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Análise: Novo filme de Michael Sturminger é um ‘Casanova’ artificial porém interessante

John Malkovich interpreta o sedutor veneziano em uma casa de ópera, o Teatro São Carlos, em Lisboa

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

14 Abril 2017 | 03h00

A figura de Giacomo Casanova (1725-1798) é alvo permanente de interesse no cinema. Para ficar apenas em dois casos notáveis: Casanova de Fellini (1976) e Casanova e a Revolução (La Nuit de Varennes, 1982), de Ettore Scola. No primeiro, o aventureiro veneziano é interpretado por Donald Sutherland; no segundo, por Marcello Mastroianni. Os dois filmes – tão diferentes entre si – encontram-se no foco comum sobre o processo de decadência do sedutor. 

Também seria este o caso de Variações de Casanova, de Michael Sturminger, com John Malkovich no papel principal. De acordo com o título, Sturminger deseja evitar a mesmice. Quer variar. Há aí a alusão ao sedutor compulsivo, para quem a busca incessante de experiências amorosas significaria eterna variação em torno do mesmo. O que conquista o conquistador?, seria a pergunta. 

Condenado pela Inquisição, Casanova fugiu de maneira espetacular da prisão I Piombi, em Veneza. Peregrinou pela Europa e terminou seus dias na Corte da Saxônia, onde escreveu, em francês, os vários volumes de sua História de Minha Vida. É em torno dessa autobiografia que o filme de Sturminger se constrói. O Casanova envelhecido de Malkovich dá seus retoques finais no texto enquanto se preocupa pelo destino do livro após sua morte. Quem também se interessa pelo escrito é uma antiga namorada, Eliza von der Recke (a bela Veronica Ferres). 

Em torno dessa espinha dorsal, constrói-se toda uma série de comentários paralelos, à maneira metalinguística. As cenas conversam entre si e se passam nos bastidores do Teatro São Carlos, em Lisboa, onde estão sendo encenadas óperas de Mozart como As Bodas de Fígaro e, claro, Don Giovanni. As falas e reflexões de Casanova e Eliza desdobram-se em árias interpretadas por cantores como o barítono Florian Boesch e a soprano Miah Persson. 

O ilusionismo é desfeito e nos coloca em plano distanciado, no qual sabemos que se trata não de realidade, mas da interpretação de Casanova por um ator cult como Malkovich e encenada numa sala de espetáculos europeia. Engenhoso, o dispositivo ilumina ressonâncias da figura de Casanova sobre a cultura ocidental. Mas cobra seu preço em artificialismo. 

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