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Análise: 'White God' faz releitura em tom menos pessimista que a versão de Fuller

Longa não se trata de um filme de cãezinhos amáveis

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Luiz Zanin Oricchio,
O Estado de S.Paulo

02 Março 2016 | 03h00

O espectador não se iluda. Não se trata de um filme de cãezinhos amáveis, embora haja muitos cachorros em White God. Um deles, em particular, chamado de Hagen, um vira-latas grandalhão adotado pela menina Lili (Zsófia Psotta) e que se revela um amor de animal, até se transformar numa besta descontrolada e mortífera. O filme é do húngaro Kornel Mundruczó, que ambienta sua história numa distópica Europa contemporânea.

As metáforas do cineasta podem parecer até meio abusivas, mas fazem sentido. Uma delas, em particular. Quando Lili, filha de pais separados, vai morar com o pai, tenta levar Hagen consigo. O animal não é bem-aceito. O pai, que trabalha como técnico de controle de qualidade em um matadouro, não se assemelha por certo a um modelo de tolerância. Ele não vai com a cara do cachorro. E, depois, na projeção imaginária que Mundruczó faz do seu país (e da Europa em geral), os cães de raça impura custam uma pesada taxa aos seus donos. Pouco é dito sobre isso. Mas ficamos com a mensagem nem tão subliminar assim: outras etnias não são bem-vindas. Só trazem problemas. Assim com os homens, assim com os cães. 

Há, então, algo de óbvio, de fato, em White God. O cão bondoso, que se transforma em máquina mortífera depois de treinado para ser um animal de combate, ilustra aquela máxima tão famosa quanto reducionista: “Ele era bom, a sociedade o corrompeu”. 

De qualquer forma, o filme cresce na maneira como é filmado. Abre com a garota Lili (quando ainda não a conhecemos e nem sabemos o papel que terá na história) andando de bicicleta por uma cidade estranhamente deserta. O que teria acontecido com todos? De repente, vemos a tela invadida por uma matilha incontrolável. São centenas de cachorros correndo pela rua, e não parecem ter a melhor das intenções. A história, em flashback, começa aí. As imagens são bonitas. E aterradoras. 

Mundruczó dedica o filme a Samuel Fuller. A ligação é imediata. Fuller filmou White Dog (Cão Branco), em 1982, baseado num romance autobiográfico de Romain Gary. O escritor e diplomata francês vivia nos Estados Unidos, casado com a atriz Jean Seberg.

Durante uma tempestade, Gary abriga um cão pastor alemão em sua casa e acaba por adotá-lo. O animal logo se torna familiar e querido de todos. Mas diante de qualquer pessoa negra transforma-se em fera e ataca. Gary logo compreende que fora treinado para isso. Estamos no fim dos anos 1960, época de grande intolerância racial e de conflitos pelos direitos civis. O escritor leva o cachorro a um treinador, para ser descondicionado. Recuperar aquele cão, para ele, adquire valor simbólico de redimir a humanidade do racismo. É um combate duro de ser travado, pois tanto quanto os condicionamentos em um animal, os preconceitos e o ódio racial plantam raízes fundas na alma. 

Fuller, à sua maneira, fez uma leitura muito pessimista do romance de Gary (que também não é um exemplo de otimismo). Mundruczó vai por outro caminho. Se também não alivia durante quase todo o decorrer da história, depois propõe algo como uma saída, um raio de sol. A redenção pela arte. A beleza que salva e pode transformar o nosso mundo. 

 

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