Christine Plenus
Christine Plenus

Análise: Em um mundo cínico, fábula moral causa estranheza em 'A Garota Desconhecida'

Houve quem condenasse o filme dos irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2017 | 04h00

Às vezes, um ato define uma vida. Ou são necessários dois atos? Assim acontece com a jovem médica Jenny Davin (Adèle Haenel) em A Garota Desconhecida. Ela está com seu estagiário no consultório quando toca a campainha. O horário do expediente já terminou e ela resolve não atender. No dia seguinte, descobre que uma garota foi morta na vizinhança. Uma garota negra foi assassinada. Talvez tenha sido ela quem tocou a campainha, em busca de um socorro que não veio.

 

O segundo ato da vida de Jenny Davin implica a obstinação em saber quem era essa mulher desconhecida, que seria enterrada como indigente, sem que ninguém soubesse seu nome. Jenny quer saber. Quem era, por que morreu, talvez quem a matou. Mas quer, acima de tudo, descobrir seu nome para que não seja enterrada de maneira anônima. É esse segundo ato, o belo gesto, que enche de sentido sua vida ao tentar dar sentido à morte da outra.

 

Houve quem condenasse o filme dos irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne. De fato, eles cedem um pouco em seu estilo mais seco, quase documental acerca dos desacertos sociais, e enveredam por um caminho que tem algo de fábula moral. Em determinados momentos, em especial no segundo ato de sua vida, Jenny se comporta à maneira de Michikin, o herói de Dostoievski em O Idiota.

Alguém tão bom, tão teimoso em sua obstinação moral, só pode ser louco. Um idiota. Como se sabe, idiotas desafiam a moral média e incomodam os normais. A moral média da nossa sociedade é a indiferença: se não é conosco, por que se preocupar? Quem perderia um segundo de sono por uma garota negra, uma nulidade social, que morreu anônima e não se sabe por quê? Ora, Jenny se preocupa. É o que dá significado à sua vida e, por extensão, à profissão que exerce.

 

Freud costumava dizer que era a culpa e não a fé que movia montanhas. Pode ser que se aplique ao caso. De qualquer forma, a omissão num primeiro momento desperta o sentimento de responsabilidade de Jenny no segundo. E a transforma em personagem démodée, uma médica que se dedica apenas a seus pacientes, os visita, trata e conforta, sem outras preocupações. Uma proposta desse tipo, em nosso mundo, só poderia causar mesmo incômodo e estranheza. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.