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Cultura

Oscar

Análise: 'O Quarto de Jack' é contado do ângulo da criança

No universo claustrofóbico, o filme abre-se com uma comemoração

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2016 | 05h49

Havia na seleção da Mostra de Tiradentes, em janeiro - na seção Foco -, um filme chamado Urutau. É o primo/irmão de O Quarto de Jack, que estreia na quinta, 18, nos cinemas brasileiros. O Quarto concorre nas categorias principais do Oscar - melhor filme, diretor, atriz (Brie Larson) etc -, portanto, deve ser melhor, pensará o espectador. Desde sua apresentação no Festival de Toronto, no ano passado, o longa do irlandês Lenny Abrahamson - do bizarro Frank, com Michael Fassbender - virou favorito da crítica de todas as latitudes. É bom, mas não tanto. O brasileiro de Bernardo Cancella Nabuco é melhor e mais forte, mas isso o público descobrirá quando? O filme situa-se na contracorrente das comédias que dominam o mercado. O próprio O Quarto de Jack, sem a chancela do Oscar, seria considerado triste demais - veneno de bilheteria.

O Quarto inspira-se numa história real, convertida em livro por Emma Donoghue, que assina o roteiro. Uma mulher foi mantida em cativeiro pelo próprio pai, com quem teve cinco filhos. Na ficção, o filho virou só um, Jack. E é do ângulo dele que a história é contada. Digamos que há algo de perverso na decisão da Academia de dar tamanha visibilidade ao trabalho de Abrahamson, mas não selecionar o garoto para concorrer aos prêmios. Jack não é apenas o motor do relato, o olhar que filtra tudo. Jacob Tremblay, que faz o papel, forneceu o diapasão para a atriz Brie Larson, como ela tem admitido em sucessivas entrevistas.

No universo claustrofóbico de O Quarto, o filme abre-se com uma comemoração. É o quinto aniversário de Jack e ele repete que ontem, ao dormir, tinha 4 anos e hoje tudo mudou. Jack só conhece do mundo externo o rasgo de céu que vê pela claraboia. E ainda é confinado dentro do armário sempre que o pai, o sequestrador, faz sexo com sua mãe. Parecem conformes com suas vidas, mas algo ocorre. Jack, o homenzinho, será o arrimo da reestruturação dramática da mãe. No filme brasileiro, o prisioneiro é um garoto que sofre abuso do sequestrador. Sem que as cenas sejam explícitas, o diretor submete o olhar do espectador à brutalidade do sexo forçado. Cria e subverte uma relação de poder e submissão.

O que tanto se elogia em O Quarto de Jack talvez seja, no limite, o que enfraquece o filme. Abrahamson optou por fazer um filme palatável. Filma com delicadeza, os atores são ótimos. É como se ele estivesse convencido de que a história já é tão chocante que o olhar do público deve ser poupado. Apesar de todas as diferenças, O Filho de Saul, do húngaro Laszlo Nemes, que concorre ao Oscar de filme estrangeiro, estrutura-se sobre um princípio parecido - o que e como mostrar? Nemes radicaliza, ali onde Abrahamson contemporiza.

Seu filme é sobre um garoto fragilzinho, mas tão forte que vai dar um novo rumo a essa história e à própria vida. Como se costuma dizer, Jack vai transformar o limão em limonada. Abrahamson e Donoghue tocam de leve numa questão visceral - a chamada ‘síndrome de Estocolmo’ -, que ocupa o centro das preocupações do filme brasileiro. A visão hollywoodiana é um tanto idealizada. ‘Libera’ o espectador. O brasileiro é mais sombrio. Não é só uma questão de gosto. O Quarto de Jack pode ter seus méritos, mas Urutau é outra coisa. Um óvni no cinema brasileiro. Estranho, misterioso, desconfortável. O que O Quarto de Jack, se não estivesse preocupado em ser ‘positivo’, também poderia ser.

 

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