REUTERS/Jean-Paul Pelissier
REUTERS/Jean-Paul Pelissier

Análise: Novo filme de Claire Denis tem sequência agradável de surpresas

Em 'Deixe a Luz do Sol Entrar', Juliette Binoche vive uma história de amor e solidão contada em forma de mosaico

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

01 Abril 2018 | 06h00

Vamos partir de uma sinopse básica: mulher divorciada, meia-idade, tenta ainda avivar sua vida afetiva. Busca o amor. Mas não um amor qualquer. Busca “o” amor. O definitivo, aquele que resumiria todos os anteriores e os colocaria numa espécie de síntese, num patamar superior. Ainda por cima, há o título, que faz esperar pelo pior: Deixe a Luz do Sol Entrar, versão passável do original Un Beau Soleil Intérieur. Soa um melô daqueles, não? 

Acontece que quando a diretora se chama Claire Denis e a atriz principal Juliette Binoche é melhor olhar o filme com atenção. Porque tudo muda de figura. O que seria previsível se torna uma sequência agradável de surpresas. O que seria apenas um drama existencial menor, vira um mosaico de emoções humanas. E, para terminar, há um epílogo, que vira tudo de cabeça para baixo. 

Em resumo, Deixe a Luz do Sol Entrar é uma espécie de refresco para espíritos sensíveis, cansados que estamos todos da torpe brutalidade do cotidiano. É como um refresco de menta no fim de um dia difícil. 

Binoche interpreta Isabelle, artista que se sente só e busca companhia. Não esperem dela a estabilidade que é um clichê da maturidade. Isabelle é como uma adolescente em sua desesperada busca pelo afeto e pelo sexo, que nada mais são que variantes do reconhecimento a que todos aspiram e é nossa maior fraqueza. Mas também marca registrada da nossa humanidade, pois nos diz o tempo todo que precisamos uns dos outros e não somos autossuficientes. 

A estrutura em mosaico ou, se quiser, a estrutura lábil, na ausência de um relato convencional, tem desorientado alguns críticos. Acontece que o desejo humano se expressa não apenas por elipses, mas por estilhaços, soltos, parecendo caóticos e arbitrários, mas obedecendo a alguma lógica oculta. Barthes falou sobre isso em um dos seus livros mais conhecidos, Fragmentos de um Discurso Amoroso. De como o amor se articula num discurso em pedaços, que contamina a literatura e, por consequência, o nosso imaginário. 

É aquilo que também Proust chamava de “as intermitências do coração”, uma das partes mais bonitas de Em Busca do Tempo Perdido, sua catedral sobre a memória em sete volumes. Somos joguetes desse órgão que passou a simbolizar os sentimentos humanos. Isabelle é essa pessoa à deriva em meio a sentimentos que não controla. 

Por fim, esse “discurso amoroso”, já por sua natureza não linear, ganha ainda um contorno original nas mãos de Claire Denis. Isabelle busca parceiros de várias idades e condições sociais. Nada disso parece promíscuo. É, antes, uma vontade de acertar que, não raro, termina em erro, quando não em catástrofe. 

A diretora deixa que esse fio de existência siga acasos e atalhos da vida, sem que a lógica de um roteiro fechado a priori o torne artificial. Pelo contrário, temos, o tempo todo, a sensação de “vida vivida” e não de uma trajetória construída para ilustrar uma tese aceita de antemão. É apenas a vida e o afeto com seus ritmos próprios. 

Mas a luz do filme é mesmo a que vem de Juliette Binoche. Essa atriz privilegiada empresta a cada passo, a cada relacionamento frustrado, uma coloração afetiva toda própria. É um instrumento afinado, de que Claire Denis se serve com maestria. 

Mais conteúdo sobre:
Juliette Binoche cinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.