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Análise: 'Terra Selvagem' externa encontro da redenção num clima de gelo, tédio e violência

Longa não escapa de alguns clichês

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2017 | 06h03

Roteirista bom ele já era - escreveu Sicário e A Qualquer Custo, dois filmes de scripts muito bem estruturados. Agora, Taylor Sheridan revela-se também diretor de mão firme.

Em seu longa de estreia, Terra Selvagem, Sheridan põe em cena um caçador de coiotes (e outros predadores), Cory (Jeremy Renner), que um dia descobre o corpo de uma garota morta no deserto de gelo de Wyoming. Traumatizado pela morte de sua própria filha adolescente, em circunstâncias parecidas, Cory se dispõe a ajudar uma agente do FBI, a novata Jane (Elizabeth Olsen), a encontrar o culpado. Ou os culpados, pois o crime de estupro e morte pode ter sido coletivo.

Sheridan propõe uma estética árida para esse trabalho. Despojada ao extremo. As pessoas só falam o estritamente necessário e a dureza na vida do local se descreve mais pela natureza hostil das montanhas geladas que pelas palavras. Há pouco espaço para demonstrações de afetos e outras emoções baratas. A dramaturgia é calibrada pelas exigências da contenção e da interioridade.

Em meio à trama, e algumas questões imbricadas ao assassinato, insinuam-se outros temas. O principal deles, o relacionamento dos brancos com os indígenas, que parece não ter evoluído desde o tempo dos grandes extermínios. Sem ser, de maneira explícita, uma obra sobre a discriminação racial, Terra Selvagem mostra o que acontece quando os instintos primitivos são postos à solta e os supostos donos do mundo transformam outras pessoas em objetos de uso. Em especial quando essas pessoas fazem parte de minorias consideradas como subalternas. Esse aspecto de notação social não escapa ao olhar atento de Sheridan.

+++ 'Terra Selvagem' marca estreia de Taylor Sheridan na direção

Terra Selvagem não escapa de todo a alguns clichês. O maior deles, o relacionamento entre o caçador experiente e a policial estreante que precisa mostrar seu valor. É, no entanto, conforme a própria proposta do filme, uma relação baseada em reticências, em frases não ditas, subentendidos e alusões. Não porque os atores encarnem personagens lacunares, mas porque se supõe que as pessoas sejam assim mesmo naquelas paragens e, muito mais ainda, em circunstâncias que envolvem crimes brutais, suspeitas e culpados que tentam escapar.

Opção, portanto, justificada pelo naturalismo, mas numa chave em tom variável, em que as relações se estabelecem de maneira fria como o clima ambiente, ou de modo brutal como quando os instintos se soltam por força do álcool, do tédio e da solidão.

Desse modo, Terra Selvagem vai muito além do rotineiro. É um estudo sobre homens duros e sua transformação em brutos pela força do ambiente, condições de trabalho e uma mentalidade racista, sexista e predatória. Como são empregados de uma indústria extrativista, e vivem em isolamento por causa do clima, armam-se até os dentes para, supõe-se, autodefesa. O filme é, entre tantas coisas, também um comentário lateral sobre o culto às armas e sua difusão indiscriminada nos Estados Unidos. Mas também trata da capacidade de redenção e da possibilidade da solidariedade, mesmo entre almas duras e em regiões semisselvagens. Numa nação dividida, como são os EUA, ouvir o outro, e descobrir que tem coisas a dizer, não é pouca coisa. Por exemplo, a sabedoria dos antigos habitantes do continente é reconhecida, e isso sem qualquer pieguice.

Calibrado no tom dos antigos faroestes, e também na dureza pop de Fargo, dos irmãos Coen, Terra Selvagem é uma boa surpresa. E tem Jeremy Renner (de Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow) em seu trabalho mais complexo e nuançado.

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