Vitrine Filmes
Vitrine Filmes

Análise: 'Martírio' é um painel dantesco, feito de indignação e lucidez política

Filme não se limita a relatar esse cruel estado de coisas

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

13 Abril 2017 | 04h00

De Martírio, de Vincent Carelli, se podem dizer muitas coisas. Entre elas a de que o diretor toma partido franco de seus personagens e faz de sua obra uma vigorosa denúncia do genocídio indígena no Brasil. Carelli, que há muito se ocupa da causa indígena, não esconde suas simpatias e tampouco sua dor. Quando se apresentou como concorrente no Festival de Brasília do ano passado, disse sem rodeios que havia chorado ao visitar de novo os índios e ver em que estado se encontravam, depois de tantos anos de lutas.

 

Enfim, o documentário, forte e emocionante, expõe um painel desolador ao longo das suas 2h40 de duração. Não haveria para esse afresco título mais adequado que este - Martírio, um testemunho do longo genocídio a que vêm sendo submetidos os povos originários do País.

O caso é que o filme não se limita a relatar esse cruel estado de coisas, e é aí que começa a sua diferença em relação ao outros que se ocupam da mesma temática. Carelli de fato mostra a saga trágica dos guaranis-caiovás, mesclando cenas com os índios tomadas ao longo dos anos e outras de arquivo. Recria, assim, uma cronologia de extermínio que vem dos tempos da Guerra do Paraguai, passando pelas políticas humanitárias-integracionistas de Rondon, e avança pelo Estado Novo, os governos militares e os 13 anos do PT no poder. Não fica, no entanto, por aí. Nesse aceno ao contexto, e portanto à História, mostra como a situações dos indígenas precisa ser entendida em outro contexto que não o das matas profundas e aldeias. Na verdade, o destino desses povos é decidido em outros ambientes, a saber nos escritórios das poderosas empresas do agronegócio e nos corredores do poder em Brasília. 

Se as imagens dos indígenas estão entre as mais pungentes, as cenas das discussões da questão no Parlamento brasileiro encontram-se entre as mais esclarecedoras - e beiram o ridículo. Carelli recupera cenas históricas, como as de Ailton Kranak pintando o rosto enquanto discursa durante a Constituinte. E contrapõe a essas imagens emocionantes sequências brutais, como as da senadora Kátia Abreu dizendo com todo orgulho que já haviam conseguido se livrar do MST, depois do Código Florestal, e faltava agora apenas remover a questão indígena do caminho dos ruralistas.

 

Outros parlamentares se expõem sem qualquer pudor, conforme reza a ética política do nosso tempo, como aquele que diz que as demarcações ocorreriam só se passassem por cima do seu cadáver. Outro ainda que afirma que a sala do chefe de Gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, era um antro, “frequentado por índios, negros, homossexuais, lésbicas, só família ali não entrava”. 

De modo anedótico, o filme põe a nu a qualidade da estrutura de poder no Brasil e, nesse aspecto particular, sua relação com a questão indígena. Tem valor didático, como o da famosa sessão de abertura do impeachment de Dilma, com parlamentares dedicando seus votos à família, aos filhos e a torturadores mortos.

O horror da política, associado a interesses econômicos obscuros, pinta o retrato da trágica questão indígena brasileira. Com seu painel dantesco, fruto da compaixão, mas também da indignação política, Carelli compôs um clássico imediato do documentário brasileiro. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.