposo, há quase dez anos, e aprendi a valorizar o uso de maquetes, moldes e bonecos em vez de usar recursos digitais. Quase não existe CGI (Computer Generated Imagery, um recurso de reprodução virtual de cenários e gestos) neste filme. Quando entra a computação gráfica, ela está mesclada com técnicas mais artesanais. Isso é algo fundamental quando se trabalha com o stop motion (técnica na qual objetos são animados quadro a quadro, dando um efeito de movimento), que é um processo mais tradicional", diz o cineasta de 48 anos.  

Classificado com elogios sui generis como "fofo" e "delicioso" em papos de corredor do Berlinale Palast, o centro de exibições do evento, Ilha de Cachorros entrou no festival em disputa pelo Urso de Ouro, encarando um rol de competidores de alto quilate. Há 19 filmes na disputa. Concorrem com ele produções como o suspense Eva, do francês Benôit Jacquot; o drama Don't Worry, He Won't Get Far On Foot, do americano Gus Van Sant (com Joaquin Phoenix numa cadeira de rodas); o musical de quatro horas de duração Season of The Devil, do filipino Lav Diaz (um ímã vivo de prêmios); e Transit, de Christian Petzold, considerado o maior cineasta da indústria audiovisual germânica na atualidade. Tem ainda outros 14 concorrentes, dos quais quatro são dirigidos por mulheres: delas, a italiana Laura Bispuri é quem chega com a maior campanha publicitária em torno do melodrama Figlia Mia, estrelado por Valeria Golino (de Rain Man). O júri deste ano é presidido pelo cineasta alemão Tom Tykwer (de Corra, Lola, Corra). Os ganhadores serão conhecidos no próximo dia 25.

Nesta sexta-feira, 16, começa a participação de cineastas nacionais na Berlinale com a projeção do documentário Aeroporto Central, do cearense Karim Aïnouz na seção Panorama: o longa faz uma triagem sobre refugiados na Alemanha. Na mostra oficial, a sexta amanhece com o drama sulamericano Las Herederas, do paraguaio Marcelo Martinessi, coproduzido pela cineasta carioca Julia Murat (de Pendular). 

 

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