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Análise: Estranheza de Tim Burton é uma visão de mundo

O diretor próprio admite que foi um garoto para lá de esquisito, cujo gosto na infância foi formado em especial pela leitura de gibis e por filmes B de terror, vistos na TV ou em sessões matinais

Luiz Zanin Oricchio

"Era uma vez... um menino solitário que era ignorado pelas pessoas à sua volta. Em vez de amigos normais, ele cresceu gostando de monstros e cachorros… Com esse pequeno parágrafo, o crítico Paul A. Woods dá início ao seu “almanaque” O Estranho Mundo de Tim Burton (editora Leya), livro que disseca sua obra em termos cronológicos, incluindo textos informativos, fotos, ensaios críticos e entrevistas com o diretor.

Cabe notar que o livro usa em seu título a palavra “estranho”. E, de fato, como se poderia falar de Tim Burton sem usá-la? Ele próprio admite que foi um garoto para lá de esquisito, cujo gosto na infância, vivida em um subúrbio de Hollywood, foi formado em especial pela leitura de gibis e por filmes B de terror, vistos na TV ou em sessões matinais. 

Exposição 'O Mundo de Tim Burton'
Steve Forrest/The New York Times
Exposição O Mundo de Tim Burton

Cineasta Tim Burton é homenageado em exposição O Mundo de Tim Burton, no MIS, em São Paulo

Era garoto solitário. “Quando você não tem muitos amigos e nenhuma vida social, você se distancia da sociedade”, diz Burton numa dessas entrevistas. E se refugia no tipo de produção que atice sua imaginação, muito fértil no caso de Burton.

E, bem, se o adolescente retraído se comprazia com filmes e ideias meio fora do esquadro, que melhor rumo na vida do que fazer carreira com as próprias esquisitices? O melhor dos mundos surge quando podemos ganhar dinheiro com nossas obsessões. Eis aí, digamos, a célula mater da carreira cinematográfica desse talento de um gênero, o do “estranho”.

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Não por acaso insisto nessa palavra. Não apenas porque ela define a estética de Burton, mas porque tem presença marcante no imaginário humano. A paixão pelos monstros, a busca pela beleza em situações inusitadas, situações desviantes, tudo isso inspirou a melhor literatura (em especial a literatura fantástica) e também o próprio cinema. Burton não é inventor de um caminho, já aberto antes dele; apenas o desenvolve, e muito bem, no âmbito do cinema comercial. Em filmes como Batman, Edward Mãos de Tesoura, O Estranho Mundo de Jack, Ed Wood, Marte Ataca!, Planeta dos Macacos, A Noiva Cadáver, Alice no País das Maravilhas e, no mais recente, Grandes Olhos, Burton desdobra esse estilo. De maneira mais ou menos feliz, é verdade, mas sempre coerente consigo mesmo.

Quer dizer, há um núcleo particular nessas obras tão diferentes entre si, e este diz respeito a uma certa visão de mundo de Burton, expressa na própria linguagem dos filmes. Linguagem que ele tem de adaptar às exigências de um sistema comercial e competitivo, sem se corromper com ele. 

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Freud escreveu um ensaio chamado O Estranho (Umheimliche, em alemão), sobre o impacto produzido pela estranheza em nossas mentes. O estranho nos traz algo de familiar, porém um tanto deslocado. E, com isso, provoca uma sensação que é tanto incômoda quanto prazerosa. Nos tira da nossa zona de conforto e, ao mesmo tempo, abre possibilidades de enxergar as coisas e as pessoas por ângulos diferentes. Em seus filmes, mesmo os mais comerciais, Burton provoca esse sentimento inquietante. O de que os estranhos... bem, não são tão distantes assim de nós. Porque a estranheza, no fundo, está em nós, embora passemos a vida a negar-lhe a existência.

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