REUTERS|Regis Duvignau
REUTERS|Regis Duvignau

Análise: Jerry Lewis foi o último dos moicanos da mais legítima diversão

Supremo conhecedor das astúcias do palco, ele mostrou no musical 'Damn Yankees' todo o seu talento de showman

Zuza Homem de Melo, ESPECIAL PARA O ESTADO

21 Agosto 2017 | 21h09

Mesmo sem fazer o papel central do musical Damn Yankees, o primeiro musical em torno do jogo de beisebol, o comediante mais ovacionado do cinema, Jerry Lewis, era de longe a maior atração do espetáculo da Broadway.

Sua entrada em cena era aguardada como o momento mais esperado por quem estava na plateia do Marquis Theater, em 1995. Chegava como um tufão, abafando por completo os demais atores do elenco que, aliás, pareciam também aguardar por aquele momento, não se furtando ao orgulho e felicidade de dividir a cena com um supremo conhecedor das astúcias do palco, o ambiente onde o ator não engana ninguém. É onde o disfarce ou algum recurso não tem chance sem que o público perceba.

Desde o primeiro momento, representando o personagem Mr. Applegate, uma encarnação do demônio que prometia o rejuvenescimento, Jerry Lewis tomava conta do musical. De cara, caminhava a passos mais que largos no meio das nuvens de fumaça teatral, atingia o centro do palco para sua primeira fala da entrada triunfal. Em certo momento, atirava com vontade a baliza que tinha nas mãos a uma altura descomunal deixando a plateia com o coração na boca. De lá de cima ela despencava em alta velocidade, aumentando o suspense de qualquer um. Até dos atores em cena. Com elegância sem par, Jerry recebia a baliza como uma pluma e a naturalidade de quem apanha um copo d’água na bandeja. Realizava a proeza como um mágico de circo, era do ramo. Do ramo do show biz do qual a Broadway reúne os mais sagrados templos do planeta.

Aos 70 anos, Jerry era o mais experiente protagonista da comédia cinematográfica que, tendo começado em teatro amador, abraçou com ânimo e criatividade a carreira por clubes noturnos até chegar a Hollywood como atração suprema e depois diretor. Atuava na TV e em shows de Las Vegas ou em qualquer outro tipo de performance que faz de um ator um comediante sem par. Certamente, o único showman que podia dividir o palco com Sammy Davis Jr. em igualdade de condições como aconteceu no Bally’s Casino, em 1988. Deitando e rolando no seu domínio predileto, o palco era dos dois e de ninguém mais.

Nesse musical, Jerry Lewis mostrou por que tinha de ser tudo que já tinha sido. Estava em sua casa. Nada daquela doideira do cinema, nada daquela voz de aloprado, nada do bufão mais querido de Hollywood, nada do parceiro de Dean Martin até o rompimento, em 1956. No musical, ele fazia o mesmo personagem da montagem original de Damn Yankees de 1955 como um Applegate fiel à atuação de ator em musical. Seguia com segurança absoluta as falas, em que não se furtava a alguns cacos, dançava com leveza e elegância, cantava com sua voz original, destacando-se no segundo ato com a canção Those Were the Good Old Days. Sem ser o comandante, Jerry Lewis era o dono do terreno que dominava com a mais completa naturalidade, o palco.

À saída do teatro, alegre e leve como quem caminhasse sobre flocos de nuvens, entendi que eu merecia uma taça de champanhe comemorativa. Ao primeiro gole, comemorei o privilégio de ter visto em cena o último dos moicanos do mais legítimo entertainment. Foi mesmo assim, a noite de Jerry Lewis.

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